Fred R. Conrad The New York Times
Fred R. Conrad The New York Times

Sem convenções como a Comic-Con, artistas apostam na venda on-line

Artistas que ganham uma parte significativa de sua renda em convenções de fãs esperam que os participantes virtuais estejam dispostos a gastar

Paige Lyman, The New York Times - Life/Style

15 de agosto de 2020 | 05h00

Como a maioria dos grandes eventos, as convenções de fãs, como a San Diego Comic-Con, a WonderCon e a Dragon Con, tiveram de se adaptar este ano por conta da pandemia de coronavírus. Algumas foram adiadas ou canceladas; outras adotaram uma programação on-line.

Embora os painéis e as exibições que são promovidos nessas convenções possam ser transmitidos facilmente de casa, os chamados "meet-and-greets" (encontros com os artistas) e as conexões espontâneas criadas nos eventos são mais difíceis de reproduzir em um ambiente virtual. Isso inclui interações entre participantes e vendedores.

O "artist alley" (beco do artista) é uma marca registrada das convenções de fãs, povoado por pessoas que vendem ilustrações, pinturas, adesivos, broches, estatuetas, quadrinhos e outros produtos que fazem referência a franquias populares. A maioria desses artistas independentes faz a maior parte de sua venda anual nesses encontros. Neste ano, entretanto, todos eles estão sentindo a crise.

"Tem sido difícil! Do ponto de vista dos negócios, as convenções representam uma parte significativa do nosso fluxo de renda, por isso tenho me sentido insegura com isso", escreveu por e-mail Karen Hallion, de 47 anos. Ilustradora freelancer, ela já produziu trabalhos para clientes da área de entretenimento, incluindo a Marvel e a Disney. Hallion iniciou um Patreon (site de financiamento coletivo) em 2015 para apoiar seu trabalho, que inclui mash-ups – ou mistura – de personagens (Doctor Who encontra Procurando Nemo, por exemplo) e um livro infantil que ainda será lançado.

Como agora esses artistas não têm mais, como público cativo, os participantes de uma convenção, é essencial promover e vender o trabalho on-line. "Há alguns meses, quando ficou claro que as convenções não seriam produzidas como de costume, comecei a revisar meu mostruário, a loja on-line na Etsy e a repensar minha abordagem com impressão sob demanda, como o programa Merch by Amazon", disse Faina Lorah, pintora e ilustradora que mora em Cincinnati.

Lorah, de 30 anos, começou sua carreira como artista plástica, mas mudou seu estilo para trabalhos inspirados em folclore e em contos de fadas, depois de algumas convenções de sucesso. Ela também cria fan art (obras baseadas em personagens), algumas inspiradas na franquia Super Mario ou em A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki. Lorah estimou que, em um ano normal, 70% de sua renda provém das vendas de convenções.

Seu marido, Simon Tam, de 39 anos, músico que, com frequência, é apresentador e palestrante em convenções como a San Diego Comic-Con, a Dragon Con, a South by Southwest e a Sakura-Con, vem promovendo eventos virtuais durante a pandemia. Ele também mudou seu foco para a filantropia e comentou que está "ajudando financeiramente artistas que usam o trabalho para combater o ódio durante a pandemia" por meio da Slants Foundation, uma organização sem fins lucrativos que ele formou com seus colegas de banda, em 2018.

Jenny Park, ilustradora de Cypress, na Califórnia, cujo trabalho faz referência a videogames como o Overwatch e o Fire Emblem, vem produzindo, com outros criadores, miniconvenções virtuais em sua sala de estar. De acordo com Park, seus colegas de banda, artistas independentes, têm se unido durante esse período. "Acho que existe um senso maior de comunidade e o desejo de ajudar um ao outro a ter sucesso, porque a covid-19 afetou todos os envolvidos", observou Park, de 29 anos.

Nos últimos anos, esses artistas tiveram dificuldades com empresas de entretenimento por causa de violações de propriedade intelectual, já que muitos deles usam personagens e iconografia bem conhecidos, com direitos autorais e marcas registradas em seus trabalhos. O beco do artista é uma área em que o uso de imagens protegidas pode ser especialmente visível, pois os estandes dos artistas ficam próximos a vendedores corporativos oferecendo seus produtos. Mas muitos deles que alugam mesas nas convenções também fazem arte original, usando personagens e imagens de sua própria criação.

Alguns artistas também fizeram uso de hashtags como #virtualartistalley e tags específicas de convenções como #ECCCOnline (sigla em inglês para "Emerald City Comic Con On-line") para tornar seu trabalho mais acessível na internet.

Além da receita perdida, Hallion, que mora em Swampscott, Massachusetts, contou que sentiu saudade de se reunir com outros artistas. "Tenho uma pequena 'família de convenção' espalhada por todo o país. Esses eventos são a única vez que nos vemos na vida real e passamos um tempo juntos. É bem solitário trabalhar no meu estúdio o tempo todo, por isso as convenções sempre foram uma pausa bem-vinda do tempo em isolamento", concluiu Hallion.

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.