Andrew Testa para The New York Times
Andrew Testa para The New York Times

Congestionamentos podem ser pesadelo para o Brexit

Especialista acreditam que a saída da união alfandegária pode trazer o caos para os portos britânicos, além de um custo anual de US$ 25 bilhões

Stephen Castle, The New York Times

29 Junho 2018 | 15h00

DOVER, INGLATERRA - Caminhões circulam sem parar pelo maior porto de balsas da Inglaterra, alguns deles com destino à França, e outros chegando a Dover, onde percorrem uma passarela elevada que escala os notáveis penhascos brancos da cidade.

Das centenas de caminhões que usam Dover a cada dia, apenas uma fração é parada pelas autoridades britânicas. Isso ocorre porque Inglaterra e França são membros da União Europeia e sua união alfandegária, removendo a maioria dos controles de fronteira.

Mas isso pode mudar quando a Inglaterra deixar o bloco, processo que ganhou o nome de Brexit. A questão de como e quando abandonar a união alfandegária (ou mesmo se isso deve ser feito) dividiu o gabinete britânico.

Fala-se em eleições gerais relâmpago, ou um questionamento da liderança da primeira-ministra Theresa May por parte da facção linha dura do partido dela, favorável ao Brexit.

Os defensores do Brexit enxergam a saída da união alfandegária como “uma encarnação simbólica daquilo que de fato significa a saída da União Europeia”, disse Simon Fraser, ex-diretor do gabinete britânico de relações exteriores. “Eles veem o risco de a Inglaterra deixar a União Europeia legalmente, mas permanecer numa união alfandegária e, com isso, deixar-se limitar pelas regras comerciais da UE.”

Aqueles que desejam manter laços de proximidade com o bloco apontam para alertas segundo os quais a saída da união alfandegária provocaria o caos nos portos, custando às empresas mais de US$ 25 bilhões ao ano.

Aqui em Dover, os caminhões costumam ser liberados para o desembarque em questão de oito minutos, saindo do porto e chegando à estrada.

Apenas cerca de 2% dos caminhões trazem produtos de fora da União Europeia e exigem liberação alfandegária, o que pode levar de 20 minutos a vários dias, disse Richard Christian, diretor de políticas do Porto de Dover. Na ausência da união alfandegária, todos os caminhões seriam sujeitos a um exame desse tipo, em tese. Ainda assim, um atraso de apenas 2 minutos no processamento do desembarque de caminhões pode causar um congestionamento de 27 quilômetros, diz Christian.

A primeira-ministra May está comprometida com a ideia de abandonar a união alfandegária da Europa para permitir que a Inglaterra estabeleça acordos comerciais independentes. Ela é favorável a uma “parceria alfandegária” sob a qual a Inglaterra cobraria impostos da UE incidentes sobre muitos produtos, mas poderia estabelecer alguns acordos comerciais em separado. Os defensores do Brexit preferem outro plano, chamado “max fac” (abreviação de facilitação máxima) que aceita a necessidade de controles alfandegários, mas emprega a tecnologia para impedir que esses controles interfiram demasiadamente na circulação.

Entretanto, o plano “max fac” levaria três anos para ser implementado e aumentaria em £ 20 bilhões (US$ 26,6 bilhões) o custo anual da burocracia enfrentada pelas empresas, disse Jon Thompson, diretor da receita federal britânica.

A UE, cujo consentimento é necessário para qualquer plano, parece cética em relação a ambas as opções, e os especialistas duvidam que a tecnologia para esses planos estará pronta antes do término do período de transição proposto durante o qual a Inglaterra seguiria obedecendo as regras da União Europeia até dezembro de 2020.

O número de caminhões usando Dover aumentou 150% desde 1993, quando a integração econômica da Europa se acelerou, com mais de 2,5 milhões de caminhões passando pelo porto a cada ano, de acordo com o grupo de pesquisas Institute for Government. “Mercadorias no valor de US$ 159 bilhões passaram pelo porto em 2015, representando cerca de 17% de todo o comércio britânico de mercadorias em termos de valor”, disse o instituto.

A construção de postos alfandegários ou estacionamentos para caminhões fora do porto custaria tempo e dinheiro, mas, até que as decisões sejam tomadas, nada pode ser feito.

“Precisamos saber agora o que teremos de entregar”, disse Christian. “Precisamos saber assim que for humanamente possível.”

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