Matt Kennedy/Annapourna Pictures
Matt Kennedy/Annapourna Pictures

Como o trabalho de maquiagem transformou Christian Bale em 'Vice'

A espantosa transformação do ator mostra a evolução da indústria de próteses em Hollywood

Andrew R. Chow, The New York Times

10 de fevereiro de 2019 | 06h00

Os espectadores serão perdoados se não reconhecerem o ator Christian Bale em Vice, no filme em que ele é o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney. Longas rugas descem das narinas quase até o maxilar, que afunda em um colarinho engomado. A mandíbula tem a forma de uma bola de beisebol, e há profundos sulcos na testa sobre as sobrancelhas densas, franzidas.

Nem um ator tão consumado quanto Bale, que engordou 18 quilos para o papel, consegue sair desta metamorfose sozinho. Os realizadores do filme contrataram uma equipe de maquiadores, ganhadores de Oscar, que criaram mais de cem peças de silicone para ajudá-lo a personificar Cheney, e o transformaram no ex-vice-presidente em cinco fases da sua vida.

Vice recebeu oito indicações ao Oscar, inclusive uma por maquiagem e penteados, e uma para Bale, que concorre na categoria de melhor ator no papel central. A espantosa transformação de Bale é a demonstração mais recente de que a indústria de próteses em Hollywood está em pleno desenvolvimento.

Embora muitas vezes ela seja utilizada para conseguir efeitos hiper-realistas, o objetivo inicial da prótese era exatamente o oposto. “Por muitas décadas, ela produziu apenas monstros e seres imaginários”, disse Brian Wade, artista que esculpiu peças faciais para Vice. Wade cresceu admirando os seres estranhos que apareceram em clássicos como Frankenstein, de 1931 - no qual foram utilizados materiais toscos como algodão e cola cosmética para transformar Boris Karloff na criatura -, e Planeta dos Macacos, de 1968.

Embora a maquiagem dos macacos do artista John Chambers fosse revolucionária na época, eles parecem desenhos animados vistos pelos padrões atuais. Apesar dos seus esforços e dos de outros pioneiros, a arte da maquiagem da época foi prejudicada por um conhecimento básico muito escasso, por orçamentos míseros e baixas expectativas.

No filme O homem elefante, de 1980, o diretor David Lynch pretendia inicialmente criar o rosto tremendamente deformado do personagem-título. Somente depois de chegar a um beco sem saída, Lynch contratou Christopher Tucker, que aperfeiçoou a sua arte lendo livros de química sobre espuma de látex e testando os preparados no fogão de sua mãe, na Inglaterra.

Tusker criou uma base de espuma de látex em duas camadas, para ampliar os contornos faciais do rosto do ator John Hurt, e depois colocou sobre ela o rosto do Homem Elefante. Hurt tinha de chegar no set às quatro horas da madrugada e sentar na poltrona da maquiagem por oito horas para a aplicação da prótese. Depois da filmagem, ele precisava esperar mais duas horas para que fosse retirada.

No ano seguinte, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas criou uma categoria permanente de Oscar para maquiagem e penteados, mas, àquela altura, O homem elefante já não podia mais concorrer. Os artistas elaboraram muitos personagens impressionantes e inovadores utilizando próteses, na década seguinte, como Os fantasmas se divertem, O exterminador do futuro e A mosca.

Mas o realismo ainda estava muito distante, em grande parte por causa das limitações da espuma de látex. “Era horrível”, disse Greg Cannom, designer das próteses e dos efeitos da maquiagem de Vice. “O pescoço costumava enrugar e desmontar. Se o ator sorria, surgiam rugas estranhas em volta da boca e dos olhos”.

Nos anos 1990, os principais artistas de próteses experimentaram o silicone. Kazuhiro Tsuji desenvolveu um produto de silicone aplicado a uma pele semelhante à do ser humano no alienígena disfarçado Edgar, de Homens de Preto. Cannom desenvolveu outro para O homem bicentenário, baseado em androides. 

“O silicone se mexia naturalmente, como nenhum outro material que havíamos usado antes”. À medida que a maquiagem ia se aperfeiçoando, o mesmo acontecia com as imagens geradas por computador, que alguns artistas consideraram uma ameaça. Mas o método computadorizado também permitiu que os realizadores apagassem os pequenos erros nas bordas das peças de silicone, acabando com a obrigação da perfeição.

Cannom contou que não foi necessário nenhum retoque em Vice. Foi criado um molde tridimensional idêntico à cabeça de Bale; um artista esculpiu modelos das peças protéticas em argila. As peças de argila foram usadas para fazer uma massa e moldes de resina epóxi, que foram usados para as peças de silicone. Estas foram aplicadas a Bale; as tarefas mais complexas levaram até quatro horas. O objetivo era criar o máximo de semelhança e permitir que Bale fosse expressivo.

“As maquiagens mais bem-sucedidas não são aquelas que tentam esconder completamente o ator”, disse Wade. Cannom afirmou que Bale foi fundamental na criação do design final. Ele sugeriu que seu pescoço fosse mais grosso, e Cannom o atendeu construindo novas peças. Cannom contou como foi no dia em que Bale chegou no set já como Cheney. “Ele vestiu o termo, entrou no escritório e todo mundo não acreditou”, afirmou com uma risada. “Fiquei chocado. Era o próprio Dick Cheney”.

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