Michelle Mishina-Kunz para The New York Times
Michelle Mishina-Kunz para The New York Times

Como uma velha caixa pode definir o destino do triatlo Ironman

O criador da competição e os primeiros participantes cobram na Justiça a posse da marca

John Branch, The New York Times

07 de março de 2019 | 06h00

HAIKU, HAVAÍ - Numa noite de outubro em 1979, um integrante da marinha dos Estados Unidos chamado John Collins foi de motocicleta modelo Triumph até um clube esportivo de Honolulu. Ele trazia consigo apenas uma caixa de documentos. 

Collins, que recebia o crédito pela criação de uma excêntrica competição chamada triatlo havaiano Iron Man, tinha sido designado a um novo posto e precisava de alguém para tomar conta da terceira edição do evento. As duas primeiras tiveram 15 participantes cada. Ele entregou a caixa a Hank Grundman e sua mulher, Valerie Silk. Dentro da caixa havia aquilo que seria considerado hoje uma ideia bilionária. 

"Não ocorreu nenhum tipo de pagamento", disse por e-mail Judy Collins, mulher de John. "Nenhum documento foi assinado".

A competição Ironman gosta de contar a história de suas origens humildes, transformando mitologia em marketing. Mas não é mencionado o episódio da caixa, nem as pessoas que continuam ressentidas com aquele momento, passadas quatro décadas.

Foi Valerie, então casada com Grundman, quem transformou o conteúdo daquela caixa em ouro. O Ironman cresceu constante e exponencialmente até se tornar o mais icônico teste de resistência física do mundo e uma das mais valiosas marcas esportivas do mercado. Ela pertence agora a um conglomerado chinês chamado Dalian Wanda Group, que pagou US$ 650 milhões pela marca em 2015. A Ironman organiza mais de 260 corridas em 44 países, com 680 mil participantes anuais.

Nenhum dos envolvidos originais ganhou dinheiro com esse sucesso, e alguns deles ainda se ressentem com isso, dizendo que nunca deveriam ter cedido a marca (Valerie disse que o Ironman foi vendido por cerca de US$ 3 milhões em 1989, e boa parte dessa soma foi dissipada com impostos e honorários advocatícios).

Ninguém se sente mais frustrado com essa situação do que John Dunbar, segundo colocado nas duas primeiras provas. Ele tem suas próprias caixas, cheias de documentos jurídicos confirmando sua participação no nascimento do evento e seu direito de propriedade. Mas eles nunca resultaram em nada. 

Dunbar é uma figura lendária no universo do Ironman. Liderou a primeira prova, disputada em 1978, até perder velocidade por causa de um par de cervejas geladas perto da linha de chegada. Ficou em segundo lugar no ano seguinte, em uma prova tão épica quanto a primeira, apontando o Ironman na direção da fama e da fortuna. A corrida chamou a atenção de um repórter da Sports Illustrated chamado Barry McDermott, que escreveu uma matéria espalhada em dez páginas gostosas de ler. Dunbar chegou vestido de Super-Homem para participar da competição.

Dunbar acredita que o Ironman pertence a ele e aos outros 14 que participaram da primeira prova, incluindo Collins. Ele continua defendendo seu ponto de vista, mesmo depois de os tribunais terem lhe dito que era tarde demais, e mesmo depois de outros participantes originais que competiram ao lado dele, incluindo o primeiro campeão, terem desistido de exigir uma parte de algo que ainda acreditam que deveria lhes pertencer.

"Quem sabe a Wanda Corp. decide que é hora de honrar essa dívida", disse Dunbar. Ele riu. "Estou sonhando, não é?". Aos 65 anos, Dunbar continua magro e bronzeado. Ainda nada no oceano e anda de bicicleta nas estradas. 

Em outubro, Dunbar estava em casa em Maui quando, na ilha vizinha, 2.500 atletas participavam do triatlo Ironman. Era o 40.º aniversário do evento, e representantes dos primórdios da competição, entre eles vários dos 15 corredores originais, compareceram para prestigiar a ocasião. Dunbar estava ausente, como de costume. Atualmente, ele não é convidado para o Ironman.

Antes do primeiro evento, John Collins escreveu um manual de regras de três páginas. "Primeiro triatlo havaiano anual Iron Man, 18 de fevereiro de 1978 às 7h", diziam as letras escritas à mão na capa (posteriormente, o nome "Ironman" ficou consagrado). Havia um mapa de Oahu feito à mão, com um tracejado indicando o trajeto da prova, que começava e terminava em Honolulu. "Nade por 3,85 km! Corra por 42 km! Pedale por 180 km! Depois, pode se gabar pelo resto da vida!"

As outras páginas continham dez regras tipografadas. Uma delas insistia para que o evento fosse "um desafio pessoal, e não uma competição". Outra dizia que haveria poucos fiscais ao longo do trajeto. "A 'honra' é o que vale!", escreveu Collins. Mas foi a regra 8, que definia uma tarifa de inscrição de US$ 5, que acabou trazendo mais problemas posteriormente.

"O evento será patrocinado pelos participantes, que entrarão para o 'Comitê Organizador do triatlo havaiano Iron Man' como condição de sua participação", escreveu Collins.

"Dessa maneira, se alguém movesse um processo, estaria agindo contra si mesmo. Pensamos que seria algo inteligente", explicou Judy Collins recentemente por e-mail.

Mas quando o Ironman cresceu muito, anos depois, Dunbar e outros interpretaram a regra como se cada um dos 15 participantes fosse dono de uma fatia igual do Ironman. "Todos participamos do evento", disse ele. "Uma parte disso é nossa".

Em 1978, ninguém imaginou o que poderia ser o futuro da prova. Hoje, Dunbar balança a cabeça ao recordar toda a saga. "Podem dizer que nosso interesse era o dinheiro", disse ele. "Para mim, é uma questão de princípio". Ele mostrou os conteúdos da sua própria caixa, cabisbaixo, como quem folheia um caderno de recortes de jornal. É tudo o que a caixa representa agora: memórias que já não valem nada para mais ninguém. 

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