AFP PHOTO/KCNA VIA KNS
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Coreia do Norte enfrenta um teste de determinação contra as sanções

Kim Jong-un enfrenta problemas internos à espera de negociação com Trump

Choe Sang-Hun, The New York Times

26 Abril 2018 | 15h00

SEUL, Coreia do Sul - Noite escura de fevereiro; caminhões descarregavam o contrabando perto de 

Hyesan, cidade norte-coreana à margem de um pequeno rio, em frente à China. Os guardas de fronteira aparentemente não se importavam enquanto trabalhadores usavam carroças para levar a carga de minérios de ferro - tungstênio, chumbo, zinco, cobre e concentrados de ouro, mercadorias cuja exportação deveria ser proibida de acordo com as sanções impostas pela ONU - para o outro lado do rio congelado.

Ao amanhecer, restavam apenas marcas de pneus e pegadas humanas sobre o gelo.

Uma testemunha norte-coreana disse que o minério, assim como outros materiais, estavam sendo contrabandeado quase todas as noites para a China naquele trecho da fronteira. O homem afirmou que o contrabando também trafegava em sentido contrário, levando açúcar, farinha de trigo e sacos de fertilizantes para a Coreia do Norte.

Existem provas cada vez mais fortes de que as novas sanções mais pesadas impostas à Coreia do Norte para levá-la a suspender os programas de produção de armas nucleares e de mísseis começam a afetar o país. Fábricas foram fechadas, os pescadores abandonaram os seus barcos, e unidades militares recorrem a veículos a carvão e até mesmo a carroças puxadas por bois como meios de transporte.

Contudo, os esforços para contrabandear mercadorias para dentro e para fora da Coreia do Norte são alguns sinais de que este país fechado e quase incomunicável está encontrando maneiras de fazer frente à situação.

Apesar da escassez, as taxas de câmbio e os preços dos produtos básicos de consumo se mantêm estáveis, e não há sinais de carestia próxima, segundo visitantes que estiveram recentemente no país do Norte e desertores norte-coreanos.


O presidente Donald J. Trump e o presidente sul-coreano Moon Jae-in, afirmam que a política da “pressão máxima” sobre o líder do governo norte-coreano Kim Jong-un contribuiu para levá-lo à mesa de negociações.

Kim tomou algumas medidas para dar a impressão de que está disposto a um acordo, oferecendo aparentes concessões, mas esta também pode ser uma inteligente tática de negociação. No dia 21 de abril, Kim disse: “Não precisamos mais de nenhum teste nuclear ou de mísseis”, acrescentando que o Norte fecharia um sítio de testes nucleares. No dia anterior, Moon informou que Kim retirara um obstáculo muito importante para as negociações com os Estados Unidos, deixando de exigir a retirada das tropas americanas da Coreia do Sul.

Entretanto, não está absolutamente claro se as privações geradas pelas sanções estão forçando Kim a fazer concessões, e se isto bastaria para obrigá-lo a vender o seu arsenal nuclear.

“Se vocês pensam que os norte-coreanos se revoltarão ou que o regime entrará em colapso por causa das sanções, é porque não conhecem os norte-coreanos”, afirmou Kang Mi-jin, um desertor do Norte que trabalha no Banco Central da Coreia do Sul. “Estas pessoas sobreviveram à fome comendo capim e falam disso com grande orgulho”.

Mas as últimas sanções estão provocando mais sofrimento do que as primeiras. Alguns analistas sugerem que as mudanças na Coreia do Norte, como a formação de uma nova classe média, e as promessas de Kim de melhorar a vida  do seu povo sofredor, poderão torná-lo mais propenso a desistir das suas armas nucleares se receber a garantia da sobrevivência do seu governo.

Desde setembro, o Conselho de Segurança da ONU proibiu todas as exportações básicas norte-coreanas, incluindo carvão, minério de ferro, frutos do mar e têxteis. Se aplicadas totalmente, as sanções poderão eliminar 90% das exportações do país em dólares. Particularmente dolorosa foi a decisão de limitar as importações do Norte de produtos refinados de petróleo a meio milhão de barris ao ano, uma redução de 90% em relação ao ano anterior.

Segundo os especialistas, as sanções e a aparente disposição da China a adotar muitas delas, representaram um  golpe ao comércio chinês, um dos poucos pontos positivos da economia norte-coreana.

E no entanto, os analistas afirmam que há poucos sinais de que a economia da Coreia do Norte tenha alcançado um ponto de ruptura.

Em Pyongyang, ainda há eletricidade suficiente para manter acesa a iluminação pública à noite, informaram jornalistas sul-coreanos que recentemente visitaram o país. Todas as pessoas aparentemente tinham um celular, e as mulheres  estavam vestidas de maneira mais elegante do que antes, eles afirmaram.

O governo de Kim introduziu na economia reformas voltadas para o mercado, concedendo maior autonomia às fazendas e às fábricas, e tolerando cada vez mais atividades de mercado que melhoraram a oferta de alimentos para a população. Além disso, surgiu uma nova, embora ainda pequena, classe de empreendedores com dinheiro.

“Não vimos ainda nenhuma grave crise nos mercados que possa ser atribuída às sanções”, afirmou Jiro Ishimaru, que dirige o Asia Press, um grande site que monitora a Coreia do Norte, sediado no Japão. “Os mercados norte-coreanos revelaram grande capacidade de resistência”.

Talvez seja ainda muito cedo para julgar o pleno impacto das sanções, que começaram ser sentidas de fato somente no segundo semestre de 2017, depois que a China aparentemente intensificou sua aplicação.

Alguns analistas dizem que a decisão de Kim de viajar para Pequim, em março, pode ter  sido um sinal do seu desespero para abrandar estas medidas.

Um corretor chinês que faz negócios com norte-coreanos da classe média contou que é possível observar um crescente descontentamento em relação ao governo por causa da escassez de produtos.

“Posso sentir que a população não está satisfeita com o governo, e se as autoridades não puderem resolver o problema das sanções, este descontentamento continuará”, afirmou o corretor  que pediu para não ser identificado. “As pessoas perderam a lealdade ao regime”.

Echo Hui contribuiu para a reportagem.

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