Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times
Ellen Barry, The New York Times

24 de maio de 2019 | 06h00

HELSINQUE, Finlândia - Umas dez garotas esperavam em uma fila na arena de Helsinque para a competição de adestramento, prontas para mostrar a respectiva habilidade na equitação; nos seus rostos estava estampada uma concentração total. O juiz determinou os seus andamentos - passo, trote, galope - e pediu para dar três passos para trás, um teste de treinamento e obediência do cavalo. O juiz olhava com uma expressão grave.

Se alguém achou estranho que as moças cavalgassem cavalinhos de pau, ninguém deixou perceber. Atualmente, o mundo de faz de conta dos cavalos de pau estende-se até onde a vista alcança. Um veterinário ensinou às meninas os cronogramas de vacinação dos cavalos, e também: “Verifiquem que os olhos estejam claros e que não haja descarga nasal”. As moças discutiram sobre linhagem e temperamento. Entre as que ouviam estava Fanny Oikarinen, 11, que mora ao norte de Helsinque, a capital. Ela é compenetrada, tem cabelos longos ruivos e um piercing de prata no nariz.

“Não tenho afinidade pelas coisas normais de que as garotas normais gostam”, disse Fanny. Mas ela está plenamente à vontade no mundo dos cavalinhos de pau. Fanny e a sua amiga, Maisa Wallius, estão treinando para as competições que ocorrerão no verão. Elas coreografaram uma rotina de adestramento em duas partes ao som de uma música da rapper Nelly.

É difícil dizer exatamente quando começou a loucura por estes cavalos entre os finlandeses, porque demorou anos para os adultos tomarem consciência dela. Em 2012, uma cineasta, Selma Vilhunen, descobriu grupos de discussão na internet usada por entusiastas de cavalos de pau.

Eles inventaram uma forma de adestramento desses cavalos, em que a parte inferior do cavaleiro empina e galopa como um cavalo de verdade, enquanto a arte superior permanece ereta e imóvel como um cavaleiro. “Era como uma sociedade secreta”, disse Selma. Uma das garotas que ela procurou como guia foi Alisa Aarniomaki, uma adolescente da costa oeste da Finlândia.

Alisa era uma celebridade no mundo online por seus cavalos costurados à mão e pelos vídeos sobre hipismo, mas elas estava temerosa em deixar que as suas colegas de classe soubessem do seu hobby. Quando fez 12 anos, algumas amigas a viram treinando e zombaram dela. Alisa disse: “Elas falaram que eu nunca encontraria um namorado.

Quando o documentário de Selma, Hobbyhorse Revolution, estreou em 201, provocou muitas gargalhadas em seu público. “Essas garotinhas podem ser fortes e grosseiras”, ela disse. “Acho que a sociedade começa a fazer com que elas se aquietem de certo modo com a chegada da puberdade”.

O divertimento com os cavalos de pau agora é celebrado, com campeonatos realizados todo ano no verão. Alisa, que atualmente tem 22 anos e mora em Helsinque com o namorado, foi convidada a dar demonstrações na Suécia, Rússia e Holanda. Ela foi a uma festa na França em que os adultos  receberam cavalinhos de pau como uma forma, como ela disse, “de fuga da sua enfadonha vida normal e até mesmo estafante”.

Quando as pessoas falam que o que ela faz não passa de uma brincadeira, ela fica furiosa, contou. “Se alguém diz que nós estamos brincando, acaba com tudo o que realizamos, elimina a realidade”, ela disse. Quando Fanny chegou à adolescência, ali estava a comunidade para recebê-la. Hoje, ela se sente cada vez mais diferente das garotas com as quais cresceu. Ouve heavy metal; dois anos atrás decidiu que era gótica, e passou a vestir roupas pretas, esvoaçantes. “Não tenho muitos amigos”, afirmou.

Foi neste ambiente que Fanny adquiriu o seu primeiro cavalinho por 24 euros, ou US$ 27, uma égua árabe malhada à qual deu o nome de Amanda. Imediatamente, ela sentiu que tinha encontrado a “coisa” de que precisava. Recentemente, Maisa trouxe Tarzan - “É um cavalo muito manso, que aprende rapidamente, e adora saltar” - e as garotas dispararam na tarde fria.

Saíram numa corrida desabalada, pisando na lama com suas botas. Depois entraram na floresta onde a neve era muito alta. Galoparam através de emaranhados de pinheiros até suas faces parecerem queimar com o ar gelado. Correram por uma hora, rindo o tempo todo, dispostas a penetrar ainda mais na floresta e o teriam feito se suas mães não tivessem mandado que voltassem para casa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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