Terry Ratzlaff para The New York Times
Terry Ratzlaff para The New York Times
John Branch, The New York Times

06 de abril de 2020 | 06h00

Como tantos outros caminhoneiros que percorrem longas distâncias, bombeando mercadorias pelas artérias das estradas dos EUA para uma economia já ofegante, Darrell Woolsey vê a paisagem mudar pelo seu para-brisa. Isolado na cabine do seu semi-reboque, com um beliche atrás dele e o mundo à sua frente, Woolsey se desloca de uma carga a outra, de uma parada de caminhões a outra, viajando de um ponto ao outro para manter o negócio funcionando.

Durante as duas últimas semanas de março, enquanto o coronavírus se espalhava pelos Estados Unidos e obrigava todo mundo a se esconder, Woolsey percorria as estradas do país transportando plástico reciclado, rolos de papel pardo e escavadeiras. Por enquanto, ele continuará trabalhando com carga, atravessando estes tempos em um casulo movido a diesel feito de vidro e aço, com um cãozinho chamado Rusty ao seu lado, e toalhas descartáveis para desinfecção sobre o painel.

Ele e outros caminhoneiros não deixaram de transportar mercadorias para que todo mundo possa permanecer em casa. Woolsey não sabe quando poderá ir para a sua, em Cheyenne, Wyoming, onde tem esposa e três filhos. “Estou de quarentena, mas continuo viajando por aí”, ele disse. “E vou seguir trabalhando enquanto posso”.

Os caminhoneiros já estão acostumados a este tipo de auto-isolamento que hoje afeta milhões de pessoas – eles ficam confinados em espaços minúsculos, sem contato com a família e os amigos, sem saber o que os próximos dias nos reservarão. A solidão faz parte do trabalho, enquanto o mundo desfila na sua frente.

Quase todas as 24 horas do dia, acordado ou dormindo, ele passa na cabine. Quando estaciona e fecha as cortinas para o mundo exterior, está em plena quarentena. Fala com a família. Cozinha na sua chapa, olha DVDs. Dorme no seu colchãozinho. “Vivo o tempo todo em um lugar menor do que uma cela de cadeia”, falou Woolsey. “Ouço as outras pessoas se queixarem, e eu penso: ‘Vamos tratar de superar isto’. Muitos de nós vivem assim o tempo todo, com ou sem coronavírus”.

Ele não sabe ao certo quanto tempo esta situação irá durar, ou quais serão os efeitos para o seu negócio. A redução dos embarques nos portos significa que há necessidade de menos caminhões para transportar as mercadorias pelo interior do país. A desaceleração da produção e a queda das receitas das companhias americanas pingarão nas artérias cada vez mais finas dos transportes terrestres.

Pelo menos de um ponto de vista, o setor parece aguentar firme. A Travel Centers of America, que tem mais de 260 postos de serviços para caminhões nos Estados Unidos, disse que as suas vendas de diesel, o combustível que move a maioria dos veículos de grande porte, tiveram um aumento de dois dígitos, no início de março Depois, as vendas se estabilizaram em um dígito positivo de até 5% ano a ano”, afirmou Jon Pertchik, o diretor executivo.

Woolsey quer ver como a economia se comportará. O seu mundo acompanha a elasticidade da oferta e da demanda. Talvez os transportes desacelerem, e talvez os caminhoneiros tenham de parar. “Se não houver mais muita carga para transportar, mas ainda muitos caminhões querendo cargas, os ganhos irão despencar. E eu deixarei de ganhar muito dinheiro”, disse Woolsey. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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