Corinna Kern/The New York Times
Corinna Kern/The New York Times

Conflito israelense vira série de sucesso

Atores que interpretam líderes de Israel e da Palestina em 'Fauda' inspiraram empatia entre os israelenses

David M. Halbfinger, The New York Times

07 Junho 2018 | 10h00

TEL AVIV - Ninguém na televisão de Israel se mostrou muito interessado quando Avi Issacharoff e Lior Raz criaram Fauda, sobre uma equipe de agentes disfarçados à caça de terroristas palestinos na Cisjordânia. E não era de estranhar.

O público aqui gosta de espairecer - assistindo a programas de talentos como The Voice ou Master Chef, em que a competição é individual e não nacional, ou a reality shows como Big Brother, em que o conflito é pessoal, e não político, ou a obras de ficção como Loaded, uma mistura de drama e comédia sobre uma start-up de tecnologia, cujos proprietários ficam milionários da noite para o dia, mostrando uma imagem que agrada a Israel como o próximo Vale do Silício.

“As pessoas não querem ouvir falar dos palestinos”, disse Issacharoff, um jornalista especializado em política árabe.

Ele e Raz começaram a escrever a série em 2010. Fauda, que em árabe significa “caos”, foi um sucesso de público e também da crítica: em Israel, é o programa de maior sucesso da história da TV por satélite Yes, e The New York Times a definiu como a melhor série internacional de 2017. Sua segunda temporada, que estreou em hebraico e em árabe em dezembro do ano passado em Israel, está disponível na Netflix com legendas em inglês.

Está sendo preparada uma terceira, embora a popularidade do programa o tenha transformado em um alvo: o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções exigiu que a Netflix acabasse com a série, definindo-a “uma propaganda racista” que “promove e legitimiza os crimes de guerra cometidos por esquadrões da morte” no Exército israelense.

O que explica seu sucesso em Israel é um tipo diferente de escapismo: a chance de os israelenses de visitarem lugares e conhecerem temas que, em geral, evitam - e depois voltarem para casa sãos e salvos, bastando apenas apertar uma tecla.

Para muitos israelenses, o alto muro de concreto que cerca grande parte da Cisjordânia proporciona uma necessária barreira mental: se quiserem, eles podem deixar de ouvir o conflito com os palestinos. “As pessoas querem espairecer”, afirmou Issacharoff. “Querem ir à praia, ao restaurante, sentar em um café, ouvir boa música”.

Entretanto, o trabalho que está sendo feito em seu nome pelas forças israelenses no combate ao terrorismo é incessante. Em Fauda, este trabalho é mostrado em toda a sua crueza, algo caótico e moralmente complexo. Integrantes de uma unidade do serviço secreto, agentes perto dos 40, 50 anos, mostram ternura por seus filhos e amantes, e depois saem e torturam ou fazem coisas piores.

“É como se levantássemos uma cortina desvendando um lugar de que ninguém fala”, disse Raz, que interpreta o personagem principal, Doron Kavillo, e já participou da Duv-devan, uma força do comando de elite, conhecida porque seus agentes se fazem passar por árabes. “Você não compreende o preço mental que estas pessoas pagam por suas ações”.

Regras e leis costumam ser rotineiramente violadas, e ordens não são levadas em conta. O que não se questiona é a justiça da causa.

Por meio do retrato da violência israelense e da humilhação que os palestinos experimentam diariamente, disseram os seus criadores, Fauda permite aos espectadores espiar do outro lado da barreira formada pelo muro alguns dos aspectos mais feios da ocupação, e depois se retirar para a segurança, consolando-se dizendo a si mesmos que tudo isso não passa de ficção.

Mas ao criar personagens com textura de ambos os lados - heróis israelenses capazes dos piores atos de perversão, vilões palestinos capazes dos mais belos tipos de amor - Fauda pode ter pisado em alguns dos calos causados por muitos anos de atritos. “Estou recebendo e-mails de israelenses que afirmam que pela primeira vez em sua vida sentem empatia e compaixão pelo outro lado”, contou Raz. “E outros do mesmo teor de Gaza e do Kuwait, do Líbano e da Turquia”.

O que ajudou a criar estas conexões emocionais foi a escolha do elenco entre atores de grande apelo, como os principais adversários: Hisham Suleiman como Abu Ahmad, um temido militante do Hamas, na primeira temporada, e Firas Nassar como Nidal al-Makdasi, um radical que rompe com o Hamas e se filia ao Estado Islâmico, na segunda temporada.

Issacharoff e Raz admitem que seu trabalho é um modo de fuga para os israelenses, seu público-alvo, muito mais do que para os palestinos. Os críticos palestinos, por sua vez, observam que Fauda evita transmitir plenamente a opressão da ocupação israelense - as demolições das casas, a evacuação dos beduínos de aldeias inteiras.

Perguntado sobre um personagem repugnante que explode um de seus amigos - um ponto do enredo que muitos palestinos questionaram -, Issacharoff observou que, anos atrás, quando as explosões dos suicidas eram muito mais frequentes, os comandantes terroristas exploravam emocionalmente indivíduos fracos para realizar estes atos, em lugar de se oferecerem como voluntários.

“Sou israelense, sou judeu, sou sionista”, ele disse. “O meu é o discurso israelense. Entretanto, ainda não consigo compreender, depois de 18 anos no campo, esses ataques suicidas. Por isso, se alguém manda seu companheiro para fazer isso, de fato, não liga a mínima para ele, é um ser humano horrível", disse. 

“E você sabe do que eu tenho certeza?”, acrescentou. “De que a maioria dos palestinos, lá no fundo - sabe disso”.

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