Holo Industries/The New York Times
Holo Industries/The New York Times

Elevador pode se tornar a parte mais assustadora do trajeto de casa até o trabalho

Botões ativados sem toque, pedais, hologramas… Os edifícios de Nova York correm para melhorar a segurança de seus elevadores

Michael Wilson, The New York Times - Life/Style

23 de dezembro de 2020 | 05h00

NOVA YORK - Botões que podem ser ativados ao apontar para eles. Outros que parecem flutuar no ar, hologramas dignos de filmes de ficção científica, inesperados para um prédio de escritórios. Horários escalonados de chegada e saída dos funcionários, e a necessidade de repensar - ou mesmo eliminar - a saída para o almoço.

Os nova-iorquinos que fugiram dos prédios de escritórios em Manhattan meses atrás, quando a pandemia teve início, um dia voltarão para encontrar amplas mudanças na sua rotina para acomodar algo que antes não tomava mais que um minuto, e não exigia nenhum tipo de preparo: andar de elevador.

Mais de 150 anos após a instalação do primeiro elevador em Manhattan, seus cerca de 65 mil descendentes espalhados hoje pela cidade serão um dos principais fatores para determinar se os trabalhadores podem voltar aos seus cubículos. A indústria dos transportes verticais, como é conhecida, passou meses pensando em novas maneiras de, essencialmente, evitar as limitações de uma caixa pensada para transportar o maior número possível de pessoas para cima e para baixo durante o dia.

Seu grau de sucesso será acompanhado atentamente pela população dos Estados Unidos e do mundo. Faz tempo que Nova York é a capital mundial dos arranha-céus, onde os elevadores não são mera conveniência, mas uma necessidade, ou até pré-requisito. Esses arranha-céus ficaram praticamente vazios desde março, mas isso um dia vai mudar, com os protocolos de segurança contra a covid-19 transformando a vida nos escritórios.

“O espaço nos escritórios pode ser redistribuído, mas ainda é necessário entrar e sair do prédio", disse Mark Gregorio, presidente do TEI Group, empresa de instalação e manutenção de elevadores. “Os trabalhadores ainda precisam chegar da rua à sua mesa. Se transportarmos apenas duas ou três pessoas por viagem de elevador, pode ser impossível encher o prédio. A hora do rush pode começar às cinco da madrugada e nunca chegar ao fim.”

Conforme os edifícios tentam planejar uma solução para o congestionamento, as empresas de elevadores desenvolveram uma série de aparelhos para que os passageiros não precisam tocar nada com as mãos. Uma empresa de Queens desenvolveu um botão que pode ser ativado quando o passageiro aponta para ele. Outra alternativa é o Toe-to-Go, com pedais no chão substituindo os botões. Há sistemas controlados por gestos que são ativados por um aceno com a mão, sistemas de ativação por voz e botões holográficos, desenvolvidos por uma empresa com sede em Sacramento.

“Foi um grande frenesi", disse Rob Cuzzi, consultor de elevadores. “Todas essas empresas começaram a apresentar novos produtos.” Individualmente, os dispositivos podem parecer cosméticos, já que a ciência mostrou que o vírus costuma se espalhar por gotículas suspensas no ar.

Mas basta olhar para a quantidade de álcool gel oferecido em cada vitrine da cidade para se dar conta do novo medo de tocar na mesma superfície que milhares de outros desconhecidos. Os produtos parecem pensados mais para combater o medo do que para combater o vírus, fazendo com que os escritórios pareçam tão seguros quanto o possível. “Todos pensaram que o elevador seria o maior obstáculo para a retomada do trabalho", disse Mark Freeman, vice-presidente de modernização da Schindler Elevator Corp.

“Acho que estão aliviando a ansiedade. As pessoas vão se sentir mais à vontade ao andar de elevador, e isso vai acelerar o processo de retomada do trabalho.” Os síndicos estão estudando uma variedade de inovações. “Várias alternativas foram apresentadas", disse Callie Haines, vice-presidente executiva da Brookfield Properties, que entregou a cada inquilino uma caneta stylus para pressionar botões de elevador até um sistema ativado por smartphone ser instalado em alguns de seus arranha-céus, entre eles o Edifício Grace, de frente para o Bryant Park.

Nesse edifício e em outros, os funcionários usam um aplicativo de smartphone, myPORT, desenvolvido pela Schindler, para passar por uma catraca no saguão. A catraca reconhece o andar de destino do funcionário, e designa a ele um elevador, mantendo o número de passageiros limitado em até quatro por viagem. “Hoje, tudo que fazemos é no celular", disse Freeman. “Também embarcamos nessa revolução.”

A Otis Elevator Co. oferece um aplicativo semelhante, eCall, que chama o elevador para o passageiro, e está rodando programas de análise do movimento nos edifícios que usam seus equipamentos para analisar formas de acelerar todos os aspectos do processo, do tempo de espera entre os andares até a velocidade de abertura das portas. Ainda mais importante, as empresas também estão desenvolvendo novas maneiras de limpar e fazer circular o ar dentro do elevador, incluindo ventiladores poderosos e banhos de luz ultravioleta quando não houver ninguém do lado de dentro.

Enquanto isso, novas regras vão causar a morte das propostas de negócios apresentadas rapidamente no elevador: “Usem máscara", disse Gregorio, do TEI Group, “e não falem". A corrida por novas tecnologias lembra os primeiros dias dessa invenção - o primeiro elevador destinado a passageiros dos Estados Unidos foi instalado em Manhattan em 1857 pelo dono de uma loja de departamentos interessado em atrair curiosos clientes em potencial para seu edifício de cinco andares.

Em Long Island City, no Queens, trabalhadores da empresa de elevadores Nouveau National estão ocupados desde março. “Nunca fechamos", disse Dean W. Speranza, um dos proprietários. A empresa está oferecendo sua “Hover Solution Option”, um sensor instalado perto de onde ficam atualmente os botões do elevador, detectando o dedo do passageiro antes do contato. “Não é preciso tocar em nada", afirma a empresa no seu material de marketing. “É apenas ar.”

A ideia foi levada ao extremo pela Holo Industries, empresa da Califórnia que oferece um painel holográfico. “Fica pairando no ar", disse Glenn ImObersteg, um executivo da empresa. “Ninguém quer tocar em um botão de elevador. E, sinceramente, nossa solução é atraente.”

Algumas dessas empresas exploram a possibilidade de sistemas de purificação do ar. Speranza, da Nouveau, descreveu um sistema que detecta quando o elevador está vazio e bloqueia o equipamento por dois ou três minutos para submeter seu interior a um banho de luz ultravioleta. Ele pensou na pergunta hipotética óbvia e a respondeu. “Se por alguma infelicidade houver alguém lá dentro [durante o banho de luz]“, disse ele, “a exposição não deve ser maior do que se almoçarmos ao sol".

O consultor Cuzzi disse que já viu ideias mais conservadoras, como poderosos ventiladores capazes de trocar todo o ar em um elevador duas vezes por minuto, o que pode interessar aos locatários no médio prazo depois da chegada de uma vacina contra o coronavírus. “Meu conselho foi, ‘Calma, respire fundo, dê um passo atrás e não invista muito dinheiro em algo que pode não funcionar ou se tornar desnecessário em questão de dois anos’”, disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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