Costas Baltas/Reuters
Costas Baltas/Reuters

Como o coronavírus atingirá as economias da Europa?

'Embora alguns países estejam muito mais preparados do que outros, nenhum deles está preparado o bastante', disse um especialista

Jack Ewing, The New York Times

30 de março de 2020 | 06h00

Nenhum país europeu está escapando das consequências econômicas do coronavírus, mas o sofrimento não será dividido por igual. O sul da Europa, que penou com o impacto da última grande crise econômica, sofrerá mais. Países como Grécia e Itália dependem muito do turismo e ainda lidam com os efeitos do colapso da dívida da zona do euro na última década, com programas de austeridade que deixaram seus sistemas de saúde mal preparados para uma pandemia.

Outros países talvez tenham defesas insuspeitas. As economias com muitas empresas capazes de fornecer serviços digitalmente e onde os funcionários podem trabalhar de casa devem ter relativa resiliência. Este pode ser o momento da Estônia: sua capital, Tallinn, é palco de uma vibrante cena de startups digitais.

“Ainda não dá para dizer qual país será mais atingido e qual será mais resistente”, disse Carsten Brzeski, economista-chefe do banco holandês ING para a zona do euro. “Ainda estamos no meio da tempestade”. A economia europeia foi projetada para ser altamente interconectada, e mesmo os países que parecem relativamente bem protegidos não conseguirão se isolar da agonia de seus vizinhos.

“Embora alguns países estejam muito mais preparados do que outros, nenhum deles está preparado o bastante”, disse Ryan Morhard, especialista global em segurança da saúde do Fórum Econômico Mundial em Genebra. Veja a seguir como o vírus pode impactar diferentes regiões da zona do euro.

A Alemanha, com sólidas finanças governamentais, baixo desemprego e uma ampla rede de seguridade social, parece resiliente. O país tem mais leitos hospitalares de tratamento intensivo por habitante do que qualquer outro na Europa. Mas a Alemanha entrou na crise com um crescimento fraco, e suas fábricas de máquinas e automóveis são vulneráveis a interrupções na cadeia de suprimentos e a restrições ao contato social.

O fechamento de empresas como Volkswagen e Daimler causará aumento no desemprego. A Itália talvez seja mais vulnerável a uma pandemia do que os outros países desenvolvidos. O turismo constitui parte importante da economia, assim como as pequenas empresas. A enorme dívida do governo, equivalente a 137% do produto interno bruto, deixa Roma com pouca margem de manobra para oferecer apoio financeiro às empresas afetadas.

O país estava caminhando para uma recessão antes mesmo do ataque do coronavírus. Sua produção econômica ainda está menor do que era antes da recessão global de 2009. Sua população estava entre as mais saudáveis do mundo, mas o surto expôs uma perigosa escassez de leitos hospitalares para terapia intensiva.

Os Países Baixos são o lar de inúmeras grandes corporações. Mas contam com uma grande proporção de pequenas empresas, e o setor de transporte aéreo, o mais afetado nesta crise, é o principal empregador. Schiphol, nos arredores de Amsterdã, é um dos maiores aeroportos da Europa e um dos principais hubs da Air France KLM, que reduziu seus serviços em 90% e pediu ajuda do governo.

A Grécia, depois de uma década sombria de austeridade e declínio econômico, quando o desemprego chegou a 28% e o país perdeu um quarto da produção econômica, vinha mostrando sinais de recuperação. Mas, dentro da zona do euro, é o país que mais depende do turismo e das pequenas empresas.

Uma vantagem surpreendente para a Grécia é o orçamento: o país vem operando em superávit. A Espanha foi o país que apresentou o crescimento mais rápido da Europa no ano passado. Mas o desemprego, em quase 14%, ainda está entre os mais altos do continente, e o país só perde para a Grécia em termos de dependência do turismo. A Espanha também é um dos principais centros europeus da indústria automobilística. Volkswagen, Renault e Ford fecharam suas fábricas espanholas. Os hospitais da Espanha têm ainda menos leitos de terapia intensiva por habitante que os da Itália.

A França pode ser um pouco menos vulnerável que suas vizinhas. A manufatura não é tão importante para a economia. Muitos franceses trabalham para grandes empresas. E o turismo, surpreendentemente, tem pouca importância econômica. A Estônia tem uma das economias mais dinâmicas da zona do euro. O crescimento no ano passado foi superior a 4%, o desemprego se encontra abaixo dos 5% e a dívida pública é insignificante, o que abre muito espaço para estímulos fiscais.

O país é conhecido como um dos maiores especialistas em tecnologia do mundo. Mas também precisa proteger aqueles que não participaram do boom digital: mais de um quinto da população de 1,3 milhão vive na pobreza. / Matina Stevis-Gridneff contribuiu com reportagem. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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