Ilustração de Agnes Lee
Ilustração de Agnes Lee

Coreanos que disseram estar 'prontos para morrer' desaparecem na fronteira com a China

Cerca de 30 mil norte-coreanos desertaram com sucesso para o Sul. Mas sob o regime do líder Kim Jong-un, menos pessoas estão conseguindo escapar

Jane Perlez e Su-Hyun Lee, The New York Times

01 Abril 2018 | 10h30

PEQUIM - A sra. Choi estava preocupada com a irmã na Coreia do Norte. Na última vez que elas se falaram, dois meses antes, a irmã parecia desesperada. Ela contou que havia sido presa e espancada, e que queria ir para a Coreia do Sul, para viver com a irmã.

Falou inclusive que estava levando veneno, porque iria se matar se fosse capturada. Para a sra. Choi,  uma avó de 63 anos, trazer todos os outros membros da família para a Coreia do Sul era a coisa mais importante que ainda precisava fazer na vida. Ela própria fugira da Coreia do Norte dez anos antes. Seu filho também conseguira sair, assim como a filha de sua irmã, que agora trabalhava como cabeleireira e morava perto dela em Seul, a capital do Sul.

A sra. Choi sonhava em voltar a abraçar a irmã costureira, 50 anos, que tinha seu negócio em casa, e também o sobrinho que havia deixado para trás, agora com 28 anos. Ela queria trazê-los para a segurança, fora do alcance do governo que prendera seu marido, seu cunhado e seu genro suspeitos de ajudarem pessoas a fugir. 

“Eles foram chamados de inimigos do Estado e nunca mais foram vistos. Uma noite, no verão passado, a sra. Choi recebeu a notícia tão esperada. A sobrinha, 25, chegou com a novidade: “Meu irmão telefonou. Ele disse: “Cruzamos a fronteira da China. Pegue o carro!”.

A sra. Choi, que não quer se identificar para se proteger contra a possível retaliação do governo norte-coreano, ficou feliz. Mas ela e a sobrinha sabiam que a viagem ainda seria longa e traiçoeira. Em geral, os desertores deixam a Coreia do Norte atravessando a fronteira da China. A fronteira é fortemente guardada por soldados sob o comando do presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, que considera traidores os que tentam abandonar o país. 

Uma vez na China, os desertores dependem dos contrabandistas para escapar dos agentes de segurança chineses e norte-coreanos. A captura ou a traição pode levar para a cadeia, ou algo pior. Frequentemente, eles usam a fronteira meridional da China para entrar em um terceiro país, em geral a Tailândia. Dali, o governo sul-coreano os transporta de avião até Seul. Cerca de 30 mil norte-coreanos já conseguiram entrar no Sul, onde receberam habitação gratuita, assistência médica a preços muito acessíveis e treinamento para o mercado de trabalho.

Entretanto, a viagem se tornou mais difícil desde que Kim tomou o poder, em 2011. No ano passado, entraram no Sul apenas 1.127 norte-coreanos, um terço do número costumeiro. E como as relações da China com a Coreia do Norte pioraram, as autoridades chinesas têm mandado dezenas de milhares de volta para a Coreia do Norte, e não tomam qualquer providência quando agentes norte-coreanos capturam desertores dentro das fronteiras da China, afirma a Comissão dos Direitos Humanos na Coreia do Norte.

Em 1951, a China assinou uma convenção da ONU pela qual se comprometia a não devolver os refugiados se fossem perseguidos. Entretanto, declara que não considera os norte-coreanos refugiados, e sim migrantes econômicos.

Mudança inesperada

Quando a sra. Choi e a sobrinha começaram os preparativos para a viagem por terra, depois do telefonema da irmã, logo enfrentaram uma dificuldade: o grupo de desertores era maior do que esperavam. Além da irmã e do filho, viriam a namorada do filho e dois amigos dele.

Choi e a sobrinha telefonaram a um sul-coreano que haviam contratado para ajudar na fuga dos parentes. Este sujeito, uma espécie de intermediário, havia arranjado a fuga da sobrinha cinco anos antes. “Ache o motorista”, a sobrinha pediu ao intermediário.

