Gabriela Bhaskar / The New York Times
Gabriela Bhaskar / The New York Times

Congresso americano 'sonha' com plano para desaceleração climática

Proposta vem sendo debatida há mais de dez anos e foi ironizada pelo presidente Donald Trump como um 'trabalho de escola'

Lisa Friedman e Trip Gabriel, The New York Times

17 de março de 2019 | 06h00

WASHINGTON - O presidente Donald J. Trump zombou do New Deal Verde comparando-o a "um trabalho de escola do segundo grau que levou nota baixa". Os republicanos do Congresso o menosprezaram como algo "engraçado". A própria Nancy Pelosi, democrata, presidente da Câmara dos Deputados, disse que a proposta é um "sonho verde", e alguns candidatos presidenciais do partido a definem como uma mera aspiração. No entanto, apesar do desdém, os objetivos do plano - uma resolução do Congresso de grande amplitude, mas não compulsória, que visa tratar da mudança climática e da desigualdade econômica - cabem no âmbito das possibilidades tecnológicas, afirmam vários especialistas e economistas em recentes entrevistas.

Alcançá-los custará trilhões de dólares, concorda a maioria, e exigirá novos impostos e programas federais de grande abrangência. Certamente não se concretizará no arco de tempo de uma década, como os seus defensores consideram necessário, segundo os mesmos especialistas.

O New Deal Verde, em outras palavras, é uma série complexa de compromissos que se poderia concretizar, afirmam os especialistas, com grandes sacrifícios.

As propostas para um New Deal Verde - que visariam a desaceleração da mudança climática e impulsionariam indústrias em tecnologias avançadas de baixo carbono - vêm sendo debatidas há mais de dez anos. Mas somente no ano passado o tema foi considerado de grande urgência por um relatório  das Nações Unidas. De acordo com o documento, a Terra está prestes a sofrer escassez de alimentos, ondas de calor fatais e a morte de grande número de recifes coralinos até 2040, mais cedo do que diziam as previsões anteriores. E o relatório pede mudanças assombrosas na economia global no campo da energia.

Desafios na economia

Os desafios do New Deal Verde para a economia, segundo os candidatos democratas à presidência com esta plataforma, e  para os eleitores, começam com o fato de que cerca de 80% da energia nos Estados Unidos hoje vêm de combustíveis fósseis.

Substituí-los  com fontes que não emitam gases do efeito estufa custará trilhões de dólares e aumentará potencialmente os custos da energia.

Mitch McConnell, líder da maioria no Senado, anunciou que levará o plano a debate, medida com a qual forçará os democratas - particularmente os seis candidatos presidenciais no Senado que apoiaram a ideia - a votar de forma a permitir que os republicanos os tachem de socialistas. A maioria dos candidatos às eleições de 2020 que defendem o New Deal Verde não fizeram muito mais do que endossá-lo, e raramente foram pressionados a entrar em detalhes.

Mas, embora o âmbito do New Deal Verde seja imenso, os especialistas acreditam que os compromissos econômicos - a economia de trilhões em possíveis catástrofes e gastos de trilhões para impedi-las - valem a consideração dada à escala da ameaça.

O New Deal Verde exige  uma "mobilização nacional ao longo de dez anos" para que os Estados Unidos possam neutralizar o carbono em toda a economia. Isto significa que o carbono emitido na atmosfera teria de ser absorvido integralmente.

John P. Holdren, professor de política ambiental da Universidade Harvard, disse que o prazo final fixado para o New Deal Verde atingir este objetivo em 2030 não é viável. Ele ainda afirmou que uma transição agressiva para a energia não baseada no carbono, a partir de hoje, poderia chegar a zero emissões até meados do próximo século. Este é o prazo em que os cientistas insistiram no relatório da ONU do ano passado.

Fontes de eletricidade

Entre os alvos do New Deal Verde está o fornecimento de toda a eletricidade por fontes renováveis com zero emissões, no prazo de dez anos; a modernização de cada edifício para melhorar a sua economia de energia; e a modernização de fábricas e sistemas de transportes para acabar com as emissões de gases do efeito estufa.

O plano não inclui estimativas de custos, embora exija novos gastos do governo e um verdadeiro terremoto para as indústrias atuais.

Ethan Zindler, diretor de pesquisa para a América do Norte na Bloomberg New Energy Finance, um grupo de pesquisa para a energia limpa, disse que, se isto permitisse alcançar apenas o objetivo da eletricidade, constituiria um impulso imenso.

Ele observou que 37% da eletricidade nos EUA são produzidos de fontes de carbono zero, incluindo 20% são constituídos pela energia nuclear. Se não forem adotadas novas políticas, os EUA poderão chegar a cerca de 44% de energia limpa até 2030.

Zindler  disse que uma transformação de 100% para energia limpa em uma década necessitaria  não apenas do fechamento das minas de carvão, mas também da desativação das usinas a gás natural.

O que seria "extremamente difícil de realizar, quando não impossível, sem causar um prejuízo real para a economia", afirmou.

Mark Z. Jacobson, um professor de engenharia  civil e ambiental se mostrou mais otimista. Segundo ele, 80% da meta do New Deal Verde de zero emissões dos gases do efeito estufa poderiam ser alcançados até 2030, e 100%  entre 2040 e 2050."Não é preciso nenhum milagre da tecnologia", ele disse.

Transportes e construção civil

Na opinião de Kelly Sims Gallagher, diretora  do Centro da Política Internacional de Recursos e do Meio Ambiente da Universidade Tufts, o principal desafio é a melhoria dos setores de transportes e da construção civil no prazo de uma década. Ambos exigem enormes investimentos financeiros, regulamentações e - a fim de impulsionar o desenvolvimento de veículos elétricos e o tráfego em geral - provavelmente novos impostos.Especialistas dizem que a realização destes objetivos exigiria a taxação das emissões dos gases do efeito estufa - como um imposto sobre o carbono.

Embora seis candidatos presidenciais democratas sejam co-promotores do New Deal Verde - Cory Booker, Kirsten Gillibrand, Kamala Harris, Amy Klobuchar, Bernie Sanders e Elizabeth Warren - não se sabe ao certo até que ponto eles conhecem  ou apoiam os pontos específicos. Em uma reunião formal televisionada no mês passado, Amy Klobuchar definiu o New Deal Verde como algo "muito importante neste momento para o nosso país". Mas às perguntas sobre a viabilidade de pontos específicos da proposta ela disse: "Acho que são aspirações", e acrescentou que alguns compromissos seriam necessários.

Thomas J. Pyle, presidente do Institute for Energy Research, um grupo favorável aos combustíveis fósseis, afirmou que os defensores do New Deal Verde não estão sendo realistas quanto às consequências para o meio ambiente da construção  de  ferrovias de grande velocidade, da produção de veículos com zero emissões ou da reforma dos edifícios."Quanto aço isto implicaria? Quanto concreto? Pensem na gigantesca quantidade de CO2 emitido na atmosfera somente para a readaptação", disse. "É quase como se eles suspendessem a realidade para atingir seus objetivos finais".

Mas os ativistas do meio ambiente afirmaram que os detalhes e os obstáculos são menos importantes do que a ampla ambição do plano. "A ciência é clara: O tempo não está a nosso favor nesta questão", disse Carol Browner, assessora para o clima do ex-presidente Barack Obama. "Então devo dizer que estou tão otimista a respeito disto quanto sempre estive em relação a tudo o que se refere à questão ambiental".

 

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