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Henri Shi para The New York Times
Henri Shi para The New York Times

Parar a economia da China era complicado. Reiniciá-la é ainda mais difícil

Pequim emitiu uma série de medidas para que escritórios e fábricas voltem às suas atividades

Keith Bradsher, The New York Times

27 de março de 2020 | 06h00

XANGAI – A China está voltando ao trabalho mais de dois meses depois que os seus líderes praticamente fecharam a segunda maior economia do mundo a fim de deter uma implacável epidemia de coronavírus. Mas isto não serve de consolo para Zhang Xu. Pilhas de para-brisas - alguns quebrados, outros novos e prontos para serem instalados – estavam intocados na sua oficina mecânica em Xangai. Era meados de março e ainda não havia aparecido nenhum cliente.

“Se não conseguirmos algumas vendas, a distribuidora não poderá encomendar mais da fábrica e a fábrica não poderá produzir”, comentou. Parar a máquina industrial do país foi doloroso para a China e para o mundo – e reiniciá-la poderá ser ainda mais difícil. As fábricas estão muito aquém da capacidade plena.

E mesmo quando os trabalhadores voltarem, as empresas chinesas poderão se deparar com uma queda da demanda de suas exportações em razão do agravamento da epidemia de coronavírus em outros países. A China fez progresso no reinício das operações. Mas, em meados de março, as fábricas estavam funcionando com 50 a 60% da capacidade, disse John Peyton Burnett, diretor-gerente da TAC Index, uma companhia que acompanha os dados referentes aos preços de cargas aéreas.

Pequim emitiu uma série de medidas para que escritórios e fábricas voltem às suas atividades. Os banqueiros recebem quase diariamente telefonemas das autoridades reguladoras, pedindo tolerância com o pagamento das dívidas, particularmente das pequenas empresas. As seguradoras foram instruídas a estender as apólices mesmo quando os prêmios não são pagos em dia.

As ferrovias estatais reduziram pela metade os custos da carga. O Ministério da Educação criou 180 mil vagas nas escolas de pós-graduação no próximo outono para os estudantes que se formam nesta primavera com poucas perspectivas de um emprego. Tais medidas enfrentam obstáculos formidáveis. As autoridades locais estão sendo pressionadas a reduzir as novas infecções, o que provoca grande preocupação, dada a perspectiva de permitir que as pessoas voltem ao trabalho.

As famílias com problemas de dinheiro talvez relutem em gastar. As dívidas das famílias e das empresas são enormes depois de uma década de pesados empréstimos do setor bancário controlado pelo estado. Os trabalhadores não sabem se os empregadores conseguirão saldá-los. As empresas não sabem se outras empresas deixarão de pagar os bens e serviços. No início de março, as autoridades provinciais do sul da China resolveram salvar o HNA Group, um conglomerado privado onerado de dívidas que luta para pagar as contas.

“Esperem os defaults – eles precisam de fluxo de caixa e isto não está acontecendo”, disse Anne Stevenson-Yang da J Capital Research, uma empresa de consultoria. “Tanta alavancagem e tão pouco dinheiro”. Já surgiram sinais de fraudes, o que torna mais difícil para as autoridades em Pequim saber o que está acontecendo no país.

Um dos golpes é usado por empresas que ligam o ar condicionado e movimentam as máquinas sem produzir nada, segundo Cao Heping, economista da Universidade de Pequim. O objetivo é usar bastante eletricidade a fim de se qualificarem para recomeçar os subsídios.

“Elas precisam alertar as diferentes regiões. ‘Nada de competições por causa dos números, preocupem-se com a produção econômica real’ ”, disse Cao. As empresas têm sido pressionadas pelos proprietários a reabrirem, às vezes usando como atrativo o perdão do aluguel.

A maioria das concessionárias de automóveis reabriu no final de fevereiro, mas as lojas continuam em grande parte vazias. As vendas de automóveis na China despencaram 80% em fevereiro em relação ao mesmo mês do ano passado. “Antes, mais de mil pessoas por mês procuravam uma concessionária, e agora apenas dez grupos de pessoas por mês podem ir a uma loja”, disse Cui Dongshu, secretário geral da Associação de Veículos de Passageiros da China.

A General Motors está reabrindo muito lentamente sua dezena de montadoras chinesas à medida que a demanda o justifica e as normas locais o permitem. Os proprietários das fábricas enfrentam mais um problema: a redução da demanda global de bens fabricados na China. A epidemia de coronavírus está ameaçando o crescimento global, o que poderá reduzir a produção  exatamente quando ela está reiniciando. “Se o choque da demanda não for tratado rapidamente, se tornará um problema”, afirma Cao.

Em algumas áreas são poucos os cidadãos que vão trabalhar ou fazem compras. Os proprietários das empresas maiores, particularmente as fábricas voltadas para a exportação com estreitas margens de lucro, temem que se um funcionário ficar infectado, os governos locais possam obrigá-los a pagar as quarentenas de duas semanas a dezenas ou mesmo centenas de  trabalhadores. O governo emitiu poucas diretrizes para os seus passivos.

Com os negócios tão fracos, Zhang fica sentado todos os dias entre as suas pilhas de para-brisas que não foram vendidos e lamenta ter voltado ao trabalho em fevereiro em sua cidade natal, a várias horas de carro de Xangai. “Se eu soubesse que ia ficar assim”, afirmou, “teria ficado em casa”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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