Sergey Ponomarev / The New York Times
Sergey Ponomarev / The New York Times

Construção de mesquita em praça de Istambul divide opiniões

Erguer o monumento foi objetivo de vários governos desde 1950. A finalidade do santuário é proclamar a fé islâmica da cidade

Carlotta Gall, The New York Times

27 de março de 2019 | 06h00

ISTAMBUL - No lado oeste da Praça Taksim, em 2018, foi erguido o esqueleto de uma enorme mesquita cuja altura ultrapassará o monumento do fundador da secular república turca, Mustafá Kemal Ataturk. Enquanto o templo subia, foi demolido o símbolo da era de Ataturk, a ópera de Istambul.

Poucos turcos se opõem  à mesquita - embora alguns questionem as suas dimensões e o estilo otomano -, mas o simbolismo de um templo de adoração dominando os monumentos da república secular de Ataturk não passou desapercebido.

Erguer uma mesquita na praça foi o objetivo de vários governos desde os anos de 1950. Mas esta iniciativa, a mais recente, faz parte de um impulso liderado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, com a finalidade de desenvolver a praça de maneira a proclamar a fé islâmica da cidade e a glorificar o seu passado otomano.

“Está mudando completamente a topografia e o projeto da praça”, disse Soner Cagaptay, diretor do Programa de Pesquisa Turca do Instituto de Washington para a Política do Oriente. “É extremamente simbólico do reinado de Erdogan sobre a república da Turquia”.

Um plano inicial apoiado por Erdogan, quando ele era prefeito de Istambul, foi frustrado por uma intervenção militar em 1997, que tirou o governo islâmico do país em Ancara. Agora, com poucos obstáculos ao seu poder, o seu plano de refazer a praça está se tornando realidade.

República moderna

A Praça Taksim é o popular centro da vida da cidade e um símbolo da moderna república fundada há cerca de 100 anos. Multidões de consumidores, trabalhadores a caminho do emprego, turistas  e gente em busca de diversão invadem a praça dia e noite - e a Avenida Independência, a principal rua de comércio de Istambul. O principal ponto de reunião é o monumento a Ataturk, retratado liderando a luta para estabelecer a moderna Turquia após a queda do Império Otomano.

Em 2013, a Praça Taksim foi o local de grandes protestos contra Erdogan, que na época era primeiro-ministro. Ambientalistas, estudantes, artistas e ativistas defensores da democracia realizaram uma manifestação pacífica de uma semana no Parque Gezi, nos jardins que cobrem o lado norte da praça. Seu objetivo era bloquear o plano de Erdogan de construir um shopping projetado como o quartel da era otomana que outrora ocupava o parque.

Erdogan dispersou o protesto com a força policial. Dezenas de pessoas foram presas e duas morreram em Istambul; além de seis em protestos em todo o país. A polícia ocupou um canto do parque, quebrando as lajes de mármore com os seus veículos, e montando barricadas. A reestruturação parou por algum tempo. Antes, a Praça Taksim assinalava o limite da cidade, e os bairros do entorno eram habitados por comunidades não muçulmanas de gregos, armênios e judeus. Sob a república de Ataturk, ela se tornou o centro da moderna Istambul.

“Taksim é um símbolo de progresso, trabalho e modernismo”, disse Mucella Yapici, secretária do grupo Taksim Solidarity, que defende o status protegido da praça. Os moradores mais antigos lamentam o aburguesamento e a comercialização que ocorreram com a popularidade da praça, que expulsaram os artesãos locais. A transformação da praça para uso exclusivo de pedestres em 2012 contribuiu para ampliar o seu apelo, mas, segundo antigos ambulantes, ela perdeu parte da sua essência. 

“Havia um bonde e ônibus elétricos e bancas que vendiam comida”, relembrou Gulzade Yorgun, acrescentando que  vende flores na praça há 43 anos. “A versão antiga era mais bonita”.

Em fevereiro de 2017, Erdogan levou adiante a construção da mesquita. Depois, no ano passado, ordenou que o Centro Cultural Ataturk, um aclamado edifício modernista onde gerações de turcos assistiram a concertos, óperas e produções teatrais, fosse totalmente derrubado.

Símbolo da abertura da república aos valores do Ocidente, o centro cultural estava fechado desde 2008 para reformas, segundo o governo, mas nunca foi reaberto. Erdogan, que teve uma formação religiosa conservadora, nunca escondeu seu pouco apreço elas artes. Não importou que os manifestantes de Gezi adotassem o edifício. Mais tarde, ele foi declarado abandonado.

Enquanto supervisionava a destruição do edifício original, Erdogan, em um aparente aceno à sociedade secular, anunciou planos para a reconstrução do centro. Mas também afirmou que seguiria em frente com a reconstrução do quartel otomano. “Eles querem privatizar aquela praça”, disse Mucella. Ela faz parte de um grupo de 16 sindicalistas, artistas e ativistas  que foram acusados de participar dos protestos, seis anos atrás. Se condenados, eles poderão ser sentenciados à prisão perpétua. O processo  começará em junho.

Em um documento recente, a Taksim Solidarity denunciou a acusação: “Se a democracia chegar algum dia a este país, será investida do poder da união igualitária, libertária e pacífica de Gezi. Poderão processar milhões de pessoas, mas a verdade jamais será destruída”. Uma visão que se distancia daquela do fundador de uma nação.

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