Laetitia Vancon/The New York Times
Laetitia Vancon/The New York Times

Casais separados por restrições de viagem na Europa lutam para se reencontrar

Comissão Europeia quer que estados-membros excluam as pessoas solteiras, mas que têm parceiros no continente, da lista de restrições

Megan Specia, The New York Times - Life/Style

31 de julho de 2020 | 05h00

LONDRES – Todas as manhãs, Marisa Lobato acorda e checa as notícias para ver se as restrições de viagem foram alteradas. Ela mora em São Paulo, no Brasil, e seu noivo, Horst Schlereth, está na Alemanha. Antes que o novo coronavírus deixasse tudo em suspenso, Marisa fez planos de ir à Alemanha no primeiro semestre para preparar seu casamento. Agora, os telefonemas diários são cheios de preocupação sobre quando se reencontrarão.

"Nós nos sentimos completamente presos nesta situação. Geralmente, não choro na frente dele, só quando estou sozinha. É realmente uma sensação horrível", disse ela. Eles estão entre as muitas pessoas separadas, casais não casados que se uniram nas redes sociais pedindo mudanças nas restrições de viagem impostas pela União Europeia, que estão usando as hashtags #LoveIsNotTourism (Amor Não É Turismo) e #LoveIsEssential (Amor É Fundamental).

Ao contrário da maioria das pessoas casadas, eles não têm o direito de retornar para se encontrar com seus parceiros. Agora, a Comissão Europeia está usando sua influência para apoiar a causa, pedindo aos estados-membros que excluam as pessoas solteiras, mas que têm parceiros no continente, das restrições de viagem.

Apenas a Dinamarca e a Suécia adotaram algumas das recomendações, e os casais dizem que até mesmo os policiais de fronteira nos estados-membros estão confusos com os regulamentos. No fim do mês passado, a União Europeia anunciou os planos de suspender as restrições de viagem a partir de primeiro de julho para visitantes de quinze países, na tentativa de salvar o pico da temporada de turismo do bloco.

Os Estados Unidos, o Brasil e a Rússia, entre outros países, foram notavelmente excluídos da lista. Alguns dos países ainda proibidos estão longe de cumprir os requisitos impostos pela UE para controlar o novo coronavírus antes que possam reiniciar as viagens, e talvez precisem de semanas, meses ou até mais para atingir esses padrões. Ylva Johansson, comissária europeia para Assuntos Internos, é uma defensora ferrenha dos casais separados.

Seu escritório informou que não existem estatísticas oficiais sobre o número de pessoas atingidas pelas medidas, mas um grupo de apoio do Facebook para casais separados durante a pandemia tem cerca de três mil membros. Embora a comissão tenha recomendado que os países membros permitam o reencontro de casais não casados, Johansson afirmou que cabe a cada nação definir sua própria política: "Para mim, é importante que a definição do que é um casal realmente de verdade seja a mais ampla possível. Porém a definição exata deve ser uma decisão de cada estado membro."

Muitas pessoas que querem que essa definição seja mais flexível destacaram a abordagem adotada este mês pela Dinamarca – que permite a entrada no país de visitantes que provem que estão em relacionamentos duradouros e recebam resultado negativo para a covid-19 – como um exemplo para as outras nações do bloco. As restrições de fronteira nos países fora da Europa também têm separado casais não casados durante a pandemia.

Nos Estados Unidos e no Canadá, casais não se veem há meses por causa do fechamento da fronteira entre os dois países. Um atraso na emissão do visto tem impedido que Morgan Bretnall, que mora na Grã-Bretanha, viaje aos Estados Unidos para ficar com sua noiva, Stacey, uma americana que vive em Porto Rico.

Embora viajantes americanos tecnicamente possam viajar para a Grã-Bretanha, eles têm de passar por uma quarentena obrigatória de duas semanas, o que é considerado impraticável por Bretnall. O casal ficou noivo em dezembro. "Neste exato momento, nossa vida está suspensa", observou Bretnall. Na Europa, alguns casais puderam se reencontrar apenas recentemente, depois de meses de separação.

Flavia Negwer, uma alemã, e seu marido americano, Jeff Wong, passaram meses se perguntando como levariam Wong de volta à Alemanha mesmo com as restrições de viagem. Ele tinha viajado à região de Nova York para visitar a família e se preparar para a mudança para os Estados Unidos no segundo semestre.

Mas sua viagem de apenas algumas semanas passou a durar meses quando a Europa proibiu a entrada de viajantes não essenciais, deixando Wong e Negwer incertos de quando poderiam ser ver novamente. Para contribuir com a dúvida, seu visto alemão expirou enquanto ele estava impedido de deixar os Estados Unidos.

Depois que as novas diretrizes de viagem da União Europeia entraram em vigor, eles ligaram para embaixadas, autoridades europeias e até mesmo para a polícia de fronteira da Alemanha para entender melhor o funcionamento das normas antes que Wong tentasse entrar no país. O casal não obteve respostas confiáveis, mas ele decidiu retornar à Alemanha de qualquer jeito.

"Senti que eu entendia mais das diretrizes e das normas da União Europeia do que os funcionários com quem conversamos na fronteira", afirmou Wong. Por fim, ele foi autorizado a entrar no país depois de apresentar o visto vencido que indicava que ele morava e trabalhava na Alemanha havia anos. A polícia de fronteira alemã divulgou em um comunicado que tem diretrizes claras e também um centro especial com funcionários que analisam e decidem casos incomuns, como o de cônjuges como Wong e Negwer.

Eles disseram que, na pressão para a reabertura da UE, em grande parte estimulada por uma agenda econômica, os casais separados foram esquecidos. "A União Europeia inteira está tentando retomar o turismo, por razões econômicas, mas, por outro lado, está desconsiderando totalmente esses casais", comentou Wong.

Marisa, que está separada de seu noivo alemão, disse que, mesmo entendendo a seriedade das preocupações com a saúde pública, o direito das pessoas de estar com seus parceiros deve ser levado em consideração: "Todos sabemos que o novo coronavírus ficará entre nós por muito tempo. Portanto, não é possível manter um casal separado durante um ano, um ano e meio."

The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

Tudo o que sabemos sobre:
União Europeiacasamentocoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.