Daniel Brenner para The New York Times
Daniel Brenner para The New York Times

Coração dos Estados Unidos pulsa no Colorado

Colorado representa uma espécie de microcosmo político dos EUA

Roger Cohen, The New York Times

04 Novembro 2018 | 07h00

NUCLA, COLORADO - Richard Craig, fã das armas e crítico do presidente Donald Trump, é o responsável pela lei local que obriga o chefe de cada lar da cidade a ter uma arma. A lei incomum, aprovada pela câmara municipal em 2013, deu algum destaque a essa pequena comunidade do sudoeste do Colorado.

“Acredito na nossa constituição", disse-me Craig. “O porte de arma é apenas parte da liberdade americana. Para mim, Trump é um idiota. Ele deveria sair do Twitter e ficar de boca fechada".

Craig, 78 anos, eleitor democrata favorável à mineração, que usa bermuda camuflada e sandálias de couro e se recusa a entrar para a National Rifle Association, é um americano que se declara além das ideologias. Em outras palavras, ele é muito parecido com o Colorado.

Com as eleições para vários cargos do legislativo e executivo, o Colorado representa uma espécie de microcosmo dos EUA, com uma população de 5,6 milhões dividida de maneira mais ou menos igual entre republicanos, democratas e independentes. Os liberais, entre eles os imigrantes recém-chegados, tendem a habitar a região de Front Range, mais urbana, a leste das Montanhas Rochosas; o apoio a Trump é mais intenso na zona rural de Western Slope. O condado de Montrose, do qual Nucla faz parte, elegeu Trump com 67,9% dos votos em 2016; graças principalmente a Denver e Boulder, o Colorado proporcionou a Hillary Clinton uma vitória eleitoral apertada. Como o crescimento populacional se concentra na área de Front Range, o Colorado parece avançar mais para o lado dos democratas.

Mas o Colorado não se dividiu nos moldes das tribos políticas irreconciliáveis que transformaram Washington num símbolo da polarização. A economia do estado está funcionando muito bem. A taxa de desemprego é de 2,9%. Sua capacidade de negociar concessões mútuas - sendo um estado rico em reservas de petróleo e gás natural, com recursos hídricos limitados, comprometido com a preservação ambiental e adepto de um estilo de vida próximo da natureza - pode ser observada por toda parte.

John Hickenlooper, o governador democrata que não pode ser reeleger por ter alcançado o limite de mandatos, explicou a situação. “No Oeste, acredito que temos uma inclinação, quase um instinto, que nos leva a negociar com as pessoas com quem discordamos até encontrar uma solução para o problema” - como ele fez com a indústria do petróleo e do gás natural, produzindo uma política energética racional e o primeiro marco regulatório do país para limitar emissões futuras.

Será que ele tem interesse em se candidatar pelo Partido Democrata para a presidência em 2020 com base nessa plataforma de cooperação? “É uma ideia que estamos analisando", disse ele. Uma candidatura de Hickenlooper seria interessante porque ele governa o Colorado há oito anos, e não teria conseguido fazê-lo sem negociar com o público que se identifica com a profunda frustração estimulada por Trump. 

Aqui, o apoio ao presidente não é uma abstração nem motivo de chacota, e sim um fato.

Apesar dos bons números da economia, as dificuldades atingem a todos. Os salários estão em baixa. 

Alguns distritos escolares, como o de Pueblo, passaram a ter apenas quatro dias de aula por semana porque a arrecadação fiscal é insuficiente para mantê-los. Nas áreas rurais, as mensalidades do seguro saúde aumentaram vertiginosamente porque há apenas uma seguradora na região. Assim, muitos ficam sem cobertura enquanto outros temem que, se aceitarem um emprego, perderão o direito ao programa Medicaid, o seguro de saúde do governo destinado a pessoas de baixa renda. “Assim como ocorre no restante do país, não é fácil arcar com os custos de moradia, saúde, ensino superior ou ensino infantil; outra forma de dizer isso é que a maioria não pode arcar com o custo de um estilo de vida de classe média", disse o senador democrata Michael Bennet, do Colorado (o irmão dele trabalha na seção editorial do Times).

A sensação de terem sido deixados para trás, esquecidos ou trapaceados por um sistema injusto num país cada vez mais desigual é o principal drama dos EUA. A questão agora é quem será mais eficaz na tentativa de convencer esse eleitorado que o sonho americano pode ser restaurado: Trump, com seus inescrupulosos discursos incendiários e seu nacionalismo camuflando reformas fiscais e outras politicas que favorecem o 1% mais rico, ou um Partido Democrata capaz de redescobrir como dialogar com o eleitorado das cidades menores, menos qualificado, que mal consegue alcançar a classe média, sem tratá-lo com condescendência?

A cidade de Nucla, com pouco mais de 700 habitantes, foi fundada perto de 1900 por um grupo de socialistas utópicos. Viveu da mineração do urânio durante a Guerra Fria e agora se voltou para o cultivo do cânhamo, primo da maconha, na tentativa de injetar energia na comunidade. O eleitorado é majoritariamente republicano, como ocorre em muitas cidadezinhas americanas. 

O encanador Bob Ralph destacou a mudança na região onde mora. “Um ano atrás, seríamos os únicos aqui. Agora, temos que esperar até conseguir uma mesa. Há fila na loja de ferramentas. Todos estão ansiosos para abrir negócios. Espero que Trump seja reeleito".

