Roberto Frankenberg/The New York Times
Roberto Frankenberg/The New York Times

Sem café da manhã ou enxaguante bucal: conheça o jeito Lindy de viver

Um advogado de tecnologia chamado Paul Skallas argumenta que devemos colher mais sabedorias da Antiguidade

Ezra Marcus, The New York Times/Life-Style, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 05h00

Em uma época tumultuada, a humanidade olha para o mundo antigo em busca de orientação e inspiração. É uma dinâmica pelo menos tão antiga quanto Petrarca, o poeta italiano do século 14 cujos estudos sobre os gregos e romanos ajudaram a dar o pontapé inicial do Renascimento.

Paul Skallas, advogado e jornalista de tecnologia de 36 anos, carrega a tocha da antiguidade. É um defensor ferrenho dos conhecimentos derivados do passado distante, como, digamos, não usar enxaguante bucal. "Todo mundo diz que você deve fazer isso. Parece a coisa certa a fazer porque seu hálito fica fresco. Então você lê sobre as taxas mais altas de câncer entre pessoas que usam enxaguante bucal e como ele destrói as bactérias boas e más, e pensa: 'Está certo, ninguém fazia isso naquela época'", disse durante uma conversa via Zoom diretamente de Deauville, na França, para onde se mudou depois de ter saído de Nova York no ano passado com o objetivo de enfrentar a pandemia.

"Naquela época" é o mundo antigo, do qual Skallas tira um suprimento inesgotável de lições práticas. "Nada de café da manhã. Ele era desconhecido na história antiga, Roma, Bizâncio, Grécia antiga; o café da manhã não existia", informou. Ele escreveu que Plutarco e Tomás de Aquino eram contrários ao café da manhã.

Skallas defende um estilo de vida baseado em uma teoria relativamente obscura conhecida como Efeito Lindy, que deu origem a seu nome de usuário no Twitter, LindyMan; ao seu Substack, The Lindy Newsletter; ao seu podcast, "Lindy Talk"; e à sua filosofia prática sobre saúde, exercício, dieta, estilo de vida e escolhas de consumo.

O Efeito Lindy apareceu pela primeira vez em um artigo de 1964 publicado no The New Republic chamado "Lei de Lindy", escrito pelo historiador Albert Goldman, que descreveu os "sabichões carecas que fumam um charuto atrás do outro e se reúnem todas as noites no Lindy's", o restaurante que ficava na Broadway e era conhecido por seu cheesecake. No artigo, ele postulou que, uma vez que os comediantes têm um suprimento limitado de bom material, a "expectativa de vida de um comediante de TV é proporcional à sua exposição no meio".

Nassim Nicholas Taleb, estatístico e estudioso, transformou essa ideia em uma ampla teoria de sobrevivência em seu livro Antifragile: Things That Gain From Disorder (Antifrágil: as coisas que se beneficiam da desordem, em tradução literal), de 2012. Ele chamou sua teoria de Efeito Lindy: "Para os perecíveis, cada dia a mais em sua vida se traduz em uma expectativa de vida adicional mais curta. Para os não perecíveis, cada novo dia pode implicar uma expectativa de vida mais longa". Por exemplo, uma peça que foi exibida na Broadway por cinco anos provavelmente durará mais cinco. Taleb concluiu: "A robustez de um item é proporcional à sua vida!"

Taleb argumentou que o Efeito Lindy ajudou a explicar por que tantas inovações aparentemente impressionantes acabaram esquecidas ou refutadas. Por exemplo, muitos cientistas passaram a última década alarmados com a crise da "replicação": muitas descobertas acabam não se sustentando quando outros cientistas repetem os estudos.

Em outras palavras, conhecimentos científicos imprecisos são publicados o tempo todo. O consumidor de dados científicos que se preocupa com o Efeito Lindy só levará a sério as informações que se sustentarem por um período prolongado. Em um post de 2017 no Medium, Taleb escreveu que é impossível fugir do Efeito Lindy: "O único juiz das coisas é o tempo."

Não se trata de ludismo

Há muito tempo, Skallas acompanha e lê Taleb, com quem compartilha um fascínio pelo mundo antigo. Certa vez, até conseguiu algo raro: que um estudioso se corrigisse publicamente depois de ter refutado uma afirmação em um dos livros de Taleb, a de que os antigos não tinham uma palavra para a cor azul.

Enquanto Taleb discutiu principalmente o Efeito Lindy no que se refere a estatísticas e ciências sociais, Skallas falou longamente das aplicações práticas do Efeito Lindy em temas como dieta, saúde, namoro, exercício e praticamente tudo o mais. Tornou-se uma espécie de guru do estilo de vida para milhares de seguidores no Twitter e leitores de seus boletins informativos.

Em um post do Substack de 2020 em que expunha suas ideias, ele escreveu: "O Efeito Lindy existe principalmente para sua proteção, para estratégias de risco e sobrevivência no mundo moderno, que oferece incansavelmente novos produtos, novas disciplinas acadêmicas, novos livros, novas tecnologias, novos alimentos, novos arranjos de vida, novas 'teorias' sobre a vida, novas posturas".

