Noriko Hayashi / The New York Times
Noriko Hayashi / The New York Times

Site mapeia lugares com crianças bagunceiras e vizinhos barulhentos

Página coleta queixas anônimas e as distribui em um mapa interativo, criando um registro dos sons e paisagens irritantes do Japão

Tiffany May e Hisako Ueno, The New York Times - Life/Style

30 de março de 2021 | 05h00

Crianças barulhentas andando de skate nas ruas. Casais discutindo em suas casas. Pessoas aglomeradas na calçada fofocando por longas horas. Algumas pessoas descreveriam essas atividades como poluição sonora. Um novo site no Japão localizou os "culpados" em um mapa, instigando o debate sobre aqueles que perturbam a paz.

O site, DQN Today, descreve-se como um guia crowdsourced, alimentado pelo público em geral, para ajudar aqueles que procuram um local para viver a evitar bairros habitados por “pais idiotas que deixam seus filhos brincar nas ruas e em estacionamentos”. Nele há mapas em que se pode visualizar a dorozoku, ou “tribo da rua”, um termo que se aplica a pessoas que bloqueiam o caminho ou provocam confusões em público.

Moradores que acham o barulho da vizinhança insuportável encontraram um meio de se expressar no site, que coleta queixas anônimas sobre vizinhos e as distribui em um mapa interativo, criando um registro elaborado dos sons e paisagens irritantes do Japão.

As reclamações de barulho têm aumentado na capital, Tóquio, com a polícia registrando um aumento de 30% entre março e abril do ano passado. Foi quando o governo fechou escolas e aconselhou os moradores a trabalharem remotamente por causa do novo coronavírus, fazendo com que alguns ficassem atentos demais aos sons domésticos aos quais prestavam pouca atenção antes.

Do lado de fora das casas, embora algumas áreas de lazer tenham sido isoladas durante o estado de emergência no Japão, a maioria dos parques permaneceu aberta - e lotada.

A princípio, o criador do site respondeu a perguntas enviadas por e-mail sobre o site, mas se recusou a fornecer seu nome completo. Ele disse que o mapa era uma dica quase sutil para os moradores - eles sabem quem são, embora nunca tenham seus nomes mencionados - e para funcionários do governo, que ele esperava que prestassem atenção. O criador, que se descreve como um desenvolvedor web freelance em Yokohama, Japão, e usa o nome de usuário @hotaniya no Twitter, depois parou de responder aos e-mails.

O site foi lançado em 2016 e inicialmente tinha algumas centenas de usuários. Desde então, cresceu exponencialmente à medida que gerou debates, especialmente em relação ao que os especialistas dizem que parece ser a crescente intolerância da sociedade pelos sons de crianças brincando.

Embora muitos nas redes sociais tenham elogiado o site por lançar luz sobre o problema do barulho, alguns pais consideram sua estratégia problemática e temem uma separação crescente entre famílias com filhos e vizinhos que não os suportam. Entre as 6 mil reclamações abrangentes, que cobrem assuntos como infrações de estacionamento, palavrões excessivos ou gatos de rua, há muitos registros que destacam áreas frequentadas por crianças sem supervisão de adultos.

Saori Hiramoto, 35 anos, uma ativista que fez lobby com sucesso junto ao governo metropolitano de Tóquio para permitir carrinhos de bebê em trens lotados em 2019, disse que o mapa demonstrava uma falha na comunicação e a fragmentação de uma sociedade que já foi interdependente.

“Eu realmente sinto que é muito difícil criar filhos”, disse ela, “as pessoas dizem que os pais devem ser responsáveis por cuidar dos filhos, mas isso é muito difícil, especialmente para pais solos. Chegamos ao nosso limite.”

“Acho que a sociedade ou comunidade deve observar e criar as crianças como integrantes da sociedade”, acrescentou ela.

Akihiko Watanabe, professor da Faculdade de Educação da Universidade Shiga, perto de Kyoto, disse em uma entrevista que o mapa tem o potencial de prejudicar crianças e adolescentes ao expor lugares onde eles ficam sem supervisão. Mas alguns pais ficam na defensiva em relação às reclamações sobre os filhos, tornando difícil para outros abordá-los com queixas, disse ele.

“No passado, os pais pediam desculpas e disciplinavam seus filhos”, disse ele. “Mas agora os pais ficam hostis contra as pessoas que criticam.”

Pelo menos 1.500 novos usuários se cadastraram para usar o mapa entre março e abril do ano passado. Uma reclamação diz: os grupos de pessoas conversando “são terrivelmente tagarelas e barulhentos. Fiquei encarando por um longo tempo, mas não pararam. As crianças também são deixadas sozinhas e fazem ruídos esquisitos. ”

Outra diz: “Três ou quatro crianças se reúnem e brincam muito alto durante as férias e uma voz estridente ecoa na vizinhança”.

“Esqueci que isso era uma rua”, escreveu outro usuário em relação a um trecho de asfalto frequentado por pré-adolescentes que andam de skate.

Os especialistas veem uma crescente intolerância em relação às brincadeiras de crianças, à medida que parte da população idosa do país se torna menos familiarizada com os sons delas. Ao longo dos anos, moradores de vários bairros fizeram campanha contra a construção de creches, mesmo com os pais pedindo opções de creches mais acessíveis e os economistas preocupados que as pessoas no Japão, que tem a população mais velha, não estejam tendo bebês suficientes. Os residentes de Kobe processaram uma creche em 2016 por causa do barulho desagradável das crianças no playground, mas o caso foi encerrado em 2017.

Os parques públicos estão cobertos de placas que proíbem todos os tipos de atividades em resposta às reclamações de incômodo dos moradores. O Parque Nishi-Ikebukuro em Toshima, Tóquio, tem chamado a atenção pela proibição de 45 atividades diferentes, como skate, pular corda e futebol. Uma autoridade local disse que as proibições são resultado de reclamações de uma década.

Ko Fujii, fundador e CEO da agência de relações públicas Makaira e professor visitante do Centro de Estratégias de Criação de Regras da Universidade Tama, em Tóquio, observou incidentes nos últimos anos em que passageiros incomodados importunaram mães que carregavam bebês no transporte público.

Pai de duas crianças pequenas, Fujii disse que tem colado adesivos com a mensagem "Amamos bebês, não há problema em chorar" para mostrar apoio aos outros pais.

“Acho que algumas pessoas estão simplesmente tão frustradas com a vida na cidade que acabam se tornando insidiosas”, disse ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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