Nas 10 eleições presidenciais mais recentes, a partir de 1980, o Colorado deu maioria aos republicanos seis vezes, mas ficou com os democratas nos três pleitos mais recentes. É um estado de fortes inclinações libertárias, acostumado a suspeitar do governo, mas foi conquistado pela robusta liderança democrata. Ainda assim, Ken Salazar, que foi secretário do interior durante o governo Obama e nasceu no Colorado, explicou o comportamento do eleitorado local. “As pessoas querem candidatos que produzem resultados. Os resultados são importantes: esse é o critério do eleitor do Colorado".

O afável Hickenlooper, 66 anos, vindo da Costa Leste, chegou ao Colorado como geólogo de uma empresa de petróleo e foi demitido em 1986. Um período de dúvidas o levou a abrir uma rede de cervejarias. 

Muitos dos estabelecimentos dele ajudaram a trazer vida nova a áreas do centro abandonadas: empreendedorismo como política da transformação. Depois de dois mandatos como prefeito de Denver e agora como governador reeleito, ele deu ouvidos, impelido pela convicção de que, nas palavras dele, “Não podemos nos dar o luxo de mergulhar na lama das disputas políticas partidárias, certo?”

Os efeitos são tangíveis: a renascença de Denver, que agora conta com uma rede de transporte público de bilhões de dólares, um sistema de ensino muito aprimorado e cerca de 1.400 quilômetros de ciclovias; uma economia favorável aos negócios que tenta equilibrar as demandas urbanas e rurais e atraiu novas empresas de indústrias variadas como a tecnologia, a recreação e o iogurte Noosa; a legalização da maconha para fins recreativos, que agora representa uma fonte considerável da receita fiscal; e negociações bem sucedidas no debate entre meio ambiente e combustíveis fósseis no Colorado, preservando mais de 230 mil empregos no setor do petróleo e do gás natural.

Alguns temas estão além das concessões mútuas. Em 2013, após o massacre no cinema de Aurora no ano anterior, Hickenlooper aprovou uma lei proibindo pentes de munição de alta capacidade com mais de 15 projéteis. Essa medida levou a um protesto: a lei em Nucla obrigando todos a possuírem armas em casa.

No caminho de Grand Junction, maior cidade da área de Western Slope, há um grande cartaz instalado após a reunião de Trump com o presidente russo Vladimir Putin, em julho. São grafadas as letras “GOP” (sigla do Partido Republicano) contra um fundo vermelho, com o “O" trocado pela foice e martelo dos comunistas. O cartaz é obra de Anne Landman, blogueira liberal que se mudou para lá vinda de Los Angeles.

Do outro lado da cidade, o pastor Robert Babcox descreveu o cartaz como insulto desnecessário e exagerado. “É como dizer que todos os democratas são nazistas”.

Ele enunciou seus motivos para defender Trump. “Queremos ser deixados em paz. Ele respeita nosso isolacionismo", disse ele.

Perguntei a Babcox sua opinião a respeito de uma candidatura de Hickenlooper. “Seria tolice se ele tentasse algo parecido, pois não tem a menor chance. Ele quer que sejamos como a Califórnia, mas não temos interesse em carros elétricos por aqui". Ainda assim, Babcox lembrou de sua época na marinha, quando aprendeu que o sangue de todos os americanos é vermelho. “Andamos tão concentrados em nossas diferenças que deixamos de enxergar nossas semelhanças", disse. “Digo aos liberais que precisamos encontrar pontos em comum a partir dos quais concordamos.”

O sentimento parece típico do Colorado. O farmacêutico Don Colcord, um dos poucos democratas de Nucla, acredita que seu partido precisa aprender a se aproximar dos americanos das cidades menores.

Glenna Nix, mãe de Lacie Redd, 34 anos, mãe divorciada que se suicidou recentemente, trabalhava na farmácia de Colcord. Lacie sofria com convulsões e o remédio que lhe foi receitado era caro. “Trinta comprimidos custavam mais de mil dólares, e ela tinha que tomar mais de um por dia, enquanto lutava para que o seguro cobrisse o custo, e às vezes o medicamento acabava", lembrou Colcord. No fim, o desgaste foi demais para Lacie - cuidar das filhas, sofrer convulsões, conseguir o remédio, simplesmente sobreviver.

Os EUA não podem encontrar soluções duradouras para os grandes problemas como o sistema de saúde se um partido sabotar o outro. Mas, enquanto Washington perdeu a capacidade de negociar bons resultados, Colorado mantém viva esta arte. “O Oeste é um lugar mais colaborativo", disse Hickenlooper. “Ainda é um lugar onde as pessoas podem vir e serem definidas pelo tamanho dos seus sonhos e o quanto estão dispostas a lutar pela sua realização.”

É também o lugar onde Lacie tirou a própria vida.

Os desafios do país são imensos, e os americanos têm diante de si uma escolha básica na eleição de novembro: eles querem que sua raiva seja manipulada ou solucionada?

“Acho que Hickenlooper poderia ser mais influente. Ao governar um lugar como esse, aprende-se que, para chegarmos a algum resultado, precisamos unir as pessoas", disse Salazar.

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