Danny Lawson/Pool via Reuters
Danny Lawson/Pool via Reuters

Subvertendo a tradição, cada vez mais noivas avançam sozinhas em direção ao altar

Meghan Markle fez isso. Muitas outras noivas escolhem fazer o mesmo, frequentemente contra as origens sexistas da tradição

Danielle Braff, The New York Times – Life/Style

27 de abril de 2021 | 05h00

Levou apenas 60 segundos para Meghan Markle alterar para sempre o ritual das noivas. Na sua cerimônia de casamento, em 2018, Meghan Markle, a duquesa de Sussex, ingressou sozinha na igreja e caminhou  até a metade da nave central da St. George’s Chapel, onde foi encontrá-la o príncipe Charles. Depois, o príncipe se afastou e a duquesa completou a sua caminhada até o príncipe Harry que a esperava no altar.

“Eu me inspirei em Meghan Markle”, afirmou April Brown, de Miami, terapeuta da família e do casamento, que se casou em 2019 no interior da Inglaterra. “Foi a minha maneira de expressar autonomia e de certo modo uma forma de libertação, mesmo porque não estava interessada na ideia arcaica do pai que entrega a noiva ao futuro esposo”.

Foi uma longa caminhada até esta evolução.

As noivas, negociadas pelos pais por um dote, outrora eram formalmente trocadas no altar. E, no entanto, os pais continuam conduzindo suas filhas na igreja como em uma ode à tradição.

Até agora.

Em 2013, 82% das pessoas entrevistadas pela empresa britânica de pesquisa de mercado e de análise de dados, YouGov., afirmaram que o pai da noiva deveria entregar a filha ao noivo; três anos mais tarde, o número havia caído para 61%. (Depois desta, não houve mais pesquisas relevantes sobre o assunto.)

Quando, em setembro, Laureen Nolan, consultora independente de Nova York, entrou na igreja para uma restrita cerimônia de casamento na era da pandemia de coronavírus, em Long Island City, na Luminescence Art Installation em Hunters Point Park, ela estava sozinha.

“Estou totalmente convencida de que a tradição centenária segundo a qual o pai ou outra figura masculina preeminente leva uma mulher ao encontro do noivo deveria ser abandonada”, ela disse. “Esta tradição sempre me pareceu vulgar, profundamente arraigada no patriarcado, assim como a ideia de que uma mulher terá de pertencer a um homem”.

Em vez disso, disse Lauren, quando ela se encontrou com o noivo no altar, quis expressar a decisão conjunta do casal de unirem as suas vidas, em lugar de assistir a uma troca entre dois homens.

A nova tendência ocorre no momento em que os casais estão abandonando os esquemas tradicionais do casamento em todos os aspectos da celebração, desde a cor do vestido ao aumento de rituais simbólicos (em comparação aos religiosos e civis), disse Valentina Ring, fundadora da empresa que organiza casamentos The Stars Inside, de Londres. Os casais decidiram manifestar um maior controle e liberdade tanto no que diz respeito à estrutura quanto ao conteúdo da cerimônia em si, ela afirma.

“Muitas noivas adoram a ideia de celebrar a própria independência e determinação percorrendo sozinhas a nave da igreja, ou com o noivo, simbolizando que os dois estão caminhando para o seu futuro com o mesmo conceito de igualdade”, disse Valentina.

É por isso que Leigh Luerman, engenheira de software de Louisville, Kentucky, percorreu este trajeto ao lado do noivo no seu casamento em 2018, na Buffalo Trace Distillery em Frankfort, Kentucky. “Em parte, foi por discordar do conceito de que a noiva deve ser dada em casamento, por outro lado, o meu então noivo e eu já vivíamos juntos”, ela contou. “E quisemos dar este passo juntos”.

Durante a sua cerimônia em Gloucester, Massachusetts, Gabi Toth sequer considerou a ideia de caminhar pela nave sem o noivo. Era o seu casamento, eles não ligavam muito para as tradições populares; além disso, os pais de ambos ficaram felizes de não aparecer em primeiro plano na cerimônia, disse a bibliotecária Gabi.

Um incentivo para caminhar pela nave com o noivo é compartilhar de fato aquele momento com a pessoa com a qual você está prestes a se casar, disse Rocio Catalina Mora, de Vermont.

"Caminharmos juntos na nave foi a sensação mais mágica do mundo", observou. "Ainda sinto um arrepio na espinha quando penso nisso. Não foi uma caminhada longa, mas a conversa se resumiu a: 'Amo você, vamos lá'. Caminharam um pouco e: 'Oh, meu Deus, estão todos aqui por nossa causa'", lembra Rocio.

No entanto, muitos casais querem expressar a importância das suas famílias (e dos pais) na cerimônia de casamento – com ou sem a caminhada até o altar.

Rebecca Sloan, 34 anos, proprietária de uma pequena empresa em Ontario, casou em uma cerimônia ao ar livre em uma pequena fazenda de mirtilos em 2018. Eles declararam o espírito do seu casamento e futuro juntos como pessoas iguais, Rebecca e o noivo decidiram percorrer juntos o trecho entre as duas alas dos convidados.

“Apesar disso, nós ainda quisemos homenagear as nossas famílias e amigos, e chamá-los a participar da cerimônia para demonstrar o papel importante que eles têm em nossas vidas”, disse Rebecca.

Eles casaram com as mãos atadas, uma tradição celta em que o casal prende as mãos com fitas para simbolizar a união de suas vidas. Eles foram assistidos por quatro grupos de membros da família e amigos, cada um dos quais ajudou a prender suas mãos com a fita enquanto uma pessoa explicava o simbolismo do ritual.

“Desta maneira, celebramos uma cerimônia que nos declarava um casal de fato, ao mesmo tempo que expressava os nossos valores”, disse Rebecca. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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