Suzie Howell para The New York Times
Suzie Howell para The New York Times

Uma companhia aérea está no chão, assim como a economia da Islândia

A WOW Air parou de voar, a Islândia está sofrendo com uma queda no número de turistas, o que ameaça arrastar o país para uma recessão

Peter S. Goodman e Liz Alderman, The New York Times

27 de setembro de 2019 | 06h00

REYKJAVIK, Islândia - Em retrospecto, provavelmente não foi a melhor das ideias deixar a sorte da economia da Islândia atrelada a uma companhia aérea chamada WOW.

Antes de encerrar as atividades, em março, a WOW Air transportava mais de um quarto de todos os visitantes estrangeiros para essa nação insular de espetaculares acidentes geográficos. Suas tarifas inacreditavelmente baixas - por exemplo, US$ 199 por uma ida e volta a partir de Nova York ou São Francisco - foram elementos-chave para uma bonança no turismo que ergueu a Islândia da sua catastrófica crise financeira de 2008.

Agora, seis meses depois que a WOW parou de voar, a Islândia está sofrendo com uma queda no número de turistas que visitam o país, o que ameaça arrastá-lo para a recessão. Essa crise completa um ciclo familiar para as 350 mil pessoas que habitam essa ilha tão propensa a períodos de expansão econômica e falências subsequentes.

A WOW se aproveitou da crise financeira, que tornou o país um destino mais acessível. Então, a empresa aérea ajudou a tornar as geleiras islandesas o pano de fundo para incontáveis selfies, transportando ao país milhões de visitantes e impulsionando seu crescimento. Finalmente, a WOW desapareceu, trazendo os problemas de volta à Islândia.

Companhias de turismo, hotéis e comerciantes estão se lamentando em razão de cancelamentos e diminuição nas vendas, o que os está forçando a baixar os preços. O banco central da Islândia alertou que a economia do país poderá se retrair este ano, fazendo sua diretoria abaixar as taxas de juros.

“Estamos sentindo o impacto”, afirmou Solveig Ogmundsdottir, 70 anos, uma bibliotecária aposentada que costura brasões de papagaios-do-mar em bonés e os vende nas proximidades do porto de Reykjavik, a capital da Islândia. Suas vendas caíram 20% este ano, disse ela, uma tendência que ela atribui ao fechamento da WOW.

Inaugurada em 2011, a WOW Air foi idealizada por Skúli Mogensen, cujos impetuosos anúncios, marketing irreverente e apetite para a aventura invocam comparações com Richard Branson, o empresário por trás da Virgin Atlantic.

Mogensen tinha a intenção de tornar Reykjavik um grande hub internacional de aviação, aproveitando-se de sua posição, quase no topo do globo terrestre, para transportar passageiros entre América do Norte, Europa e Ásia em menor tempo do que as rotas tradicionais. A Islândia seria uma escala atraente, quando não o destino final.

“Todos pensaram que eu estava louco”, afirmou Mogensen. “Talvez estivessem corretos, o que me fez querer isso ainda mais. Eu não sabia praticamente nada sobre a indústria aérea.”

Durante algum tempo, ele pareceu um prodígio. Entre 2011 e 2015, o número de turistas em visita à Islândia mais que dobrou, chegando a 1,3 milhão ao ano, refletindo a força das mídias sociais no estímulo ao turismo. Quando os fãs de Game of Thrones descobriram que cenas da série foram gravadas na Islândia, empreendedores inauguraram passeios turísticos em locações-chave. O videoclipe de 2015 de Justin Bieber, I'll Show You, mostrava o deslumbrante cânion Fjadrárgljúfur, o que levou milhares de turistas a visitar a região.

Naquele ano, a WOW ampliou seus serviços na América do Norte. Em 2018, cerca de 2,3 milhões de turistas chegaram. Mas, ao ampliar seu serviço para Los Angeles e São Francisco, a WOW adquiriu aeronaves de fuselagem larga. Novas cabines premium complicaram os negócios e aumentaram os custos de operação - e a lucratividade deu lugar às perdas. Este ano, o dinheiro acabou.

Birgitta Jondottirb trabalhava em período integral na WOW. Agora, ela trabalha em meio período, conduzindo passeios turísticos por túneis de uma geleira perto de Húsafell, a duas horas de Reykjavik. “As coisas têm sido um pouco mais difíceis”, disse ela.

A expectativa é que o número de visitantes internacionais caia 16% este ano. “Todos estão sofrendo”, afirmou Stefan Gudjonsson, chefe de pesquisa no Banco Arion. “Estamos analisando quais projetos serão suspensos.”

Especialistas expressam confiança de que uma recessão não desencadeará pânico financeiro. Ainda assim, o turismo é a maior indústria da Islândia.

“Isso é muito ruim para nós”, afirmou Gauja Helgudottir, enquanto supervisionava o atendimento no balcão do Centro Islandês de Focas, um museu de focas e centro de pesquisa em Hvammstangi, no noroeste do país. O número de visitantes caiu mais de um terço, disse ela.

Em Reykjavik, o declínio do turismo não é tão facilmente percebido. Os turistas enchem os restaurantes que servem carne de baleia e papagaios-do-mar. Mas as pessoas que ganham a vida no comércio lamentam a mudança. “Podemos sentir a pressão”, afirmou Jana Arnarsdottir, 23 anos, enquanto arrumava as mesas para o serviço do almoço no Glo, um restaurante vegano. “Toda a cidade é afetada pelo turismo.”

Em Hestaland, uma fazenda nas imediações da cidade de Borgarnes que organiza passeios em cavalos islandeses por trilhas, e no Lago Myvatn, onde os turistas desfrutam do calor de fontes termais, a procura por acomodações despencou. Ainda assim, alguns consideram secretamente que uma queda no turismo pode ser saudável, um merecido descanso para uma ilha sobrecarregada.

Hordur Mio Olafsson, 32 anos, cujo negócio de família conduz os turistas por cavernas vulcânicas próximas a Húsafell, afirmou: “O que as pessoas buscam aqui é a natureza intocada deste estranho país do Atlântico Norte, cheio de mistério. Agora, temos a chance de fazer as coisas da maneira correta.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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