Sammy Baloji
Sammy Baloji

Cidade do Congo ligada à mineração é pólo artístico

A Bienal de Lubumbashi, fundada em 2008, realizou recentemente sua sexta edição nessa cidade da província de Katanga, rica em minerais

Siddhartha Mitter, The New York Times

27 de dezembro de 2019 | 06h00

LUBUMBASHI, REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO - Essa metrópole quente e seca parece um improvável centro de arte. Situa-se a 1,6 mil quilômetros da capital, Kinshasa, no extremo sul de um país enorme e difícil de governar, tipicamente associado a guerras e outras crises.

Mas a Bienal de Lubumbashi, fundada em 2008, realizou recentemente sua sexta edição nessa cidade da província de Katanga, rica em minerais. Foram reunidas obras de 42 artistas do Congo e além, incluindo astros africanos contemporâneos como Ibrahim Mahama, Emeka Ogboh e Kemang wa Lehulere, e uma colaboração com o coletivo Ruangrupa, da Indonésia, responsável pela curadoria do Documenta 2022. Durante o fim de semana de abertura, as árvores de poinciana despontaram em lindas flores laranjas ao redor do Museu Nacional, que abriga a parte principal da bienal, ao lado do parlamento.

O fotógrafo Sammy Baloji, artista contemporâneo mais conhecido de Lubumbashi e um dos fundadores do coletivo Picha, que administra a bienal, explicou que o edifício do parlamento era originalmente um teatro. Após a deposição de Mobutu Sese Seko, em 1997, o local se tornou a sede regional do parlamento. “Agora é um espaço político", disse Baloji. “E isso serve como metáfora para a cidade, onde a arte é limitada por forças políticas.”

A proliferação global de bienais e trienais chegou à África, com novos e futuros eventos marcados em Casablanca, Lagos, Kampala, Rabat e Stellenbosch, entre outras, que se juntarão às mais estabelecidas bienal de arte contemporânea de Dacar e bienal de fotografia de Bamako. Ainda assim, o evento de Lubumbashi se destaca, notável pela resiliência.

Sua primeira edição nasceu da ousadia, imaginada depois que Baloji conquistou a oportunidade de expôr sua obra na bienal de Bamako em 2007. “Foi onde conheci uma comunidade de artistas africanos questionando sua história e sua relação com o mundo", disse ele. A primeira bienal de Lubumbashi reuniu 15 artistas com um orçamento de US$ 90 mil, sustentado pelo centro cultural francês e um industrial da região.

A abordagem rigorosa da bienal foi parte do que atraiu Sandrine Colard, historiadora de arte belga-congolesa que atuou como diretora artística do evento deste ano. “Essa bienal foi criada por artistas locais", disse Sandrine. “É muito ligadas às origens comunitárias.”

Katanga abriga uma vasta riqueza mineral - jazidas de cobalto, cobre, ouro, manganês, urânio, zinco - usados em artigos de todo o tipo, de fios elétricos a celulares, passando por bombas atômicas. Fundada em 1909, Lubumbashi foi erguida com base na extração de minerais, sendo o pólo onde eram carregados na ferrovia.

A mineração e o seu impacto - social, político e ecológico - eram evidentes na bienal. Hadassa Ngamba, emergente artista de Lubumbashi, expôs um tecido com trechos que aludia, aos minerais da região, incluindo fragmentos verdes de malaquita. Jean Katambayi usou uma bobina de Tesla para ativar uma carapaça de fio de cobre em forma de um carro, comentando a dependência dos veículos elétricos em relação ao lítio e à mão de obra do Congo.

A guerra e outras crises também receberam a atenção dos artistas congoleses, que as retrataram por sua perspectiva. O fotógrafo belga-congolês Léonard Pongo examinou a história natural do Congo em obras de paisagismo em larga escala feitas em partes remotas do país.

“O Congo ainda representa a possibilidade total da vida na Terra", disse Pongo, acrescentando que a depredação humana traz mais risco de arruinar nossa espécie do que de acabar com o meio ambiente. “A natureza não se importa conosco. Pode nos devorar a qualquer momento.”

No coração de Lubumbashi há um deprimente monumento à extração - uma imensa laje reunindo sete décadas de resíduos de cobre, cobalto e outros. Chegou a figurar nas cédulas bancárias congolesas. Hoje o monumento fica no abandonado complexo de Gécamines, a empresa estatal congolesa de mineração, que passou por um colapso espetacular desde o fim dos anos 1980.

A bienal assumiu o controle do refeitório abandonado da Gécamines com obras que incluem o fantástico mapa do Congo e de Lubumbashi feito com caneta esferográfica por Mega Mingiedi, destacando datas, símbolos de minerais e referências a exploradores domésticos e estrangeiros.

Mingiedi, que é de Kinshasa, também dirigiu uma performance com jovens artistas que construíram uma imensa bola de papelão e PVC, rolando-a pelo antigo alojamento dos funcionários da Gécamines. A bola simbolizava a empresa, fragmentando-se e perdendo embalo. No fim, Mingiedi ateou fogo a ela.

Como toda bienal, esta também enfrenta o desafio de provar sua relevância para os moradores da cidade, cujas necessidades são mais materiais. Enquanto crianças e estudantes se envolveram com artistas nas suas instalações, um projeto fotográfico em Kamalondo, de classe trabalhadora, despertou ceticismo. Acostumados aos obstáculos, os artistas de Lubumbashi não vão desistir. “Ver coisas belas é importante para a consciência", disse Katambayi. “É o início de uma solução.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.