Maxim Shemetov/Reuters
Maxim Shemetov/Reuters

Construído para a Copa de 2018, estádio do Baltika é mais impressionante que a equipe

O time, que em 64 anos venceu o campeonato russo uma única vez, vê uma vitória ao herdar um estádio que custou US$ 280 milhões

Andrew E. Kramer, The New York Times

30 Maio 2018 | 15h15

KALININGRADO, RÚSSIA - Nikita I. Zakharov comanda a torcida do time de futebol desta verdejante cidade provincial onde tudo acontece devagar, mas ele mantém os pés no chão ao falar de seu lugar no vasto mundo do futebol.

“Não podemos nos gabar de nenhum sucesso nos gramados", disse ele, melancólico. O time, Baltika, joga na segunda divisão do campeonato russo. Em seus 64 anos de história, a equipe só foi campeã uma vez, em 1995 (“o ano dourado!”, exclamou Zakharov), conquistando o vice-campeonato duas vezes, em 1959 e 1961.

Mas a maior vitória não ocorreu exatamente dentro de um estádio, mas com um estádio. Numa área pantanosa e pouco desenvolvida da cidade surgiu, este ano, um reluzente estádio de US$ 280 milhões, uma das seis novas arenas esportivas que a Rússia construiu para a Copa do Mundo.

Trata-se de uma série de novos estádios que, mesmo para os parâmetros da Copa do Mundo, parecem desproporcionais em relação ao pequeno público local atraído por times como o Baltika, que usará o espaço após o mundial.

Sua construção, a um custo total estimado em US$ 11 bilhões, ilustra como o esporte, assim como as indústrias do petróleo e da mineração, tornou-se integral para os negócios do Kremlin com os financiadores ultrarricos da Rússia, conhecidos como oligarcas.

Os estádios da Copa do Mundo se tornaram um meio de recompensar empresários bem relacionados, disse Ilya Shumanov, vice-diretor do grupo de combate à corrupção Transparência Internacional. “Os regimes autoritários adoram os megaeventos esportivos", contou Shumanov. “Somas imensas são distribuídas dos cofres públicos. É uma combinação de pão e circo ao mesmo tempo”.

O lucrativo negócio em Kaliningrado, um enclave russo entre Lituânia e Polônia, ficou com a empresa de Aras Agalarov, um dos homens mais ricos da Rússia.

O estádio em Kaliningrado está entre aqueles designados para cidades que não têm equipes de destaque na primeira divisão do campeonato russo. Num caso desse tipo, a cidade de Saransk, com 297 mil habitantes, recebeu um estádio com 45 mil lugares.

O design dos novos estádios acena para o orgulho local. Em Kaliningrado e São Petersburgo, cidades portuárias, a aparência dos estádios lembra a de navios.

Os moradores de Kaliningrado se perguntam o que fazer com o estádio após o fim da Copa do Mundo.

A arena de 35 mil lugares vai receber quatro partidas da primeira rodada em junho e, em seguida, ficará com o clube Baltika, que no ano passado atraiu um público médio de 4 mil espectadores para suas partidas. Foram eventos sem qualquer destaque, de acordo com vídeos dos jogos, mostrando fãs desanimados mastigando sementes enquanto assistiam às jogadas de seus heróis dos gramados, resultando frequentemente em derrotas.

“Simplesmente não há muitos amantes do futebol por aqui", disse Vadim Chaly, professor assistente de filosofia da Universidade de Kaliningrado e especialista em Immanuel Kant, nascido na cidade na época em que Kaliningrado era alemã e se chamava Königsberg.

De acord com Chaly, o estádio teria enfurecido o filósofo, que escrevia a respeito da necessidade de formar o conhecimento a partir dos indícios do mundo ao redor.

“A ideia de alcançar algum objetivo mais elevado por meio do enriquecimento é absolutamente contrária a Kant", explicou Chaly, referindo-se às afirmações que sugerem que os benefícios trazidos pela Copa do Mundo vão além dos esportes, como a divulgação de uma imagem positiva da Rússia no exterior. “Para ele, o objetivo mais elevado era a moralidade, e nada além disso”.

Ainda assim, os torcedores de futebol não poderiam ficar mais contentes. Depois de anos difíceis para o Baltika, eles sentem a sorte mudando.

“Estou muito feliz", disse Zakharov. “Nós não o construímos, mas vamos usá-lo”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.