Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times
Asanka Brendon Ratnayake para The New York Times

Crise de concussões e danos neurológicos afeta o esporte australiano

Jogadores aposentados acusam a entidade nacional pela falta de proteção e recusa em arcar com os custos do seu tratamento

Ken Belson, The New York Times

13 de dezembro de 2019 | 06h00

MELBOURNE, AUSTRÁLIA - A modalidade "futebol australiano" (não confundir com o futebol na Austrália), parecida com o rúgbi, é um dos esportes mais violentos do mundo. Trinta e seis jogadores correm pelo campo a toda velocidade, expostos a trombadas propositais, cotoveladas, ombradas e joelhos voadores. Há proteção para os dentes e, às vezes, um leve amortecimento para a cabeça. As concussões são comuns.

Assim, quando jogadores aposentados na casa dos 30 ou 40 anos começaram a se queixar de perda de memória, dificuldade em prestar atenção e controlar a raiva, o neurofisiologista Alan Pearce tentou ajudar. Ele começou a medir as ondas cerebrais deles para determinar se estavam funcionando normalmente.

A Liga de Futebol Australiano (AFL) prestou atenção. Em 2015, a organização deu a Pearce 30 mil dólares australianos (cerca de US$ 20 mil) para a realização de novos testes. Mas, depois que Pearce falou em um programa de televisão a respeito das dificuldades cognitivas de ex-jogadores, um neurologista ligado à AFL disse a ele que tinha passado dos limites. Pouco depois, Pearce perdeu seu laboratório.

Uma década depois de jogadores de futebol americano que enfrentavam problemas neurológicos terem obrigado a Liga Nacional de Futebol (NFL) a confrontar sua crise de traumas neurológicos, uma narrativa semelhante está se desenvolvendo do outro lado do mundo.

Jogadores aposentados da AFL estão apresentando relatos de deterioração cognitiva naquele que deveria ser o auge de sua saúde física. Ao mesmo tempo, a liga está minimizado todos os elos entre pancadas na cabeça e trauma cerebral enquanto tenta tornar o esporte mais seguro com mudanças nas regras e a adoção de protocolos de concussão.

Mais de 100 jogadores aposentados da AFL estão acusando a liga de não ter oferecido proteção suficiente contra os perigos das repetidas colisões, resistindo aos apelos para que arcasse com os custos do tratamento de saúde. Em comunicado, a liga disse haver “registro público do seu reconhecimento do elo entre doenças neurológicas degenerativas e traumas encefálicos".

No mesmo comunicado, Andrew Dillon, advogado da liga e diretor-geral de desenvolvimento do esporte, disse, “A AFL se compromete a respeitar as melhores práticas globais para o tratamento de lesões na cabeça ocorridas no esporte. Em todos os momentos, nossas decisões foram orientadas por pesquisas, e nossa abordagem é conservadora, colocando em primeiro lugar a saúde dos atletas".

Nos anos mais recentes, o debate se tornou mais estridente, com jogadores mais jovens abandonando o esporte depois de poucos anos na liga por causa de repetidas “pancadas na cabeça". Jogadores aposentados há mais tempo também começaram a se manifestar.

Durante a década mais recente, a AFL aumentou a punição para entradas perigosas ou envolvendo jogadores já caídos no chão. Também teve início uma campanha para que os jogadores deixem de usar a cabeça como arma. Para alguns, foi como se a liga admitisse que o esporte é perigoso demais. John Barnes, veterano de 16 anos jogando na AFL, e sua antecessora, a Liga Vitoriana de Futebol, disse que os jogadores acreditavam que, se não ignorassem as concussões, perderiam a vaga no time.

Barnes, agora com 50 anos, começou a ter convulsões aos 42. Ele passa períodos de aproximadamente cinco minutos entre o desmaio e a consciência. De acordo com os médicos, sua epilepsia foi causada por repetidos golpes na cabeça. A memória também começou a falhar. Esquece de desligar o gás quando termina de cozinhar, por exemplo. Coloca o cereal na geladeira e o leite no armário.

As concussões se tornaram mais frequentes nos anos mais recenes, conforme a liga aprende a identificá-las e mais jogadores apontam seus efeitos. No ano passado, foram quase 7,5 concussões a cada mil horas de partida na AFL, alta de 11% em relação ao ano anterior.

Jogadores aposentados são excluídos do plano nacional de aposentadoria do trabalhador desde os anos 1970, depois que um atleta ficou paralisado após um jogo. Os diretores dos clubes perceberam que seriam pessoalmente responsabilizados se um jogador processasse a própria equipe. Assim, o ministro dos esportes de Victoria pressionou o governo para que atletas profissionais fossem excluídos da previdência do trabalhador. Outros estados aprovaram leis semelhantes.

Enquanto traçam uma estratégia jurídica, alguns ex-jogadores entregam seus cérebros ao único banco cerebral do país dedicado ao esporte, para que gerações futuras possam aprendem com o seu infortúnio. O neuropatologista Michael Buckland, de Sydney, leu a respeito da encefalite traumática crônica (ETC), a doença degenerativa identificada nos atletas que só pode ser diagnosticada após a morte. Ele abriu o banco de cérebros no ano passado.

O primeiro exame realizado por Buckland, de um ex-jogador de futebol australiano morto aos 77 anos que sofria de demência, deu resultado negativo para ETC. Em junho, ele esteve envolvido em pesquisas que mostraram casos de ETC em dois jogadores de rúgbi. Um ex-boxeador que cometeu suicídio também foi identificado como caso de ETC. Buckland disse que o número de diagnósticos positivos deve aumentar. “Levando em consideração os esportes australianos, vamos encontrar mais casos como esses", disse. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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