Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Quatro perguntas para ajudar a desmistificar sua relação com o dinheiro

Em livro, autora busca estimular o pensamento crítico sobre dinheiro, status e poder

Paul Sullivan, The New York Times - Life/Style

24 de setembro de 2020 | 05h00

Em 1991, Jennifer Risher conseguiu um emprego durante um programa de recrutamento da Microsoft. Ela tinha 25 anos na época e recebeu, como parte da sua remuneração, opções de ações de valor equivalente a algumas centenas de milhares de dólares. Durante o tempo em que trabalhou na empresa, ela conheceu seu marido, David, que tinha mais opções de ações do que ela.

Mais tarde, ela deixou o emprego para trabalhar na Amazon, quando a companhia ainda vendia livros, e foi contemplada com mais opções de ações da empresa. Em alguns anos, o casal acumulou um patrimônio de dezenas de milhões de dólares, mantendo um padrão de vida confortável. Quando relembra o passado, ela pergunta se foi sorte ou foram as decisões certas que tomou que a ajudaram conseguir o emprego na Microsoft.

Ela faz esta pergunta e outras em seu livro We Need to Talk: A Memoir about Wealth, (Precisamos Conversar: Uma Autobiografia Sobre Riqueza), uma tentativa com vistas a desenvolver um pensamento crítico sobre dinheiro, além do status e o poder que aumentam com ele.

“Riqueza não tem nada a ver com o que Hollywood está nos vendendo. Desejo desmistificar a riqueza – uma experiência que milhões de pessoas vivem, mas não podem falar a respeito. É algo normal quando os seus amigos são similarmente ricos”. Em um país, política e economicamente dividido, como os EUA, Jennifer Risher pede a seus leitores um nível de introspecção que pode ser difícil.

E lançar o livro neste momento pode acabar tornando-a um alvo de desdém, de acordo com vários consultores financeiros. Mas fazer perguntas rigorosas sobre dinheiro é um exercício importante para compreender o que nós temos, como o conseguimos e como nos sentimos com relação a ele.

Claro que as perguntas que as pessoas normalmente fazem no tocante à riqueza depende da sua perspectiva. Jennifer, por exemplo, vem de uma classe média e branca, com um pai que trabalhava com seguros e a mãe dona de casa quando ela e seu irmão eram pequenos, mas que mais tarde retomou sua carreira de bibliotecária. Jennifer teve condições de estudar numa escola de artes particular na Costa Leste. Que não a preparou para compreender as dezenas de milhões de dólares que ela e seu marido iriam adquirir futuramente.

O enfoque também difere entre acadêmicos e consultores cujo trabalho é despertar as famílias para refletirem introspectivamente sobre sua riqueza e com os quais conversei para saber suas opiniões sobre as perguntas levantadas por Jennifer Rischer e questionar eles sobre que perguntas ainda mais complexas eles recomendam que as pessoas façam.

Abaixo estão quatro perguntas que mais se destacaram:

- Por que está tudo bem você ter dinheiro quando outras pessoas não têm?

“Penso que é uma pergunta realmente importante, especialmente se você enriquece rápido”, afirmou Bradley Klontz, professor associado de psicologia financeira na Creighton University. “Se não tem uma boa resposta para isto, vai se dar mal. Terá de encontrar uma maneira de se livrar dele”.

Um aspecto que deve ser compreendido ao responder a esta pergunta é o risco da comparação social. Não importa quanto dinheiro você tem, as pessoas têm propensão a se comparar com as outras. “É um profundo terror subconsciente de que, se sentirmos que vamos ficar separados da nossa tribo, vamos desaparecer”, disse Klontz.

É também algo que pode fazer com que as pessoas com dinheiro façam menos do que podem, disse ele. Sua pergunta, que acompanha esta tem a ver com o significado que deve ter uma vida de riqueza. “Nosso objetivo inerente é lutar pela nossa sobrevivência diária”, disse ele.

“E qual é meu objetivo quando esse propósito desapareceu?” Sem ter esta intenção, os ricos acabam se separando de várias pessoas que conheciam antes de enriquecerem. “Estamos aqui para fazer do mundo um lugar melhor, independente de estarmos definindo o mundo”, disse Klontz. “Trata-se de responsabilidade e oportunidade”.

- O que significa viver bem para você?

O que vem à sua mente quando ouve esta pergunta diz mais sobre você do que a própria pergunta. Ela não é conclusiva, o que é excelente para engendrar uma discussão. Mas força também as pessoas a meditarem a respeito.

“As pessoas acabam se surpreendendo com elas próprias”, disse Keith Whitaker, presidente da Wise Counsel Research, consultora focada em riqueza familiar e filantropia. “Viver bem num ponto significou sucesso na minha carreira. Ou ser um ótimo pai. Ou me perdoar pelos erros ou escolhas que fiz e que não deram certo”.

“Tudo isto não tem nada a ver com dinheiro, mas o dinheiro é um meio para se fazer escolhas felizes ou não. Saber que viver bem proporciona uma estrela-guia para essas escolhas”. Whitaker diz que mesmo as pessoas mais introspectivas começaram listando os adornos superficiais do viver bem – casas, carros, barcos, viagens. Mas ao refletirem melhor sobre essas respostas, acrescentam outras mais.

“Mas então percebem que não querem apenas essas coisas. Querem outras, como bons amigos, uma boa relação com os filhos e netos. Ou então querem tudo isso com um senso de integridade”.

- Qual é a função número um do dinheiro para você? 

Para Michael Liersch, diretor de estratégias e recomendações no Wells Fargo Private Bank, esta pergunta é a primeira das três relacionadas que ele apresenta para todas as famílias com quem trabalha (as outra são: vocês acham que têm o suficiente? Quem deveria estar envolvido nesta conversa?) O que ele tenta fazer nessa troca de ideias é abrir espaço para ter respostas e ideias dos membros da família para debater.

Mas também mostrar às pessoas que responder a essas perguntas apenas uma vez não basta, especialmente agora, quando as opiniões sobre riqueza e privilégio divergem enormemente. “Pesquisa sugere que quanto mais decidido você está a criar seus princípios norteadores, mais probabilidade tem de alcançá-los”, disse ele.

- Como o dinheiro o conecta com outras pessoas?

Esta foi uma pergunta que Jennifer Risher se fez quando reviu as grandes escolhas feitas em sua vida, incluindo viver no mesmo bairro dos colegas que trabalham na área de tecnologia, enviar os filhos para escolas privadas e dividir sua riqueza com a família e amigos. “Mesmo no caso de pessoas muito ricas, o dinheiro não nos conecta com os outros”, disse ela. “E quando o dinheiro é uma barreira para essas relações, é um problema. Nosso silêncio em torno de dinheiro torna isso mais forte do que nós. Não conseguimos enxergar a realidade”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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