Jose Luis Magana/Associated Press
Jose Luis Magana/Associated Press

Conflito sobre nomeação de juiz retrata profunda divisão nos Estados Unidos

A batalha envolvendo a indicação de Brett Kavanaugh à Suprema Corte americana expôs o clima de turbulência política no país

Alexander Burns, The New York Times

14 de outubro de 2018 | 06h00

O partidarismo truculento que afeta os Estados Unidos é um sintoma de um contágio nacional muito maior. À direita e à esquerda, o conflito recente em torno de uma nomeação para a Suprema Corte parece menos o espasmo final de uma divisão - um trauma profundo, seguido de uma resolução calma - e mais um evento que aprofunda o clima nacional de turbulência. Os EUA estão tomados por um clima de divisão e desconfiança que encontra poucos paralelos no passado recente.

O senador republicano Charles E. Grassley, de Iowa, presidente da comissão do judiciário, ajudou a acelerar a votação da disputada nomeação do juiz Brett M. Kavanaugh, mas não sem antes declarar que o senado se aproximava do "fundo do poço". Grassley, 85 anos, quase quatro décadas de senado, disse que era hora de "consertar as coisas para que se possa fazer as coisas de maneira educada, como deve ser no Senado dos Estados Unidos".

Esse sentimento, expressado por um legislador que defendeu arduamente o juiz Kavanaugh e ajudou a vetar o indicado pelo presidente Barack Obama para a Suprema Corte, juiz Merrick B. Garland, foi recebido com desdém por muitos no universo político.

Ressentimentos históricos envolvendo questões de raça e gênero estão vindo à tona durante o mandato de um presidente que faz pouco da ideia de união nacional. Sua base política celebra a abordagem combativa com a qual ele colocou Washington de ponta cabeça, enxergando nesse movimento uma merecida recusa das sensibilidades da elite. O presidente Donald J. Trump fez campanha se apresentando como um guerreiro que falava duro contra o establishment político, e seus defensores o aplaudiram por governar dessa maneira.

Além do governo, as instituições coletivas do país - incluindo a mídia jornalística, o clero e até os esportes e a indústria do entretenimento - estão mergulhadas no caos. Em vez de pedidos de união por parte dos líderes políticos, um sentimento de apreensão permeia os níveis mais altos da política americana.

O ex-vice-presidente Joseph R. Biden Jr. alertou que algo maior até mesmo que a legitimidade do judiciário estaria em jogo, criticando os republicanos por sua "fúria cega" na batalha da Suprema Corte. 

"Isso ameaça a fé elementar do povo americano nas nossas instituições", disse.

A professora de história americana Joanne B. Freeman, da Universidade Yale, disse que, desde a fundação do país, houve !poucos momentos de uma divisão tão grande", entre eles o período que antecedeu a Guerra Civil.

"Há momentos na história americana em que observamos uma polarização extrema, e o governo deixa de funcionar como deveria", explicou a professora Freeman, apresentando um sombrio diagnóstico para o presente. “Vemos um abandono virtualmente sistêmico das normas, num grau que me parece alarmante".

Trump se tornou presidente ao revelar-se um mestre na exploração das divisões existentes no coração da cultura do país, explorando fissuras em torno de questões de identidade, etnicidade, sexo, religião e classe social para forjar uma coalizão extremamente leal que representa uma minoria no país, mas exerce um poder de voto desproporcional.

Mas, desde 2016, essas divisões apenas cresceram, e Trump continua a fomentá-las, desde sua resposta equivocada ao comício de supremacistas brancos em Charlottesville, Virgínia, até sua ridicularização do movimento #MeToo e do depoimento de Christine Blasey Ford, a mulher que acusa o juiz Kavanaugh de tentar estuprá-la na adolescência. 

Num comício no Mississippi, o presidente deu a entender que o apoio ao juiz não seria contraditório com a preocupação com as vítimas de violência sexual. Trump não se contentou em questionar o relato de Christine Blasey ou em defender o juiz Kavanaugh, chegando a ridicularizá-la e incentivar os ressentimentos entre os gêneros. Alertou seus eleitores que mulheres mentirosas poderiam acusar seus entes queridos falsamente de terem cometido abusos sexuais: "Pense no seu filho", insistiu ele. "Pense no seu marido".

O senador conservador Ben Sasse, de Nebraska, que defende o juiz Kavanaugh, fez um discurso emotivo no senado dirigindo-se ao movimento #MeToo e reconhecendo: "Todos sabemos que o presidente não pode nos liderar nesse momento".

E foi em termos ameaçadores que a senadora republicana Lisa Murkowski, do Alasca, explicou sua decisão de opor-se à nomeação do juiz Kavanaugh. 

"Acredito que estamos lidando aqui com questões que vão além do nomeado, de como garantir a justiça e como preservar o respeito dos braços legislativo e judicial", disse Lisa. "Estamos num momento em que precisamos começar a pensar na credibilidade e integridade das nossas instituições".

A única coisa com a qual a maioria dos eleitores parece concordar é que o processo político se tornou intolerável. 

"Nunca vi tamanha divisão", disse o joalheiro Reeny Sovel, de Fenton, Michigan, e eleitor democrata.

Brandon Peabody, empresário republicano da mesma região, disse que a política era “difícil de suportar no momento", mesmo com o partido dele no governo.

Mas existe pouco desejo óbvio de reconstruir algum tipo de união bipartidária em Washington. Entre as elites moderadas e os eleitores independentes, há uma melancólica esperança de que uma nova era de reconciliação possa se instaurar no governo, talvez após a presidência de Trump.

De sua parte, ao anunciar seu apoio à nomeação do juiz Kavanaugh, a senadora republicana Susan Collins, do Maine, lamentou a "grande desunião" do país e o impulso observado em diferentes americanos de "demonstrar extrema má vontade diante daqueles que discordam de suas opiniões".

"Só podemos esperar que a nomeação do juiz Kavanaugh seja o fundo do poço desse processo", disse.

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