Boryana Dimitrova Katsarova para The New York Times
Boryana Dimitrova Katsarova para The New York Times

Coro folclórico de mulheres búlgaras lança álbum com elementos do hip-hop

O grupo ajudou a começar o movimento da world music

Jim Farber, The New York Times

29 de junho de 2018 | 15h30

Trinta e um anos atrás, uma gravação feita por um coro feminino da Bulgária, que cantava em um estilo com cerca de mil anos, vendeu impressionantes 500 mil cópias nos Estados Unidos. O surpreendente sucesso do álbum do grupo, intitulado “Le Mystère des Voix Bulgares” (“O Mistério das Vozes Búlgaras”), somado ao lançamento de “Graceland”, do compositor Paul Simon, ajudou a começar o movimento da world music - música tradicional de uma cultura cantada por representantes dessa mesma cultura. 

“O interessante estava em seu estilo de canto a cappella", disse Robert Hurwitz, que pagou apenas US$ 8 mil pelo licenciamento do álbum original “Le Mystère” nos EUA. “A pureza do som delas era comovente”.

Agora, o coro está voltando - mas apresentando um som menos puro. Seu novo lançamento, “BooCheeMish", une as folclóricas harmonias do coro a uma série de instrumentos. O álbum inclui também colaborações de uma cantora e compositora formada num estilo e cultura bastante diferentes: a australiana Lisa Gerrard, do grupo Dead Can Dance, que fez sucesso nos anos 1980. E temos também elementos do hip-hop com a participação de SkilleR, também conhecido como Alexander Deyanov.

As novas canções são do compositor de jazz e música eletrônica Petar Dundakov. “Queremos ampliar o som para encontrar um novo público", disse ele. “Não queremos ficar num museu”.

Lisa contou ter mantido o som original das mulheres. “Se tem alguém que se sente transformado por isso, esse alguém sou eu", explicou.

O coro começou a mudar a percepção das harmonias por parte dos ouvintes ocidentais muito antes dos anos 1980. Astros como Frank Zappa, David Crosby e Graham Nash ficaram maravilhados com suas técnicas vocais. Em 1975, o etnomusicólogo suíço Marcel Cellier lançou uma gravação em K-7 do coro por sua própria gravadora, com base em gravações feitas em campo desde os anos 1950. Foi esse registro que Hurwitz descobriu numa loja de discos parisiense nos anos 1980. “Levei cerca de dez segundos para perceber que se tratava de algo que eu amava", disse.

Lisa conheceu as mulheres do coro com esse lançamento dos anos 1980. “Eram como raios de luz, cheias de esperança diante das adversidades", disse. “Elas criaram uma catedral com a boca”.

Apesar do sucesso das mulheres, o colapso do governo comunista na Bulgária no fim dos anos 1980 as deixou numa posição precária. Desde 1952, o coro era mantido pelo governo.

Obrigadas a concorrer no livre mercado, muitas das mulheres foram obrigadas a aceitar empregos de professoras de canto para ter como viver. Ainda que o coro continuasse em turnê nos 20 anos mais recentes, não havia dinheiro para uma gravação até a produtora-executiva do álbum, Boyana Bounkova, encontrar uma solução.

Lisa disse que já tinha cantado em um estilo diferente do seu em seus trabalhos com o Dead Can Dance, frequentemente empregando uma linguagem de sua autoria. Ainda assim, isso foi, segundo Lisa, “um aprendizado bem difícil".

“Não tentei copiá-las, pois não sou capaz disso", disse ela. “O canto búlgaro vem do peito. Não se trata de um treinamento para a voz. É um timbre natural”.

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