Ng Han Guan/Associated Press
Ng Han Guan/Associated Press

Comunidade cristã resiste à repressão do governo da China

Reuniões são em locais secretos desde que presidente Xi Jinping fechou igrejas

Javier C. Hernández, The New York Times

05 de janeiro de 2019 | 06h00

CHENGDU, CHINA - No início de dezembro, a polícia fechou uma das igrejas protestantes mais conhecidas da China na cidade de Chengdu, na mais grave repressão do cristianismo em mais de dez anos, segundo os ativistas. A polícia apreendeu bíblias, fechou uma escola e um seminário mantidos pela igreja, a Congregação das Primeiras Chuvas, e prendeu o seu corajoso pastor, que acusa de “incitar à subversão”, crime que, nos casos mais sérios, pode ser punido com pelo menos cinco anos de prisão.

Gu Baoluo, 31, comerciante de arroz e membro da congregação, foi para o único lugar seguro que conhecia: a casa de um amigo, onde cantou hinos e orou pelos 20 membros da Early Rain que foram presos. Utilizando um aplicativo de conversação em código, ele compartilha informações sobre vigilância e ataques da polícia. “Não poremos a perder a nossa fé por causa da repressão imposta pelas autoridades”, afirmou.

O presidente Xi Jinping conduz uma campanha implacável contra as igrejas não oficiais, que, segundo algumas estimativas, reúnem 30 milhões de fiéis. Aparentemente preocupado com a possibilidade de o culto independente se tornar uma ameaça para o predomínio do Partido Comunista que governa o país, o seu objetivo é atrelar o cristianismo ao controle do partido.

No ano passado, o governo proibiu a venda da Bíblia online, queimou cruzes, demoliu igrejas e obrigou pelo menos seis lugares de culto a fecharem as portas. A campanha é fruto da determinação de Xi de controlar a religião em toda a China, inclusive com a detenção de milhares de muçulmanos na região de Xinjiang, na parte ocidental do país.

Renée Xia, diretora internacional da organização Defensores dos Direitos Humanos na China, descreveu esta campanha como uma tentativa de golpear o “coração da resistência cristã clandestina”. Ela disse: "Sua mensagem é: Não se brinca com Xi”. Em dezembro, a polícia fechou a Igreja Rongguili, fundada há 40 anos, na cidade de Guangzhou, no sul da China, que atraia milhares de fiéis. E em setembro, as autoridades de Pequim ordenaram o fechamento da Zion Church, com 1.500 integrantes, uma das maiores igrejas não oficiais da capital.

O governo exige que os grupos religiosos se registrem, embora muitos ainda frequentem igrejas não oficiais, às vezes chamadas igrejas clandestinas ou igrejas-lares. No Partido Comunista, muitos acreditam que o cristianismo promove os valores e os ideais ocidentais como os direitos humanos, ao contrário dos objetivos do governo e da adesão de Xi à cultura tradicional chinesa e aos ensinamentos de Confúcio, que enfatizam a obediência e a ordem.

Li Shuangde, um professor de Chengdu que faz parte da Igreja Early Rain Covenant desde 2011, informou que os integrantes  pediram a libertação dos líderes presos, entre eles Wang Yi, o pastor, e sua esposa, Jiang Rong. Em uma mensagem previamente elaborada, divulgada após a sua prisão, Wang falou da importância da desobediência. “A perseguição da Igreja pelo regime comunista é um crime extremamente perverso”, escreveu. “Como pastor da igreja cristã, devo condenar rigorosa e publicamente tais crimes”.

O Vaticano, que assinou um acordo provisório com o governo chinês em setembro para pôr fim a uma luta pelo poder, que data de dezenas de anos, pelo direito de nomear os bispos na China, não quis comentar a repressão. Embora os sermões nas igrejas sancionadas pelo Estado  muitas vezes sejam rigorosamente editados, as igrejas independentes como a Early Rain insistem em graves denúncias de autoridades corruptas e em seus apelos crescentes pela proteção dos direitos dos pobres.

Wang tacha Xi de pecador, realiza sessões anuais de oração para lembrar da brutal repressão às manifestações favoráveis à democracia na Praça de Tiananmen, em Pequim, em 1989 e organizou um fundo de apoio aos familiares dos presos políticos da China. 

Gu disse que, embora compartilhe das posições de Wang sobre os abusos do governo, está cada vez mais temeroso ao ver amigos serem presos pela polícia. Ele foi batizado em 2017. “Vejo as injustiças cometidas na sociedade”, afirmou Gu. “Vejo que a promoção que o governo faz da China como um país justo que aplica as leis de maneira civilizada, não passa de uma mentira”. 

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