Julien Mignot para The New York Times
Julien Mignot para The New York Times

Considerada a mais feia do mundo, Ópera da Bastilha faz 30 anos

Teatro, criado pelo arquiteto Carlo Ott, era ridicularizado antes mesmo de ser construído

Joshua Barone, The New York Times

13 de fevereiro de 2019 | 06h00

PARIS - A Ópera da Bastilha foi ridicularizada antes mesmo de ser construída. Ao completar 30 anos este ano, o maior e mais moderno dos dois teatros da Ópera de Paris é considerado um dos mais feios da Europa.

Sua história começa com um equívoco. No início dos anos 1980, o presidente francês François Mitterrand ordenou a construção de um novo teatro. Depois de receber propostas sem que os nomes dos arquitetos pudessem ser revelados, Mitterrand e seus assessores escolheram um projeto, convencidos de que seu autor fosse Richard Meier, muito respeitado na época. Não era.

Seu criador era Carlos Ott, um arquiteto uruguaio-canadense relativamente desconhecido, que não tinha importantes referências em seu currículo. Entretanto, Mitterrand decidiu construir um mastodonte que se tornou o terceiro maior edifício de Paris.

Originalmente planejado para a área do Parc de La Villette, nos arredores de Paris, o teatro foi transferido para a Praça da Bastilha, onde se erguera outrora a famosa prisão. A localização fez sentido na data da inauguração, coincidindo com o 200.º aniversário do início da Revolução Francesa, quando a prisão foi invadida pelos revoltosos. Nos anos 1980, a Bastilha era um bairro da classe operária, e a ópera tinha sido concebida tendo em mente um público muito grande.

Quanto a este aspecto, a Ópera da Bastilha um sucesso. A idade média de seu público é cerca dez anos mais jovem do que a do Metropolitan Opera de Nova York, e não raro a companhia da Ópera de Paris lota tanto o Palais Garnier do século 19 (com 2 mil lugares no centro da cidade) quanto o Bastilha, com 2.700.

 

"Acho que muitos não gostam do edifício", disse Stéphane Lissner, diretor da companhia. "Mas hoje a grande maioria acredita que valeu a pena, porque agora muito mais gente pode ir à ópera".

O teatro da Bastilha foi escarnecido desde o começo. De fato, quando alguém pergunta a um parisiense o que a construção lhe parece, a resposta mais comum é um hospital, uma piscina pública, uma repartição do governo, ou um aeroporto. O saguão é apertado, fica logo lotado, e iluminado por luzes muito fortes. O ambiente não é absolutamente acolhedor: suas paredes de pedra e a decoração têm o charme de um hotel típico de centro de convenções. Cantores e diretores precisam lutar com o espaço cavernoso.

O Palais Garnier, em comparação, destaca-se em toda a sua opulência barroca; no foyer dourado não há um espaço sem decoração. No interior do teatro, repleto de poltronas de veludo vermelho, um lustre monumental - que inspirou o clímax de O Fantasma da Ópera, de Andrew Lloyd Webber - pende do teto pintado por Chagall.

O teatro da Bastilha nunca teve a intenção de ser uma visão moderna do Garnier - sua missão populista quis evitar alguns dos excessos da decoração do Garnier, segundo a opinião de alguns - mas talvez Ott tenha ido longe demais. O crítico alemão Manuel Brug disse que a abundância de pedra e metal, e seus ângulos ásperos, o tornaram "bem sóbrio".

Por outro lado, o teatro também foi vítima de um planejamento urbano medíocre. A Praça da Bastilha é uma rotatória com um monumento no centro. O espaço é o lugar preferido para manifestações; recentemente, o local foi ponto da manifestação dos Coletes Amarelos, o que fez com que tivesse de ser cancelado o ensaio com os figurinos da ópera checa Rusalka, aberto ao público.

Foram feitas algumas tentativas para melhorar o complexo. Nas comemorações pelo 350.º aniversário da Ópera de Paris e pelo aniversário da Bastilha, na atual temporada, a companhia encomendou a Claude Lévéque instalações para ambos os teatros. Para-raios iluminados podem ser vistos coroando a fachada do teatro Bastilha como uma tiara.

Depois de assumir a direção em 2015, Lissner mandou instalar uma enorme tela em cima da escadaria. 

"Do lado de fora, não se tem ideia de que edifício seja este", disse. "Por isso, decidi colocar esta tela externa para exibir a programação e imagens da ópera".

A Ópera de Paris planeja também um novo espaço no mesmo lugar, um espaço modular para um público de 800 pessoas. Foi feita uma concorrência, e companhia contratada foi a dinamarquesa Henning Larsen Architects, conhecida pela Ópera de Copenhague, e pelo salão de concertos Harpa, de Reykyavik, na Islândia.

Desta vez, não houve erro na escolha do arquiteto.

Mais conteúdo sobre:
óperaBastilleParis [França]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.