Betina Garcia / The New York Times
Betina Garcia / The New York Times

Receita para melhor cuidar da cidade: substitua carros por bicicletas

Em Copenhague, cerca de 49% de todas as viagens para a escola e o trabalho, hoje, são realizadas de bicicleta, segundo a prefeitura, em comparação com 36% há dez anos

Peter S. Goodman, The New York Times

16 de novembro de 2019 | 06h00

COPENHAGUE – São cerca de 4 horas da tarde, e a escuridão já cai sobre a cidade neste 4 de novembro. Natalie Gulsrud precisa pegar o filho de 5 anos e parar no supermercado, antes de ir para casa e preparar o jantar. Como dezenas de milhares de outras pessoas na capital da Dinamarca, ela circula de bicicleta o dia todo, na rede de ciclovias mais avançada e utilizada do mundo. Ela não tem carro nem quer ter.

Natalie acomoda as compras no compartimento da frente da bike – um veículo de três rodas próprio para transportar crianças e mercadorias de pequenas dimensões. Senta no selim, puxa o casaco, e enfrenta curvada o vento inclemente. “As pessoas aqui dizem que não há tempo ruim”, afirmou Natalie, de 39. “Só roupas ruins."

A lendária história da bicicleta de Copenhague está sendo impulsionada por aspirações como fazer frente à mudança climática, um trânsito sem engarrafamentos e o exercício físico, mas o elemento mais fundamental é mais simples: aqui, as pessoas usam suas bicicletas porque é a maneira mais fácil para circular pela cidade. “Algumas mulheres vão de bicicleta até o hospital para dar à luz”, disse Natalie, que está grávida. “Eu não vou fazer isto”.

Uma antiga vizinha tem um serviço mortuário de bicicleta, no qual o defunto, no caixão, é levado de bicicleta ao seu último destino. Os carteiros usam bicicletas para entregar pacotes postais. Alguns vão de bike ao aeroporto,  às vezes levando malas de rodinhas ao seu lado durante o percurso.

Cerca de 49% de todas as viagens para a escola e o trabalho, hoje,  são realizadas de bicicleta, segundo a prefeitura, em comparação com 36% há dez aos. Recentemente,  a prefeitura fez uma pesquisa entre os ciclistas da capital para saber o que os inspira a usar este meio de transporte: 55% disseram que é mais conveniente do que as outras alternativas. Apenas 16% se referiram aos benefícios para o meio ambiente. “Não será de manhã, quando você está atrasado para o trabalho, que vai querer salvar o planeta”, ressaltou Marie Kastrup, que dirige o programa da bicicleta da cidade.

Bicicletas x automóveis

Recentemente, em uma segunda-feira chuvosa, uma mulher de salto alto e impermeável chique pedalava uma bike carregada com seus três bebês no compartimento da frente. Um encanador cruzava o trânsito com uma bicicleta para o transporte de carga, com os seus instrumentos enfiados no compartimento especial. O número de bicicletas ultrapassa consideravelmente o de automóveis no país.

A fama de Copenhague, um exemplo global em termos de cultura da bicicleta, se deve ao seu terreno plano e à inexistência de uma indústria automotiva dinamarquesa. Outros problemas também influíram.

O choque global do petróleo dos anos 70 elevou o preço da gasolina, tornando o automóvel um gasto exorbitante. A crise econômica dos anos 80 levou a cidade à beira da falência, pela falta de recursos para a construção de estradas, e tornou as ciclovias uma alternativa rápida e atraente em termos econômicos.

A prefeitura logo se preocupou em tornar mais seguro e confortável o trânsito das bicicletas, criando faixas separadas dos automóveis em todas as ruas. À medida que a utilização da bicicleta conquistava o interesse de massa, a melhoria da infraestrutura  tornou-se uma boa política. Quando neva em Copenhague, as ciclovias costumam ser limpas antes em primeiro lugar. “A infraestrutura está instalada e é segura”, disse Kasper Rasmussen, marido de Natalie. “Por que não usaríamos a bicicleta? Seria estúpido não fazer isto." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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