Charlotte de la Fuente para The New York Times
Charlotte de la Fuente para The New York Times

Copenhague quer ensinar como enfrentar as mudanças climáticas

Capital da Dinamarca pretende gerar mais energia renovável do que a energia suja consumida até 2025

Somini Sengupta, The New York Times

03 de maio de 2019 | 06h00

COPENHAGUE - Copenhague, na Dinamarca, pretende anular suas emissões de gases-estufa, e rápido. Já em 2025, essa cidade que já foi suja e industrial tem como objetivo tornar-se neutra em emissões, o que significa que a ideia é gerar mais energia renovável do que a energia suja consumida.

Metade da humanidade vive hoje em cidades, e uma vasta parcela dos gases que aquecem o planeta vem das cidades. As grandes soluções para a mudança climática também precisam vir das cidades. A experiência de Copenhague, que abriga 624 mil habitantes, pode mostrar a outros governos urbanos o que é possível fazer.

O prefeito Frank Jensen disse que as cidades “podem mudar o nosso comportamento, nosso modo de vida, e promover algo mais sustentável". A cidade dele tem vantagens: é pequena, rica, e seus habitantes se importam com a mudança climática. Copenhague já reduziu suas emissões em 42% em comparação aos patamares de 2005, principalmente abandonando os combustíveis fósseis na geração de calor e eletricidade.

Mas a dinâmica política está dificultando novos avanços. Jensen, 57 anos, um social-democrata à esquerda do centro, fracassou em convencer o governo nacional, comandado por um partido de centro-direita, a impor restrições aos veículos movidos a diesel. O transporte responde por um terço da pegada de carbono da cidade, proporcionalmente o maior setor, e está em crescimento.

O governo nacional reduziu o imposto de licenciamento de veículos, jogada que, para os críticos, incentiva o uso de carros particulares. O ministro dos transportes, Ole Birk Olesen, disse que o governo queria reduzir o que ele descreveu como “supertributação dos carros", embora acrescentasse que, idealmente, os dinamarqueses só comprariam carros de emissão zero.

Muitos políticos da oposição e analistas independentes duvidam que Copenhague seja capaz de alcançar a meta definida para 2025, e alguns críticos dizem que o plano se concentra demasiadamente em equilibrar a contabilidade de carbono da cidade, e nem tanto em mudar o modo de vida das pessoas.

“Andamos por aí em carros que consomem combustíveis fósseis, comemos muita carne, compramos muitas roupas", disse Fanny Broholm, porta-voz do Alternativet, partido verde à esquerda do centro. “A meta atual não é suficientemente ambiciosa, e nem mesmo conseguiremos alcançá-la.”

Funcionários da cidade dizem que este é apenas o começo. Uma nova linha de metrô, com inauguração marcada para este ano, vai garantir que a maioria dos moradores esteja a uma distância de até 650 metros da estação mais próxima. As ciclovias já têm três pistas de largura nos trajetos mais movimentados para atender aos 43% da população da cidade que usam a bicicleta como principal meio de transporte - mesmo nos dias úmidos e de vento, que são muitos. 

A cidade investiu pesado em turbinas eólicas. E os edifícios são aquecidos em parte pela queima do lixo em um novo incinerador de alta tecnologia - e nem há muito lixo para queimar, considerando que cada apartamento tem agora oito latas distintas de lixo reciclável.

Algumas usinas de energia substituíram o carvão por fragmentos de madeira. Em princípio, a prática é considerada neutra em emissões de carbono, desde que sejam plantadas árvores no lugar daquelas que são derrubadas. Mas a queima de madeira produz emissões; um processo apresentado no Tribunal Europeu de Justiça pede que fragmentos de madeira não sejam considerados uma fonte renovável de energia.

A cidade inaugurou recentemente um incinerador de 85 metros de altura, construído ao custo de US$ 660 milhões, semelhante a uma reluzente pirâmide semiconstruída. Projetada por um dos arquitetos mais conhecidos do país, Bjarke Ingels, a instalação funciona como pista de esqui aberta o ano inteiro para atrair visitantes.

Todos os dias, 300 caminhões trazem lixo que é despejado na imensa fornalha. Isso também produz uma pegada de carbono. Mas o engenheiro-chefe, Peter Blinksbjerg, destacou que em vez de ser levado a um aterro sanitário, o lixo é transformado em algo útil: aquecimento. Depuradores removem a maior parte dos poluentes químicos antes de liberar vapor.

Atualmente, ao pedalar pela cidade, é difícil imaginar como era sua aparência anterior. Havia fábricas nas ruas estreitas e navios no porto, sujo de óleo. O ar era pesado e cheio de partículas. Agora, as pessoas usam uma movimentada ciclovia como meio de transporte, ligando a parte mais antiga da cidade aos bairros do norte, passando pelos blocos de apartamentos com vista para o lago.

A estudante de medicina Mariam Hleihel disse ver com bons olhos os esforços de Jensen para reduzir a poluição e o número de carros. “Se nada for feito agora, as consequências serão irreversíveis", disse ela. É um sentimento generalizado entre os dinamarqueses. Uma pesquisa de opinião realizada em 2018 pelo centro de estudos estratégicos Concito revelou que enfrentar a mudança climática é um dos assuntos principais para os eleitores. Mais da metade dos entrevistados disse que seria necessário mudar seu modo de vida para enfrentar o desafio.

Simone Nordfalk, que trabalha como caixa em uma feira de rua, sabe que uma mudança nos hábitos alimentares reduziria as emissões de carbono. Os figos são trazidos do Brasil. Os morangos, da Espanha. É improvável que os dinamarqueses revertam para a dieta da geração anterior. “Não acho que vai acontecer", disse ela.

“Esse tipo de coisa vende bem.” Nos bairros mais vulneráveis, Copenhague está criando parques e lagos para coletar água. Há novos diques no porto, e uma proposta de construção de uma ilha para bloquear as marés de tempestade. “A preocupação das pessoas é sincera", disse Klaus Bondam, ex-político e atual diretor de uma organização lobista representante dos ciclistas. “O político que não der ouvidos a isso é muito desligado da população.” / Martin Selsoe Sorensen contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.