Michelle V. Agins/The New York Times
Michelle V. Agins/The New York Times

Com coreografia, orquestra vai além dos limites da música clássica

A Camerata de Genebra conquistou o público na Europa com uma mistura de música e movimento

Anthony Tommasini, The New York Times

13 de novembro de 2019 | 06h00

GENEBRA - Quando o pianista e regente israelense David Greilsammer estudava na escola Juilliard, no início dos anos 2000, nunca imaginou apresentar-se em um programa tão radical quanto o que ensaiou recentemente aqui, com a Camerata Geneva. Ele recebeu uma formação musical tradicional, e à primeira vista, o programa da Camerata, chamado Dança do Sol, reflete isto: uma suíte de Le Burgeois Gentilhomme de Jean-Baptiste Lully, ao lado da Sinfonia Nº 4 em Sol menor de Mozart, ambos tocados com instrumentos de época.

Mas ele é imensamente inovador por aquilo que pede que os músicos façam, e, de certo modo, que o público aceite. A Dança do Sol é uma mescla de dança e teatro musical que mistura os gêneros, concebida pelo coreógrafo Juan Kruz Díaz de Garaio Esnaola. Os instrumentistas não só balançam ao som da musica; muitas vezes, dançam, às vezes dando passos simples e às vezes com abandono.

Durante a sinfonia de Mozart, os músicos estão sentados aleatoriamente na frente de qualquer um deles. Uma bailarina solista se dirige a vários músicos e lentamente vira suas cadeiras para trás, até o chão. Deitados de costas, continuam tocando. (Tocam de cor; usar partituras poderia tornar este tipo de movimento impossível.)

Greilsammer, o diretor artístico da orquestra, rege a Dança do Sol enquanto também participa plenamente de sua coreografia dramática. A certa altura, Martí Corbera, um espanhol de 22 anos, e Greilsammer realizam um dueto erótico até que finalmente Corbera levanta Greilsammer sobre os seus ombros, de onde o regente volta a reger a orquestra.

Greilsammer, 42, afirmou que os programas da Camerata assumem riscos que na sua opinião há muito deveriam ter sido incorporados na música clássica. Como o antigo formato da compra de assinatura hoje é menos garantido do que nunca, muitas grandes orquestras reconheceram que estas instituições precisam assumir a situação e faz de cada programa uma experiência distinta, algo imperdível. Neste sentido, a Camerata Geneva é um modelo de inovação.

Durante seus dias de estudante, Greilsammer disse que temia que a música clássica ficasse desligada do mundo em geral. Ele achava que os músicos deveriam questionar “o conjunto do espetáculo” da música clássica. Determinado a fazer algo a respeito da insatisfação incômoda, ele fundou o Camerata Geneva com Céline Meyer, que se tornou a diretora geral da orquestra, em 2013.

Greilsammer não antecipou o grande papel que a coreografia passaria a exercer nos programas da Camerata. Ele simplesmente quis apresentar programas da orquestra que fossem uma aventura, assim como os recitais de piano em que ele tocava e gravava, como Conversações Barrocas, que alterna obras de compositores barrocos com composições extremamente contemporâneas. A Camerata colaborou com cantores de jazz, músicos funk, diretores e atores. Então apareceram os coreógrafos, que sugeriram que os músicos se levantassem e dançassem.

Mas, observou, “nós, os músicos somos muito inibidos em nossos corpos” e os “espaços em que tocamos  são muito apertados”, particularmente os pianistas. E acrescentou que foi “espantoso” ver os instrumentistas na Camerata se abandonarem totalmente ao internalizar os elementos da coreografia dos seus programas. Alguns deles afirmaram que o movimento é libertador.

O violista Ricardo Gil Sanchez afirmou que a dança liberou o dançarino que tinha dentro de si. Na realidade, a parte difícil para ele foi memorizar uma sinfonia de Mozart. A violoncelista, Clara Rada Gomez, disse que adora quando, no Mozart, o bailarino puxa a sua cadeira para trás e ela precisa continuar tocando o instrumento sobre o seu corpo. Ela acha hilariante.

Clara observou que o que mais frustra na sua profissão é explicar aos ouvintes a que categoria a Camarata pertence. É uma orquestra? Um grupo de dança? Algum tipo de conjunto músico-teatral? A resposta a todas estas perguntas pode ser sim. Se ele e os seus colegas tiverem sucesso, disse Greilsammer, cada “projeto diferente, radical, intelectualmente provocador” se explicará por si. “A música”, afirmou, “é movimento”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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