Hiroko Masuike/The New York Times
Hiroko Masuike/The New York Times

Compartilhar refeições em restaurantes nem sempre é uma boa ideia

A tendência de dividir pratos tem enfurecido algumas pessoas, que saem dos restaurantes ainda famintas

Alex Williams, The New York TImes

19 Abril 2018 | 10h15

Um dia desses, estava jantando com cinco amigos quando um garçom pronunciou a temida frase: “Será melhor dividirem”.

Dividir está na moda. Pratos pequenos, pratos grandes, entradas ou prato principal - todos podem ser experimentados em uma mesa. Hoje, supõe-se que tudo seja mais comunitário, os comensais podem provar mais pratos, e por outro lado este novo hábito se incorpora à maneira como inúmeras pessoas comem no mundo. Por isso, quem poderia se dizer contra este costume?

Eu, por exemplo.

A maneira de servir as refeições típica do continente, em que os pratos são levados à mesa em sequência e servidos individualmente, é conhecido como service à la russe, e se espalhou da Rússia à Europa, e dali aos Estados Unidos, no final do século 18, segundo Ken Albala, fundador do Departamento de Estudos da Alimentação da Universidade do Pacifico, em Stockton, na Califórnia.

Já na década de 1990, muitos americanos passaram a dividir os pratos somente nas visitas a restaurantes chineses, indianos e árabes, explicou Krishnendu Ray, presidente do Departamento de Nutrição Estudos da Alimentação da Universidade de Nova York.

Estas normas caíram quando a literatura sobre alimentação explodiu com a ascensão das redes a cabo sobre comida e os blogs de gastronomia. Os frequentadores dos restaurantes compreenderam que é na seção de entradas que os chefs muitas vezes assumem os maiores riscos, por isso passaram a pedir entradas em massa. Isso levou à apresentação de pequenos pratos para serem divididos.

A refeição no restaurante deixou de ser uma experiência apressada, isolada; tornou-se uma festa, uma oportunidade para fotos nas redes sociais.

Eu entendo isso. Mas não tenho certeza se será preciso ser um reacionário cultural para dizer: “Espere um minuto”.

Vamos começar com a questão mais básica: o ritmo. Uma refeição clássica no Ocidente tem começo, meio e fim claros. O que acontece quando todo mundo trata de experimentar tudo o que está na mesa? A refeição se torna uma bagunça.

Então, as pessoas à mesa precisam fazer um grande teatro de sua generosidade de espírito, tomando o cuidado para não consumir com exagero os melhores pratos e acabar tendo de limpar a travessa, porque, como todo mundo sabe, às vezes alguém precisa fazer isso. Todos vimos aquele último camarão, sozinho sobre a mesa, já que todo mundo se mostrou demasiado educado para acabar com ele.

Ao mesmo tempo, o fluxo da conversação fica inibido. Quando estou compartilhando com um grupo, tenho a impressão de ter duas opções: conversar ou comer. Uma pessoa não pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, principalmente quando é torturada pela ansiedade ao ver com o canto do olho as alcachofras fritas desaparecerem enquanto sua história começa a ficar comprida demais.

Sem falar que antes que o repasto comece, você precisa concordar com as normas básicas. Alguém aqui é vegetariano? Alguém não come mariscos? Uma refeição compartilhada é uma reunião do comitê.

Eu preferiria conservar minha soberania sobre o meu pedido, conversar e comer levando todo o tempo do mundo, como gosto de fazer.

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