Andrea DiCenzo para The New York Times
Andrea DiCenzo para The New York Times

Coreanos no Japão estreitam laços com a Coreia do Norte

Descendentes de famílias norte-coreanas esperam pelo fim do isolamento do país

Motoko Rich, The New York Times

08 de março de 2019 | 06h00

TÓQUIO - Quando Jiro Oshima quer visitar os irmãos, ele precisa viajar até a Coreia do Norte. O professor aposentado Oshima, 79 anos, que vive no Japão, toma um avião até Pequim e, em seguida, outro voo até Pyongyang, trazendo pequenos presentes como doces e roupas de baixo, além de artigos que os irmãos podem vender: roupas de bebê, remédios, sapatos.

Ele já fez essa jornada mais de uma dúzia de vezes desde os anos 1960, quando seus pais e irmãos se mudaram para o país comunista como parte de um programa de repatriamento que o mundo parece ter esquecido. Agora, entre os descendentes de coreanos que vivem no Japão, uma comunidade que estreitou seus laços com a Coreia do Norte enquanto o restante do mundo se afastava do país, cresce a esperança de que uma reaproximação com os Estados Unidos possa romper o longo isolamento em que vive o norte.

Estima-se que 322 mil descendentes de coreanos no Japão sejam membros de famílias que chegaram durante os 35 anos de ocupação colonial da Coreia por parte de Tóquio. Conhecidos como Zainichi, a maioria tem raízes que remontam ao que é hoje a Coreia do Sul. Ainda assim, faz tempo que boa parte dessa população se sente mais identificada com o Norte, que a atraiu durante a Guerra Fria com a propaganda e a oferta de recursos para grupos e escolas da comunidade. 

Os Zainichi agora vivem e trabalham em todo o Japão. Durante décadas, o dinheiro enviado por eles aos parentes na Coreia do Norte ajudou a manter viva a economia do país, enquanto espiões os procuravam em busca de informantes. Como milhares de outras famílias, os Oshimas foram obrigados a abandonar seu lar durante a 2ª Guerra Mundial, separados novamente e isolados pela Guerra Fria. “Desde as minhas primeiras lembranças, o sonho dos Zainichi sempre foi testemunhar a reunião entre Norte e Sul", disse Oshima.

Quase 2 milhões de coreanos vieram ao Japão em busca de trabalho ou foram trazidos contra sua vontade antes e durante a 2ª Guerra Mundial. A maioria voltou para casa após a rendição japonesa. Mas centenas de milhares permaneceram no arquipélago enquanto a Península Coreana era dividida em dois países e, alguns anos depois, mergulhava na Guerra da Coreia.

No fim dos anos 1950, o Japão ofereceu a possibilidade de repatriar os Zainichi, muitos dos quais se sentiam atraídos pelas promessas socialistas da Coreia do Norte e uma economia que, na época, era maior que a do Sul. Quase 100 mil mudaram de país, entre eles os pais e irmãos de Oshima. Então com 20 anos, Oshima pretendia segui-los, e esperava apenas receber uma notícia deles.

Para evitar a censura, eles usaram um código. Se escrevessem na vertical, isso significaria que Oshima deveria se juntar a eles. Mas, se a escrita fosse horizontal, seria o equivalente a um alerta para não vir. Quando as cartas chegaram, as palavras se seguiam pela página da esquerda para a direita.

Oshima disse que não visitou a família na Coreia do Norte porque os Zainichi não recebiam autorização para voltar ao Japão até 1974. Ele fez sua primeira viagem em 1975. A mãe tinha morrido oito meses antes, e o pai, em 1970. Oshima, que se tornou cidadão sul-coreano em 2006, fez sua última viagem há 5 anos. Ele disse que jamais poderia se juntar à família, nem mesmo aposentado. “Eu não conseguiria ganhar a vida lá", disse ele.

Uma de suas netas, Misa An, 22 anos, lembrou que, numa celebração de aniversário dois anos atrás, Oshima finalmente contou a história de como seus pais vieram para o Japão e depois foram embora, e de como ele ficou para trás. “Ele decidiu ficar para trás e viver sozinho", disse ela. “E, por causa disso, estamos todos aqui.” / Makiko Inoue contribuiu com a reportagem.

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