O benefício das conversas com estranhos

O benefício das conversas com estranhos

Os breves contatos sociais com pessoas da vizinhança têm sido fundamentais para o meu bem-estar, escreve a autora

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

17 de agosto de 2020 | 05h00

Sempre fui uma pessoa extrovertida, e gosto de estabelecer contatos casuais com pessoas que encontro na vida diária, passeando com o cachorro, fazendo compras no supermercado, fazendo exercícios na academia e até varrendo a calçada. Estas conexões efêmeras acrescentam diversidade à minha vida, são uma fonte de informações úteis e, muitas vezes, me proporcionam o necessário apoio emocional e físico. Igualmente importante é o fato de que quase sempre me deixam com um sorriso no rosto (embora agora esteja escondido embaixo da máscara).

Nos últimos meses, com a ordem de permanecer em casa por causa da pandemia do coronavírus, muitas pessoas perderam estes encontros diários. Eu fiz o máximo para preservar quantos pude, enquanto lutava para me preservar. Como o tempo para estar com a família e os amigos mais próximos é muito limitado pelo desejo mútuo de evitar a exposição à covid-19, os breves contatos sociais distanciados com pessoas da vizinhança, tanto as que conheci casualmente há anos, e as que acabei de conhecer, têm sido fundamentais para o meu bem-estar emocional e prático, e quem sabe até para a minha saúde.

Os benefícios que associo às pessoas que conheci casualmente foram reforçados recentemente por um achado fortuito. Durante uma limpeza inspirada pela covid, dei com um livro da minha biblioteca intitulado Consequential Strangers: The Power of People Who Don’t Seem to Matter... but Really Do (Estranhos Consequenciais: O Poder das Pessoas que Parecem não Importar, Mas Importam, em tradução livre). Publicado há 11 anos, este volume esclarecedor é de autoria de Melinda Blau, que escreve sobre ciência, e Karen L. Fingerman, atualmente professora de psicologia da Universidade do Texas, em Austin, que estuda a natureza e os efeitos dos chamados vínculos fracos que as pessoas estabelecem com os outros em suas vidas: o barista que busca seu café, a pessoa que corta o seu cabelo, o proprietário do mercado local, as pessoas que veem frequentemente na academia ou na estação de trem.

Em uma entrevista, Fingerman observou que as relações casuais com pessoas encontradas no decorrer da vida diária podem nos dar a sensação de que pertencemos a uma comunidade, o que ela descreveu como “uma necessidade humana básica”.

Como ela e Melinda Blau escreveram em seu livro, os estranhos consequenciais “são tão vitais para o nosso bem-estar, para o crescimento e para a nossa existência no dia a dia quanto a família e os amigos íntimos. Eles nos ancoram ao mundo e nos fazem sentir conectados a algo maior. Eles também ampliam e enriquecem a nossa vida e nos oferecem as oportunidades de novas experiências e informações que estão além do alcance do nosso círculo íntimo. São relações sociais vitais - pessoas que nos ajudam a chegar até o fim do dia e a tornar a vida mais interessante”.

A minha tendência a “bater longos papos” com absolutos estranhos que encontrei pela vida afora resultou em uma série de conhecidos que preenchem meus dias com conversas agradáveis, conselhos, informações, a assistência de que necessito e, o que é mais importante de tudo durante este período de semi-isolamento forçado, uma valiosa sensação de relacionar-me com pessoas que compartilham do meu ambiente.

O fechamento determinado pela covid-19 lembra a muitos quão importantes são os relacionamentos para a nossa qualidade de vida - não apenas os relacionamentos com os amigos e os familiares que amamos e conhecemos bem e que nos conhecem bem, mas também com os mais casuais, que nos ajudam a manter uma perspectiva positiva durante estes tempos sombrios e angustiantes.

A pesquisa de Fingerman mostrou também que as pessoas mais integradas socialmente são também mais ativas fisicamente. “O sedentarismo mata as pessoas”. Ela disse. “Você precisa levantar e se mexer para estar em contato com as pessoas que conhece durante a sessão de ginástica”. Os estranhos consequenciais também são benéficos para o nosso cérebro, acrescentou, porque “conversar com eles é mais estimulante do que com as pessoas que conhecemos bem”.

Uma colega pesquisadora do mesmo campo, Katherine L. Fiori, presidente do departamento de psicologia da Universidade Adelphi, que estuda as redes sociais dos adultos mais velhos, concluiu que as atividades que promovem “laços mais fracos” do que os que formamos com a família e os amigos íntimos proporcionam uma maior satisfação de viver e melhor saúde emocional e física.

“Quanto maior o número de laços mais fracos, mais forte é a associação com sentimentos positivos e menos sentimentos depressivos”, afirmou Fiori em uma entrevista. “Claramente não é verdade que os laços próximos sejam tudo aquilo de que adultos mais velhos necessitam”.

E não apenas os adultos mais velhos, mas todos os adultos. Fingerman disse que a pesquisa mostrou que, em geral, “as pessoas se sentem melhor quando tem um grupo mais diversificado de pessoas em sua vida”. Mas como Fiori observou: “Infelizmente, a covid reduziu de maneira considerável a nossa capacidade de manter laços mais fracos. Poderá levar muito mais tempo para conseguir isto on-line”.

Para fazer frente à solidão e manter suas numerosas relações casuais, uma das minhas amigas da academia começou um grupo por e-mail que, não só preencheu a falta de conversas diárias, como também lhe proporcionou um sistema de apoio constante para o caso dela se machucar e lutar com o isolamento mais sombrio.

Em seu livro, Blau e Fingerman enfatizam a importância de criar e de estar em ambientes que estimulam os relacionamentos com estranhos consequenciais. Há dezenas de anos, quando The New York Times ergueu cubículos para seus redatores e editores, destruiu um ambiente que permitia a troca de informações e promovia a camaradagem. Isto me levou a trabalhar em casa na maior parte dos dias, poupando-me o tempo e o esforço para me vestir, para ir ao trabalho e tomar a condução. Desconfio que quando as limitações da covid forem finalmente suspensas, muito mais pessoas que trabalham no escritório irão querer fazer o mesmo e sacrificar os relacionamentos casuais baseados no trabalho.

As autoras escreveram: “O fato de morar, trabalhar, fazer comprar e conviver no mesmo lugar tem tudo a ver com os laços fracos que cultivamos, e portanto com a nossa qualidade de vida”. Como descreveram em um tema central do livro, “Os conhecidos casuais nos inspiram a nos aventurarmos além das nossas zonas de conforto”. E se não fizermos isto, nunca saberemos o que poderíamos ganhar  com os relacionamentos que estabelecemos com “pessoas  que aparentemente não importam”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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