Daniele Volpe para The New York Times
Daniele Volpe para The New York Times

Comunidades pobres da Guatemala assistem a um êxodo populacional

Em vilarejo onde vivia menina que morreu sob custódia dos EUA, ao menos 200 famílias partiram com a promessa de entrar nos EUA

Elisabeth Malkin, The New York Times

27 Dezembro 2018 | 06h00

SAN ANTONIO SECORTEZ, GUATEMALA - Há cerca de um mês, Claudia Maquin despediu-se da filha de sete anos, quando a menina deixou com o pai a aldeia em busca de uma nova vida nos Estados Unidos. Agora, vai se despedir dela mais uma vez. O marido e a filha de Claudia, Jakelin, conseguiram atravessar a fronteira - mas um dia depois, em 8 de dezembro, a menina morreu enquanto estava sob a custódia da Polícia de Fronteira dos Estados Unidos. 

Claudia, 27, buscou refúgio na proteção de sua família, que em uma aldeia nas colinas da região dos baixios da Guatemala. Ela explica de maneira simples o motivo pelo qual o marido resolveu empreender a viagem perigosa: a falta de alternativas nesta parte do país. As comunidades indígenas como a sua suportaram séculos de miséria, exclusão e repressão.

"Vivo com uma profunda saudade desde que soube da morte da minha filha", ela disse em uma língua maia, o Q'eqchi', por meio de um intérprete. "Mas não aqui há empregos e isso o levou a decidir ir embora".

Nos Estados Unidos, a morte de Jakelin se destaca como mais um episódio doloroso no debate sobre a imigração. Mas na Guatemala, a fuga dos cidadãos do país é vista como uma denúncia do fracasso do governo a oferecer oportunidades, principalmente para os grupos indígenas que constituem pelo menos 40% da população.

Tecnicamente, a Guatemala não é um país pobre; o Banco Mundial a classifica como uma nação com renda de classe média alta. Mas estas estatísticas mascaram profundas desigualdades, o legado de séculos de racismo e controle econômico por grupos poderosos que resistem às tentativas de tratar do problema da discriminação.

Os guatemaltecos sempre recorreram à migração para fugir das divisões. Nos últimos meses, as prisões na fronteira do México com os Estados Unidos sugerem que há um número maior de guatemaltecos tentando cruzá-la.

O pai de Jakelin, Nery Caal, 29, partiu porque acreditava que, com uma escassa educação básica e um pedaço de terra pequeno demais para sustentar a família, ele não teria qualquer esperança de melhorar a sua situação.

A decisão de sair de Raxruhá, sua pobre aldeia, não teve nada de inusitado. Todos os meses, há sempre, dez, 20 ou 30 pessoas partindo, de acordo com o prefeito César Castro. Mas ultimamente, em menos de dois meses, partiram nada menos que 200 famílias. Ele não consegue explicar este aumento, mas tem uma teoria.

"Chegou alguém que enganou as pessoas afirmando, 'Vou conseguir asilo político para vocês - basta que levem um filho junto'", especulou Castro.

A família de Caal disse que ele decidiu levar Jakelin porque estava muito ligado à filha. Mas é possível que ele tenha ouvido dizer - de outros que fizeram a viagem, ou do contrabandista que ele pagou - que teria mais chance de permanecer nos Estados Unidos se chegasse com uma criança. De tempos em tempos, os aldeões recebem boas notícias: alguém conseguiu atravessar a fronteira dos Estados Unidos.

Em San Antonio Secortez, onde vive a família Caal, as famílias plantam milho e feijão, criam cabras, galinhas e porcos. Mas os campos não produzem mais como antigamente, afirmou Domingo Caal, o patriarca de 61 anos. Ele não sabe ao certo se a mudança climática ou a queda da qualidade da terra seria a causa disso, ou alguma outra coisa. Segundo ele, como as florestas no norte estão sendo tomadas por plantações para a produção de óleo de palma, há menos veados selvagens e javalis para caçar e a pesca abundante de outrora também diminuiu.

"E depois a família cresceu", prosseguiu Caal. Há pouca ajuda do governo, que não tem dinheiro suficiente para gastar. O governo da Guatemala arrecada bem menos impostos, em relação ao tamanho da economia, do que qualquer outro país do mundo, segundo o Banco Mundial.

Apesar da sua dor, Claudia não quer que o marido volte para casa, para ajudá-la a criar os outros três filhos, Audel, de 9 anos, Elvis, de 5, e Angela, de seis meses. Caal se encontra atualmente em um abrigo para migrantes no Texas.

Em um documento, a polícia de fronteira declarou que  seus agentes fizeram "tudo que estava ao seu alcance" para cuidar de Jakelin.

O pai de Jakelin contestou uma declaração anterior da polícia, segundo a qual a menina não comera e nem bebera por dias a fio, durante a viagem para atravessar a fronteira. Claudia estava revoltada com a sugestão de que o casal não cuidara devidamente da filha. Segundo ela, não há outra maneira de sair da pobreza - agora acrescida pela dívida com o contrabandista que levou o marido e a filha para a fronteira. A família não diz quanto teve de pagar, mas Castro calcula que entre US$ 5 mil e US$ 10 mil.

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