(Simplycycling.org)
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Como o Estado Islâmico encerrou a viagem de um casal pelo mundo

Lauren Geoghegan e Jay Austin passaram meses economizando para a viagem

Rukmini Callimachi, The New York Times

19 Agosto 2018 | 10h15

Quando as pessoas perguntavam por que eles haviam deixado os empregos e partido para uma viagem de bicicleta ao redor do mundo, o jovem casal americano dava uma explicação bem simples: estavam cansados de reuniões e teleconferências.

“Tem muita mágica por aí, neste mundo lindo e imenso”, escreveu Jay Austin, que, junto com sua parceira, Lauren Geoghegan, entregou sua carta de demissão no ano passado, antes de embarcar as bicicletas para a África.

E, muitas vezes, o mundo provou que eles estavam certos.

No 319º dia de jornada, um cazaque parou o caminhão, disse “hello!” e lhes entregou duas barras de sorvete. No 342º dia, uma família apareceu com instrumentos de cordas no campo onde eles haviam montado a barraca e lhes ofereceu um concerto ao ar livre. E, no 359º dia, duas garotas de tranças os receberam no topo de uma montanha no Quirguistão com um buquê de flores nas mãos.

Eles também passaram por dificuldades, incluindo pneus furados, cães raivosos, granizo e doença.

Mas, para Austin e Geoghegan, ambos com 29 anos, os momentos de conexão humana superavam tudo isso.

E, então, chegou o 369º dia. O casal estava pedalando junto com um grupo de outros turistas por uma estrada panorâmica no sudoeste do Tadjiquistão. Nesse local, em 29 de julho, foram detectados por homens que supostamente gravaram um vídeo jurando fidelidade ao Estado Islâmico.

Um vídeo de celular todo granulado, feito por um motorista que passava pelo local, mostra o que aconteceu logo em seguida: o sedan Daewoo dos homens passa pelos ciclistas e, de repente, dá meia-volta. Vem em direção aos ciclistas, bate neles e passa por cima de corpos e bicicletas caídos. Ao todo, quatro pessoas foram mortas: Austin, Geoghegan e mais dois ciclistas da Suíça e da Holanda.

Dois dias depois, o Estado Islâmico divulgou um vídeo mostrando cinco homens que identificava como os agressores, todos sentados diante da bandeira do Estado Islâmico. Eles encaravam a câmera e faziam um juramento: matar os “infiéis”.

Era a visão de mundo mais oposta possível àquela que Austin e Geoghegan estavam tentando viver. Ao longo de suas viagens, o casal escreveu um blog e compartilhou posts no Instagram sobre a generosidade que eles queriam incorporar à própria vida e os atos de bondade das pessoas desconhecidas.

“Você fica com a sensação de querer retribuir, não apenas a essa pessoa que acolheu um estranho em sua casa, mas a todo o mundo”, escreveu Austin.

Em Washington, onde o casal se conheceu, Austin morava em uma casa minúscula, uma espécie de experimento dos princípios que o levaram à sua jornada ao redor do mundo.

Depois de concluir o mestrado na Universidade de Georgetown, ele começou a trabalhar no Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos. Convencido de que muitas das coisas que as pessoas acumulam são desnecessárias, ele começou a adotar um estilo de vida minimalista.

Construiu sua casa com as próprias mãos e deu a ela o apelido de “Caixinha de Fósforos”. De tão pequena - apenas 1,2 metros quadrados -, ela apareceu em vários programas de TV.

Outro objetivo era ampliar seu mundo. Como não tinha o peso de uma hipoteca sobre as costas, ele pôde tirar várias licenças não remuneradas de seu emprego no governo.

Primeiro, fez uma viagem de scooter pelos Estados Unidos. Em seguida, um mochilão de trem pela Europa. Depois veio a Namíbia. Depois, uma jornada pela Índia.

Em 2012, Austin (que crescera em Nova Jersey) conheceu Geoghegan, nascida no sul da Califórnia. Assim como ele, ela se formara em Georgetown e agora trabalhava na universidade.

Embora Geoghegan também fosse uma viajante experiente - passara um verão aprendendo árabe em Beirute e um semestre em Madri, onde ficou fluente em espanhol -, as jornadas aventurosas, marca registrada de Austin, eram novidade para ela.

Austin era vegano. Geoghegan se tornou vegetariana, disse sua amiga Amanda Kerrigan.

Em 2016, Geoghegan disse à Kerrigan que estava largando o emprego para andar de bicicleta ao redor do mundo. Kerrigan não conseguiu esconder a preocupação. “Eu disse: esta não é a Lauren que eu conheço”, contou ela, acrescentando: “Jay mudou a trajetória da vida de Lauren”.

O plano parecia ousado, mas o casal era metódico no planejamento. Eles fizeram um teste de um mês pedalando pelos vales da Islândia. Passaram meses guardando dinheiro e, enfim, perceberam: não dava para fazer a viagem só com uma licença prolongada.

“Estou me demitindo hoje”, Austin postou um mês antes da partida, no verão passado.

No dia em que Geoghegan e Kerrigan se despediram, as duas amigas deram um longo abraço na frente do apartamento de Geoghegan.

“No instante em que seu instinto lhe disser que tem alguma coisa errada, fuja”, disse Kerrigan. Ela estava preocupada porque sua amiga era muito bondosa e porque temia que Austin tivesse tolerância 

demais ao perigo.

O casal começou a viagem no extremo sul da África. Em um post, Austin escreveu sobre a 

vulnerabilidade de andar de bicicleta. “Com essa vulnerabilidade, vem uma imensa generosidade: as pessoas boas vão reconhecer seu desamparo e vão reconhecer que você precisa de algum tipo de ajuda e vão oferecer de tudo”.

Sua jornada foi uma série de provações exaustivas, pontuadas por momentos de bondade. Eles pedalavam por caminhos de terra, por leitos secos de rios e por asfalto esburacado, dias e dias sem tomar banho. Os dias viraram semanas e as semanas viraram meses. Seus corpos começaram a dar sinais de esgotamento. Uma infecção no ouvido levou Geoghegan para o pronto-socorro na França. Eles sofriam constantes problemas estomacais e dores de garganta.

Ao longo das viagens, os posts no blog registraram flashes de crueldade. Em uma rota montanhosa, um grupo de homens bloqueou seu caminho e tentou empurrar o casal de suas bicicletas.

Mesmo assim, quando chegaram àquela curva da estrada, já haviam abraçado a ideia de que o mundo era inacreditavelmente bom. As dezenas de fotografias e as milhares de palavras que eles deixaram para trás são prova disso.

“O mau é uma ficção que inventamos para lidar com as complexidades dos seres humanos que têm valores, crenças e perspectivas diferentes das nossas”, escreveu Austin. “No geral, os humanos são gentis”.

No vídeo divulgado pelo EI, os homens que juram lealdade ao grupo podem ser vistos sentados sobre um bloco de pedra, um lago de água-marinha parcialmente visível no alto da tela. É o tipo de paisagem que o jovem casal poderia ter parado para fotografar e postar no blog.

Mas, no vídeo, quando os homens apontam para o cenário ao redor, é para jurarem massacrar os “infiéis” que invadiram suas terras.

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