Daniel Leal/Agence France-Presse
Daniel Leal/Agence France-Presse

Conflito sobre privacidade pode derrubar negócios digitais

O uso de dados do Facebook pela Cambridge Analytica com o objetivo avaliar eleitores dos EUA colocou em questão o modelo de negócios digitais

David Streitfeld, Natasha Singer e Steven Erlanger, The New York Times

08 Abril 2018 | 10h30

SÃO FRANCISCO - O modelo de vigilância do consumidor subjacente ao Facebook e aos serviços gratuitos do Google está sob o cerco de usuários, reguladores e legisladores dos dois lados do Atlântico.

Isso equivale a uma crise para a indústria da internet, que até agora adotou uma abordagem reativa e superficial para problemas como a disseminação de notícias fraudulentas e uso indevido de dados pessoais.

O alvoroço está ligado à recente revelação de que a Cambridge Analytica, uma empresa de recrutamento contratada pela campanha presidencial de Donald J. Trump, coletou dados de 50 milhões de usuários do Facebook e levou a acusações de que a internet em geral e as mídias sociais em particular estão empurrando a sociedade para baixo em vez de colocá-la pra cima.

Houve debate sobre um futuro mais restritivo para o Facebook e o Google. O Congresso dos Estados Unidos pode aprovar uma legislação para restringir o uso de dados de consumidores em setores específicos e exigir maior transparência na publicidade política on-line, disse Daniel J. Weitzner, diretor da Iniciativa de Pesquisa sobre Políticas da Internet do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Jascha Kaykas-Wolff, diretor de marketing da Mozilla, organização sem fins lucrativos por trás do navegador Firefox, disse que os anunciantes e as grandes plataformas de tecnologia poderiam coletar muito menos dados de usuários e ainda personalizar efetivamente os anúncios para os consumidores.

O próximo capítulo está marcado para acontecer na Europa, onde os reguladores já reprimiram violações de privacidade e estão examinando o papel dos dados na publicidade online.

O caso da Cambridge Analytica não foi apenas uma violação de dados privados, disse Vera Jourova, a comissária da União Europeia para justiça, consumidores e igualdade de gênero. 

"Isso é muito mais sério, porque aqui testemunhamos a ameaça à democracia, à pluralidade democrática", disse ela.

Embora muitas pessoas tivessem um entendimento geral de que os serviços online gratuitos usavam seus dados pessoais para personalizar anúncios, a última controvérsia expôs o mecanismo. As atividades aparentemente inofensivas dos consumidores - seus gostos - podem ser usadas para secretamente classificar e influenciar seu comportamento. E não apenas por terceiros desconhecidos. O próprio Facebook trabalhou com campanhas presidenciais sobre segmentação de anúncios, descrevendo seus serviços em um estudo de caso de empresa como "influenciador de eleitores".

"As pessoas estão preocupadas que seus dados possam ter sido usados para influenciar, sem seu conhecimento, os eleitores de 2016", disse Alessandro Acquisti, professor de tecnologia da informação e políticas públicas da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, Pensilvânia. 

"Se a sua informação pessoal pode ajudar a influenciar as eleições, o que afeta a vida de todos e o bem-estar social, talvez a privacidade seja importante, afinal".

Alguns executivos do grupo comercial alertaram que qualquer tentativa de conter o uso de dados do consumidor colocaria em risco o modelo de negócios da internet apoiada por anúncios.

"Você está minando um conceito fundamental de publicidade: alcançar os consumidores que estão interessados em um determinado produto", explicou Dean C. Garfield, executivo-chefe do Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação, cujos membros incluem Amazon, Facebook, Google e Twitter.

Em maio, a União Europeia estabelecerá uma nova lei de privacidade que trata os dados pessoais como sendo de propriedade de um indivíduo e, portanto, proibidos de serem usados sem permissão escrita em linguagem clara, nada de juridiquês.

Os Estados Unidos não têm essa lei, mas os grupos de defesa da privacidade disseram que depois de anos pressionando por legislações similares, os eventos recentes deram a eles um novo impulso, e que eles estavam buscando inspiração na Europa.

"Com a nova lei europeia, os reguladores pela primeira vez têm instrumentos reais de fiscalização", disse Jeffrey Chester, diretor-executivo do Centro de Democracia Digital, um grupo sem fins lucrativos em Washington. "Agora temos uma maneira de responsabilizar essas empresas".

As práticas de negócios do Facebook e do Google foram reforçadas pelo fato de que nenhuma questão sobre privacidade anteriormente durou mais que um ou dois ciclos de notícias. Se o atual furor passar sem mudanças significativas, os críticos temem que os problemas se tornem mais arraigados. Quando a indústria de tecnologia segue seus impulsos naturais, ela se torna ainda menos transparente.

"Se o Facebook e o Google estivessem apenas interessados em maximizar os lucros, poderíamos regulá-los", disse Maciej Ceglowski, que dirige o Tech Solidarity, um grupo de defesa do trabalho. “Mas as pessoas bem-intencionadas podem quebrar coisas que não são fáceis de consertar. É como uma criança dirigindo um trator. Eles não têm nenhuma noção do dano que podem causar”.

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