REUTERS/Thomas Mukoya
REUTERS/Thomas Mukoya

Conhecendo um santuário que recebe elefantes e turistas no Chade

No Parque Nacional Zakouma, os elefantes "estão voltando"

Rachel Nuwer, The New York Times

31 Maio 2018 | 10h15

“Se todos tiverem estômago para isso, podemos ver os elefantes", disse Rian Labuschagne, sua voz ecoando em meio à estática dos fones de aviação.

Recebendo o sinal de positivo indicado pelos polegares dos três passageiros, Labuschagne, que na época era gerente do Parque Nacional Zakouma, no Chade, pilotou o Cessna C180 na direção de um local específico 20 quilômetros ao sul dali. Seus guardas tinham visto elefantes.

Embora poucos ocidentais já tenham ouvido falar deste parque, Zakouma abriga uma das histórias de preservação mais bem sucedidas da África. A ação descontrolada de caçadores de marfim transformou anteriormente essa região protegida da África Central numa verdadeira zona de guerra: enquanto facções rebeldes tentavam derrubar o governo de 2005 a 2010, os caçadores aproveitavam a situação de colapso da lei para massacrar 90% dos elefantes do parque. Mas, depois de assumir a administração do parque em 2011, Labuschagne e sua equipe o transformaram num raro santuário para os ameaçados elefantes africanos.

“Se observarmos as savanas da África Central e Ocidental, veremos que os elefantes foram praticamente exterminados: sua população não para de cair", disse Chris Thouless, diretor do Fundo de Crise para os Elefantes da organização sem fins lucrativos Save the Elephants, com sede no Quênia. “Zakouma, no entanto, é uma notável exceção.”

O avião sobrevoou uma manada de 850 cabeças de búfalo, que deixava atrás de si uma trilha de poeira, e fez uma procissão de crocodilos procurar a lama do Rio Salamat. Num charco adjacente, centenas de pelicanos rosados alçavam voo.

Dez minutos mais tarde, os elefantes foram avistados.

“Quando chegamos aqui pela primeira vez, sobrevoando, ainda era possível ver ossos brancos por toda parte, vestígios dos massacres", disse Labuschagne. “Agora, a população de elefantes está aumentando.”

Composto por mais de 500 animais, a manada de Zakouma é uma das maiores a sobreviverem na África 

Central. O fato de ainda haver elefantes na região surpreende muitos especialistas. A população de elefantes do parque “estava simplesmente em queda livre", disse o Dr. Thouless.

A partir de 2002, caçadores fortemente armados a cavalo, vindos principalmente do Sudão, invadiram sucessivamente o parque, reduzindo a população de elefantes de 4 mil para pouco mais de 400 em menos de uma década.

“Na época em que trabalhava no Zakouma, perdi sete guardas, mortos por caçadores, e recebemos duas visitas dos rebeldes", disse Luis Arranz, que atuou como gerente do parque 2001 a 2007. “Todas as dificuldades eram causadas pelos caçadores, que estavam prontos para tudo: matar e morrer pelo marfim.”

Mas o presidente do Chade, Idriss Deby, não estava disposto a desistir dos elefantes de Zakouma. Ele começou a explorar a possibilidade de trazer a organização sul-africana sem fins lucrativos African Parks, especializada na gestão e reabilitação de áreas protegidas em crise, para assumir a administração de Zakouma. Em 2010, ele entregou Zakouma ao controle da organização estrangeira.

Ainda que Deby tenha um histórico preocupante na área dos abusos aos direitos humanos e corrupção, os preservacionistas costumam vê-lo como aliado.

“O fundamental é que ele permitiu que a African Parks salvasse Zakouma", disse o Dr. Thouless. 

Em 2012, Labuschagne e a mulher, Lorna, reforçaram a segurança, formando uma equipe de guardas (os Mambas) para combater os caçadores. Também começaram a convidar pessoas dos vilarejos vizinhos para uma visita, incluindo cerca de 5 mil crianças por ano, que vêm para safaris educativos gratuitos.

Embora “Chade” e “turismo” não sejam palavras comumente associadas - um alerta do governo americano fala em minas terrestres, atentados suicidas e bandidos no país africano - viajar para lugares como Zakouma não é como visitar boa parte do restante do Chade. Os visitantes são levados diretamente do aeroporto para o parque e, ao chegarem lá, são protegidos por guardas bem treinados.

Os Labuschagnes começaram o trabalho com visitantes em Zakouma com a criação do Camp Nomade, um safari de luxo.

A estética do lugar é semelhante à das comunidades nômades da região. A instalação também é móvel, permitindo que os alojamentos acompanhem a vida selvagem na planície de inundação Rigueik - “um dos lugares mais belos de Zakouma, e um dos mais movimentados em termos de vida selvagem", disse Matthieu Radot, administrador do campo.

Uma estadia no Camp Nomade custa 5,5 mil dólares por pessoa incluindo sete noites, mas não os voos fretados de N’Djamena, capital do Chade. Todo o lucro obtidos com os visitantes é destinado à administração do parque e projetos locais, como a construção de escolas.

O plano é aumentar esse lucro com a ampliação da acessibilidade e do apelo internacional de Zakouma por meio do Tinga Camp, com preços entre 135 dólares e 145 dólares por noite. Seus 24 quartos, que incluem instalações para famílias, serão completamente reformulados em 2018.

“Estamos tentando abrir as portas do Chade para mais e mais pessoas", disse Jamie Sparks, ex-diretor do campo. “Oferecemos uma viagem inesquecível, que será revertida no auxílio aos elefantes.”

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