Lindy não é ludismo: afinal, Skallas é um ávido usuário das redes sociais. Em vez disso, ele vasculha o mundo antigo em busca de conhecimentos que se apliquem ao que chama de "tradição útil", usando a heurística do Efeito Lindy, segundo a qual quanto mais antigo, melhor, como um "baluarte contra o consumismo, para filtrar as toneladas de produtos lançados todo dia". "Quando estou em uma loja, penso nisso. É uma nova maneira de encarar o ceticismo da vida comercial moderna."

Skallas endossa práticas baseadas na antiguidade, como o jejum intermitente, que aparece em todas as tradições religiosas e traz benefícios demonstráveis para a saúde (e malefícios também): "Seu corpo fica mais forte com os estressores e com a falta de comida."

Ele segue uma dieta baseada na tradição ortodoxa grega, alternando entre o veganismo e o pescatarianismo. (Hoje, algumas pessoas chamam isso de "serial cycling".) Um tuíte de sua conta @LindyDiet explica detalhadamente: "Jejum duas vezes por semana (adote a alimentação vegana ou se abstenha de comer) e durante um mês inteiro duas vezes por ano."

À maneira dos defensores da dieta paleolítica, Skallas recomenda evitar quaisquer alimentos ou bebidas inventados nos últimos 500 anos. Isso significa não consumir Beyond Beef, Monster Energy ou Go-Gurt, mas sim carneiro, pão quente e similares.

"O café é relativamente novo. Tem 400 anos, mas são 400 anos de filtragem muito boa, e provavelmente não é ruim para você", disse ele, reconhecendo a arbitrariedade do corte. O chá merece seu maior elogio: é uma bebida "profundamente Lindy", com milhares de anos de registros formais.

O cigarro, vício do século XX, não é Lindy, embora o tabaco seja; para quem quer fumar de forma "compatível com Lindy", ele sugere um cachimbo.

Claro, o Efeito Lindy não funciona em todos os domínios; se você for diagnosticado com um câncer, faça quimioterapia, recomendou Skallas, em vez de confiar nas práticas médicas romanas. Ele acha que a dieta Lindy é mais útil quando inspira o ceticismo em relação aos produtos de consumo da era industrial, como o enxaguante bucal ou óleos de sementes processados, e ciência social da moda, como o desmascarado teste de Myers-Briggs (de personalidade).

Caminhar e pensar

A invenção mais importante de Skallas pode ser a "caminhada Lindy", que ele criou no ano passado, quando queria fugir da monotonia da quarentena. "Isso significa basicamente dar uma volta, mas a tradição da caminhada é algo que faz parte de muitas culturas antigas, sabe? Temos o techum, o passeio do Shabat, chamado, em grego, de Volta. Também existe uma versão italiana disso. Estamos falando de andar por andar".

Em uma postagem no boletim informativo, Skallas citou os caminhantes gregos "desde Diógenes vagando pelo mundo à procura de um homem honesto até Tales tropeçando em um buraco, perdido em seus pensamentos".

Uma caminhada Lindy não é apenas o caminho mais curto do ponto A ao ponto B; não deve haver destino definido, com curvas feitas aleatoriamente para estimular a mente. "Aconteceu uma coisa interessante quando andei. Os pensamentos me pipocavam na cabeça. Ondas de ideias surgiam. Eu não estava 'tentando' pensar ou mesmo ter uma ideia. Elas simplesmente apareceriam. Como mágica."

(Chega de gerenciar seu tempo com a técnica Pomodoro, em outras palavras: aqui está algo Lindy.)

Muitos leitores de Skallas começaram a fazer caminhadas Lindy todos os dias e postar sobre elas nas redes sociais, e o termo agora se espalhou para além de seus leitores imediatos. "Essencialmente, trata-se apenas de criar um hábito consciente, mas acho que o nome fofo por algum motivo o torna mais atraente e cativante", disse um seguidor.

Skallas acha que a pandemia – que também é profundamente Lindy ("eles usavam máscara há 500 anos, certo?") – abriu os olhos das pessoas para sua visão de mundo, ao relembrar os perigos históricos antigos dos quais muitos se sentiam livres: "Acho que, antes dessa pandemia, estávamos vivendo numa época em que as pessoas se consideravam intocáveis. Mas a quarentena forçou muita gente a pensar na escassez e se perguntar: o que é Lindy? Tipo, quais são as coisas de que você mais precisa nesta vida?"

A vacinação estava entre essas coisas e, portanto, quando Skallas voltou a ser entrevistado para esta reportagem, ele estava em Chicago, onde tinha ido tomar sua dose. Escreveu em um e-mail que, embora ainda não estivesse desistindo do seu trabalho diário, um livro (muito Lindy) poderia estar a caminho.

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