Michael Kirby Smith para The New York Times
Michael Kirby Smith para The New York Times

Companhias de dança questionam papéis de gênero no balé

Grandes estúdios estão revendo os estereótipos da dança clássica e buscam desenvolver bailarinos mais versáteis

Madison Mainwaring, The New York Times

06 de fevereiro de 2019 | 06h00

Num dia recente no American Ballet Theater, em Nova York, o mestre bailarino Vladilen Semenov se mantinha em relativo silêncio, explicando uma combinação antes de se afastar para observar uma aula mista. Mas os dançarinos tinham seus próprios objetivos, testando seus corpos e experimentos de agilidade e flexibilidade. Algumas das mulheres estavam de sapatilha sem ponta para testar os passos dos homens.

O balé é tido como uma arte que alça as mulheres a um pedestal - os bailarinos literalmente as erguem sobre suas cabeças -, reforçando ideias convencionais a respeito da masculinidade e feminilidade. O pas de deux, um romântico dueto de homem e mulher, é considerado o passo essencial dessa dança, mas pode parecer sentimental, ou pior, sexista.

Poderia o balé refletir ideias mais contemporâneas a respeito dos gêneros? Essa pergunta é crucial para determinar a posição futura do balé e sua recepção, principalmente entre espectadores menos acostumados com suas tradições.

Mas esses estereótipos vêm sendo questionados nos estúdios das companhias de dança, com bailarinos de toda parte se perguntando por que sua identidade de gênero deveria determinar sua forma de dançar. As mulheres são capazes de saltos mais altos e completam mais giros do que jamais visto antes, habilidades tradicionalmente associadas aos bailarinos. Por sua vez, os homens estão treinando para incorporar a flexibilidade e a graça que há muito são o marco das bailarinas.

Em vez de distorcer a forma, como temem alguns puristas do balé, os dançarinos que testam os limites dos papéis dos gêneros no treino "são mais versáteis e podem ser usados de diferentes maneiras", disse o mestre bailarino Jonathan Stafford. Talvez as posições codificadas do balé não mudem, mas essa tendência está conferindo nova dinâmica aos seus antigos passos.

Ashley Bouder, primeira bailarina do Balé da Cidade de Nova York, é grata aos professores que teve na adolescência por terem dado a ela uma ideia ampla de suas habilidades. 

"Para eles, não havia motivo que me impedisse de fazer o mesmo que os rapazes faziam", disse ela.

Segundo Ashley, tais treinos ajudaram a desenvolver seu famoso salto, desafiando a gravidade e pairando no ar. Usando música mais lenta (para que os bailarinos treinem a impulsão), as aulas masculinas são o complemento fundamental para o aprimoramento dessa técnica. 

Muitas primeiras bailarinas do Balé da Cidade de Nova York frequentam aulas para dançarinos. E esses números estão aumentando por toda parte, principalmente nas companhias dos grandes talentos da arte, como Royal Ballet, Bolshoi e o Balé da Cidade de Miami.

O advento dos treinos de força para as dançarinas, duas décadas atrás, deu a elas uma nova gama de passos no estúdio. Mais importante, o debate contínuo a respeito das questões de gênero levou-as a repensar em seus próprios termos aquilo que podem fazer com seus corpos.

"Os treinos me deixaram mais livre, menos confinada a uma determinada aparência que uma mulher teria de manter no palco", disse a solista Katherine Williams, do Ballet Theater, a respeito de participar das aulas masculinas.

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