Choi lembrou da advertência da irmã: ela se mataria se tivesse de voltar par trás.  O grupo de cinco pessoas não poderia ter escolhido um momento mais precário para fugir para a China. Furiosos com a Coreia do Sul por instalar um sistema americano de defesa antimísseis, os chineses consideravam a prisão de desertores norte-coreanos uma maneira de irritar o presidente recém-eleito do Sul, Moon Jae-in.

Ao mesmo tempo, o líder chinês, Xi Jinping, está promovendo uma campanha contra a corrupção e, por isso, as autoridades chinesas estão muito menos propensas a aceitarem suborno. Choi e a sobrinha pagaram $ 13 mil ao intermediário, a maior parte da soma obtida com a venda do apartamento da sobrinha em Seul. E teriam de pagar muito mais para que o grupo chegasse são e alvo no Sul.

O intermediário, por sua vez, passou o caso a uma mulher norte-coreana de Seul casada com um chinês. O marido contratou um parente na China para levar o grupo em uma van a Shenyang, uma cidade no nordeste da China.

Perdidos na fronteira

O Rio Yalu separa a China da Coreia do Norte. Em Hyeseon, uma cidade na fronteira norte-coreana, ele se estreita até tornar-se um riacho. O grupo da irmã atravessou o rio a pé, depois se perdeu na floresta. Por dois dias, vagou ao longo da fronteira oriental da China, nas montanhas acima da cidade de Changbai.

A cada duas ou três horas, o sobrinho de Choi telefonava para o seu apartamento em Seul. “Onde está o carro?”, perguntava. Estavam com frio e com fome, falou. “Estamos prontos a morrer”, disse o sobrinho a certa altura. Ele disse que haviam trazido veneno. Em Seul, Choi e a sobrinha estavam desesperadas.

Finalmente, os norte-coreanos acharam o caminho no meio da mata, e o motorista os pegou às duas horas da manhã. O sobrinho telefonou: “Estamos salvos. Vamos viver”. Fotos enviadas pelo motorista mostraram os cinco encolhidos numa van. Durante a viagem rumo a Shenyang, conversaram pelo telefone com as mulheres em Seul. Mas depois das 10 horas da manhã só houve silêncio.

O grupo desaparece

O intermediário e a mulher norte-coreana contratada por ele não conseguiram explicar o que aconteceu. A mulher contou que os cinco haviam sido feitos reféns. Esta história em geral é um estratagema usado pelos intermediários para arrancar mais dinheiro dos parentes ansiosos.

Dias mais tarde, ela mudou a sua versão: “Devem ter sido presos”. Com o dinheiro para pagar pela libertação do grupo, a mulher subcontratada pegou um avião para Changbai, onde achou que o grupo estava sendo mantido pelos captores.

A sobrinha de Choi estava tão desesperada que fez uma vigília sozinha em frente à Casa Azul, a sede da presidência em Seul. No cartaz que ela segurava, escrevera com o próprio sangue um pedido ao governo sul-coreano para que encontrasse sua mãe e seu irmão.

A mulher contratada voltou de mãos vazias, dizendo que um funcionário do governo informou que eles estavam mortos. O motorista chinês da van foi preso, e então solto após alguns dias. Ele contou a um norte-coreano em Seul que os cinco estavam mortos, mas não deu outras informações.

Da Coreia do Norte chegou a notícia de que as fotos dos cinco apareceram em um quadro de avisos em sua cidade natal - sinal de que estavam mortos. Um informante afirmou à mulher contratada que parecia que o sobrinho tinha sido espancado.

Mistério insolúvel

O Ministério do Exterior em Seul disse que havia solicitado à China informações a respeito da irmã de Choi e do seu grupo. A China não respondeu. O caso era inusitado, afirmaram as autoridades sul-coreanas. Em geral, as informações sobre o que acontece com os desertores chegam de uma variedade de fontes - os seus agentes de inteligência, as autoridades chinesas e todo tipo de informes do Norte.

O Observatório dos Direitos Humanos disse que as poucas informações de que dispunha sugeriam que os cinco haviam se suicidado.

Choi agora se culpa por não ter preparado um plano de fuga melhor. “Fiz isto quando o custo de um intermediário era barato”, ela disse. “Agora fico pensando: Por que eles tentaram fugir quando já era tão difícil?” O que ela acha que aconteceu? 

“Eu e minha sobrinha achamos que minha irmã e o filho se suicidaram”, afirmou. “Só não está claro se todos os cinco se suicidaram”.

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