Yelim Lee/Agence France-Presse
Yelim Lee/Agence France-Presse

Coreia do Sul quer limitar exposição de astros 'muito parecidos'

A estética de estrelas do pop sul-coreano casou polêmica entre autoridades e fãs

Tiffany May, The New York Times

03 de março de 2019 | 06h00

HONG KONG - Olhos de gazela e feições delicadas. Maxilar forte e figura esbelta. Pele branca muito clara, quase luminosa. O grande número de ídolos do pop sul-coreano (conhecido como K-pop) que se enquadram nesta descrição aumenta o apelo sobre as massas e leva muitos jovens a querer igualar-se a eles.

Em um país obcecado pela beleza, onde a cirurgia plástica está se difundindo cada vez mais, o governo da Coreia do Sul se esforça para tentar limitar a exposição desses astros na televisão, afirmando que eles se parecem de maneira excessiva.

"Será que todos os cantores dos programas de televisão são gêmeos?", indagou o Ministério da Igualdade de Gênero e da Família a respeito das estrelas do K-pop, como suas músicas são conhecidas, nas diretrizes divulgadas em fevereiro destinadas às emissoras, segundo o Korea Times.

"Eles parecem rigorosamente idênticos", afirmou, acrescentando que muitos estilos musicais dos grupos desses ídolos são "tão limitados quanto a sua aparência".

As diretrizes provocaram tantas críticas de fãs, que no dia 19 de fevereiro, segundo a agência France-Presse, o ministério pediu desculpas por "causar uma confusão desnecessária", e afirmou que algumas das recomendações seriam retiradas ou revistas. Alguns compararam as diretrizes à censura imposta durante a ditadura militar, na segunda metade do século 20.

Uma petição divulgada online pedia a dissolução do ministério. "O ministério ousou criticar as estrelas femininas por serem demasiado bonitas, por usarem a mesma roupa e por serem magras", informou o jornal Korea Joongang Daily.

O político opositor Ha Tae-kyung comparou as diretrizes - que, segundo o Ministério do Gênero, aplicavam-se tanto a artistas do sexo feminino quanto do masculino - às restrições a respeito do cabelo e do comprimento das saias em vigor na época da ditadura.

"Não existem padrões objetivos para o aspecto físico das pessoas", escreveu em um post no Facebook, no dia 16 de fevereiro.

Não era a primeira vez que Ha defendia integrantes de bandas K-pop, personalidades influentes junto ao público. No ano passado, pediu que eles fossem isentos do serviço militar do país porque os músicos clássicos gozam de isenção.

As diretrizes visam tornar a televisão uma experiência mais benevolente. No dia 18 de fevereiro, representantes do ministério afirmaram que os espectadores temiam que os programas de TV "exacerbassem as desigualdades e os estereótipos de gênero, em lugar de corrigi-los", noticiou o Korea Joongang Daily.

Nas diretrizes, as autoridades sugeriram que as emissoras evitem apresentar no mesmo programa artistas "cuja aparência seja excessivamente semelhante".

Uma pesquisa da Gallup Koreal mostrou que uma em cada três mulheres sul-coreanas submeteu-se a cirurgia cosmética entre os 19 e os 29 anos, tendência que reflete os estritos padrões de beleza representados pelos astros do K-pop. Algumas sul-coreanas comemoram o fato de fazer cirurgia cosmética, documentando suas transformações físicas como um evento fundamental em sua vida.

Em dois vídeos intitulados "Embelezando-se antes" e "Embelezando-se depois", integrantes da banda K-pop Sixbomb mostravam, entre as consultas com cirurgiões plásticos, a procura por salões de beleza, onde tinham rostos espetados e cutucados. "Embelezando-se depois" mostrou-as usando uma segunda pele cor de rosa em uma sala operatória, e depois andando com o rosto mudado. / Sun Hyun Lee contribuiu para a pesquisa.

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