Leon Neal/Getty Images
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Grã-Bretanha pode ter que escolher entre líder de esquerda ou Brexit sem acordo

Jeremy Corbyn se opõe a um Brexit sem acordo e promete realizar um segundo plebiscito, que poderia reverter inteiramente a separação

Benjamin Mueller, The New York Times

11 de outubro de 2019 | 06h00

LONDRES - Ele é o terror dos banqueiros, um socialista irredutível, com planos radicais para reformular a economia britânica. Em meio ao caos do Brexit, porém, Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista, da oposição, tenta se repaginar, demonstrando ser um líder seguro e um alívio improvável para os mercados britânicos, assustados com os planos do primeiro-ministro Boris Johnson para um rompimento abrupto com a União Europeia.

“Basicamente, a pergunta é: 'Qual forma de ser executado você prefere?’”, afirmou David Willetts, um ex-ministro do Partido Conservador. “Em circunstâncias normais, Corbyn pareceria uma aposta extremamente arriscada. Contudo, o Brexit é a maior transformação nas relações políticas e econômicas da Grã-Bretanha em 40 anos e, assim sendo, o Brexit em si é uma aposta econômica mais arriscada do que qualquer outra.”

O acordo proposto por Johnson para o Brexit encontrou tanta resistência que a maioria dos analistas acredita que ele está conformado com o fato de a Grã-Bretanha deixar o bloco europeu sem acordo nenhum. Com a possibilidade de uma eleição antecipada à espreita, Corbyn - um agitador por toda a vida e um dos líderes trabalhistas mais à esquerda na história - se tornou uma figura improvável de moderação. Ele se opõe a um Brexit sem acordo e promete realizar um segundo plebiscito, que poderia reverter inteiramente a separação.

De repente, restou aos bancos avaliar os benefícios de um partido comandado por neomarxistas, líderes sindicais radicais e legisladores com histórico de apoio a regimes comunistas. O novo verniz de aceitação de Corbyn, porém, ainda não rendeu benefícios com o público. 

Ao criar para si uma posição de meio termo em relação ao Brexit - prometendo a realização de outro plebiscito, mas recusando-se a se comprometer com qualquer um dos lados -, ele afastou tanto os apoiadores da saída do bloco quando os que defendem a permanência britânica na UE. Corbyn também é desprezado por um grupo de legisladores anti-Brexit, alguns dos quais culpam a ele por não ter enfrentado o antissemitismo no Partido Trabalhista.

Mas os trabalhistas ainda são o partido em melhor posição para tirar os conservadores do poder. Mas alguns analistas afirmam que isso diminuiu as opções diante da Grã-Bretanha: um governo liderado por Johnson, inclinado cada vez mais a um Brexit sem acordo, ou um governo liderado por Corbyn, que impediria isso. Até em Londres é cada vez mais palpável a sensação de que o setor financeiro poderia aguentar o choque dos planos econômicos de esquerda linha-dura de Corbyn.

“Entre um governo de Corbyn que realize um segundo plebiscito ao custo de algumas políticas que, sob a perspectiva econômica, não nos alegrariam totalmente e um governo conservador, que é amplamente favorável aos negócios, mas ocasionaria o dano irreversível de uma saída do Reino Unido do bloco europeu sem nenhum acordo, eu escolheria a primeira opção”, afirmou Christian Schulz, analista do Citibank. 

Corbyn fez uma série de propostas ousadas nas semanas mais recentes: criar uma empresa farmacêutica estatal, combater a cobrança de mensalidades altas pelo ensino particular, forçar as empresas a tornar seus funcionários sócios de seu capital. Ele também pretende nacionalizar as ferrovias, criar novos impostos para o setor financeiro e estabelecer a semana de trabalho de quatro dias.

Para muitos banqueiros, essas propostas ainda parecem politicamente repugnantes e pessoalmente custosas. Mas analistas afirmam que os mercados se consolam com o fato de que, mesmo obtendo bons resultados na próxima eleição, Corbyn provavelmente não conseguirá assentos suficientes no Parlamento para governar sozinho. A necessidade de depender do apoio de um ou mais partidos pequenos poderia frear os planos mais radicais do Partido Trabalhista.

Peter Dixon, economista-sênior do Commerzbank, afirmou que as empresas poderiam se ajustar a Corbyn mais facilmente do que ao caos de um Brexit sem acordo. “Eles estão considerando a perspectiva de um Brexit sem acordo e afirmando que, na verdade, isso representaria um choque maior para a economia do que um governo de Corbyn, porque, nesse caso, talvez houvesse ao menos um tempo para se ajustar”, afirmou ele. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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