Adriana Loureiro Fernandez / The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez / The New York Times

Uma batalha de cantores com asas e penas

Competições de canto de pássaros são importantes no Suriname; o sucesso requer anos de treinamento e apreciação por um ritmo de vida mais lento

Anatoly Kurmanaev, The New York Times - Life/Style

15 de março de 2021 | 05h00

PARAMARIBO, Suriname - Todos os domingos, logo após o amanhecer, enquanto grande parte da cidade ainda dorme, um grupo de homens se reúne no gramado de um parque público em um bairro tranquilo da capital do Suriname, o menor país da América do Sul. Eles se amontoam e ficam em silêncio.

Eles têm gaiolas, cada uma carregando um pássaro canoro - um curió, um bicudinho ou um rowti, essas são as espécies conhecidas aqui. Durante as próximas horas, irão se abaixar, em silêncio, e concentrados, ouvir os pássaros enquanto os árbitros observam a duração de cada canto e avaliam o desempenho do cantor em uma lousa.

O público está absorto, mas vitórias e derrotas são saudadas pelos donos dos pássaros com a mesma camaradagem silenciosa que marcou a manhã.

As competições de canto de pássaros, uma espécie de Batalha de Bandas entre pássaros tropicais treinados, são uma obsessão nacional no Suriname. É um passatempo que se parece mais com meditação do que com esportes movidos a adrenalina que arrebatam outras nações, mas por trás dele estão anos de treinamento, milhares de dólares de investimento e uma comunidade unida resistindo silenciosamente ao ritmo acelerado do mundo moderno.

“Algumas pessoas gostam de futebol ou basquete”, disse Derick Watson, um policial que, nos dias de folga, ajuda a organizar as competições com um charuto na boca. “Este é o nosso esporte. É um modo de vida."

Os pássaros são os animais de estimação mais populares no Suriname, um país com 500 mil habitantes situado à margem do Atlântico na América do Sul, onde uma floresta tropical intocada possui um dos ecossistemas mais diversos do mundo. Gaiolas com papagaios e outras aves tropicais são comuns nos mercados e cafés do país, e até mesmo nos barcos e ônibus que fazem parte do transporte público.

O campeonato anual de canto de pássaros, que culmina nas rodadas finais que são transmitidas pela televisão nacional em dezembro, atrai cerca de 100 competidores que disputam troféus e um momento de glória nacional.

As aves mais talentosas, com fôlego reconhecido, são vendidas no Suriname por até US$ 15 mil, uma fortuna na pobre ex-colônia holandesa, que ganhou independência em 1975. Mas parte do apelo do esporte é que, no nível para iniciantes, é acessível a qualquer pessoa, com pássaros jovens não treinados disponíveis por apenas alguns dólares em lojas de animais.

“É uma tradição”, disse Arun Jalimsing, dono de uma pet shop e um dos campeões da competição do ano passado. “Nós crescemos com isso. Quando meu pai me deu dinheiro para comprar uma bicicleta, saí e comprei um pássaro.”

Ele disse que sua família tem cerca de 200 pássaros canoros em suas casas e que ele acha os sons que eles fazem constantemente relaxantes. Sua esposa, por outro lado, tem uma opinião diferente.

Treinar um pássaro canoro requer experiência, mas também imensa paciência e perseverança. Para aumentar a duração do canto dos pássaros, os aficionados passam anos estimulando-os por meio da interação, regulando suas dietas e colocando-os em proximidade com parceiros femininos ou masculinos, de acordo com estratégias de treinamento elaboradas destinadas a provocar o cortejo ou comportamento competitivo de cada ave canora.

“Você os observa constantemente em casa, observa seu comportamento”, disse Watson, o policial.

É um trabalho árduo e repetitivo, mas também um investimento de longo prazo. Algumas das aves podem viver até 30 anos, uma carreira que ultrapassa a da maioria dos atletas profissionais.

O Suriname é um país diverso, um legado do sistema colonial holandês, que trouxe escravos e trabalhadores contratados de todo o mundo para trabalhar nas plantações de açúcar, café e banana. A competição de pássaros canoros reflete essa diversidade.

“Todo mundo é amigo quando se reúne aqui”, disse Marcel Oostburg, um aficionado por pássaros e alto funcionário do Partido Nacional Democrático do Suriname, que dominou o país por décadas antes de ser deposto em uma eleição tensa no ano passado. “Nós nunca falamos de política aqui.”

Nas ruas estreitas da capital, Paramaribo, a vida se desenrola sem pressa em meio a chalés de madeira em decadência, deixados pelos holandeses, e lentamente assoreando os canais. As buzinas, a música alta e a agitação que preenchem as grandes cidades sul-americanas estão notavelmente ausentes aqui. Os escritórios de Paramaribo ficam sem trabalhadores às 15h.

A língua holandesa do Suriname e sua composição étnica diferenciam o país do resto do continente, e seu povo não se identifica totalmente com seus vizinhos sul-americanos ou caribenhos. Para a maioria aqui, a maior conexão externa é com a Holanda, uma antiga potência colonial geograficamente distante que agora abriga quase tantos surinameses quanto o próprio Suriname.

Para participar das competições semanais de pássaros canoros, que começam às 7 horas, antes que o calor tropical do dia tome conta da cidade, é preciso se desligar das preocupações do dia a dia.

Cada competição dura de 10 a 15 minutos, dependendo do tipo de ave, durante os quais os participantes devem evitar as distrações e ouvir com atenção para captar as nuances dos sons emitidos. Não há celulares à vista, todos parecem estátuas. Os pássaros mal se movem.

Por horas, os donos das aves se concentram apenas no canto dos pássaros, sua beleza e complexidade.

Quando a competição termina, não há demonstrações ruidosas de alegria ou murmúrios acerca da imparcialidade do árbitro. Mas os sorrisos dos donos dos pássaros vitoriosos exibem aquele orgulho familiar de qualquer campeão.

“É uma febre, por isso venho aqui todo fim de semana”, disse Oostburg, o político. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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