Daniel Berehulak para o New York Times
Daniel Berehulak para o New York Times

Coronavírus: EUA barram acesso na fronteira para quem solicita asilo

Especialistas dizem que é mais provável que alguém vindo dos EUA leve o vírus para as comunidades de imigrantes ao sul da fronteira

Azam Ahmed, Miriam Jordan e Kirk Semple, The New York Times

25 de março de 2020 | 06h00

CIUDAD JUÁREZ, MÉXICO — Tania Bonilla chegou a essa cidade na fronteira do México no dia 18 de março, determinada a pedir asilo nos Estados Unidos. Trazendo consigo o filho de 1 ano, ela foge de uma sentença de morte anunciada por uma gangue hondurenha em seu país natal, além da deportação por parte das autoridades mexicanas e o sequestro por contrabandistas. Mas agora, um obstáculo mais grave se apresentou: o coronavírus.

O governo dos EUA anunciou no dia 20 de março que, além de fechar a fronteira mexicana para o tráfego não essencial, seria fechado o acesso a quem tentasse solicitar asilo na fronteira. Os EUA deportam todos aqueles flagrados cruzando a fronteira entre os portos de entrada, incluindo aqueles que planejam se entregar, negando-lhes o acesso ao pedido de asilo.

Além de aceitar a devolução de mexicanos de acordo com essa política, o México aceitará também a maioria dos centro-americanos, de acordo com anúncio feito em 21 de março, possivelmente aumentando em milhões a população de imigrantes que já cresce ao longo da fronteira.

Para alguns analistas, a decisão do governo Trump é uma tentativa de usar a pandemia global como pretexto para impedir o acesso ao sistema de asilo dos EUA para aqueles que chegam do sul. Igualmente preocupantes são as implicações para o sistema de saúde, com os solicitantes de asilo já enfrentando condições precárias de higiene e superlotação. A decisão de fechar a fronteira para deter o contágio parece contrariar os padrões de transmissão.

O número de casos confirmados nos EUA é muito maior do que os de todos os países da América Latina e do Caribe juntos. Especialistas dizem que é mais provável que alguém vindo dos EUA leve o vírus para as comunidades de imigrantes ao sul da fronteira.

Em meados de março, em Ciudad Juárez, operadores de abrigos debatiam estratégias para proteger suas populações. Aumentar o uso de desinfetante para as mãos, distribuir máscaras e realizar testes estavam entre as mais óbvias. Na Casa del Migrante, em Ciudad Juárez, os recém-chegados serão alojados em uma instalação separada por pelo menos duas semanas. Mas nem mesmo eles conseguem seguir todas as práticas recomendadas.

“Dizem que temos de manter um metro de distância entre as camas", disse Blanca Rivera, administradora do local. “Mas não temos espaço para isso.” A irmã Adelia Contini, diretora do abrigo do Instituto Madre Asunta, em Tijuana, disse estar cuidando de 70 imigrantes em um centro que tem apenas 45 leitos.

“Não vamos receber mais ninguém", disse ela. No campo de Matamoros, imigrantes tomam banho e lavam suas roupas no Rio Grande. Famílias de quatro ou cinco ocupam barracas destinadas a duas pessoas; algumas já estão enfraquecidas por doenças respiratórias ou gastrointestinais. As condições praticamente garantem que, quando o vírus chegar, sua disseminação será rápida.

A ONG Global Response Management, que administra uma clínica no campo de imigrantes de Matamoros, começou a distribuir vitamina D e zinco para reforçar o sistema imunológico dos imigrantes. São orientados a montar suas barracas a uma distância de pelo menos 1,8 metro umas das outras, mantendo a ventilação aberta para que o ar circule. Enquanto muitos culpam os EUA pelas situações já difíceis, os americanos não são os únicos responsáveis.

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, foi criticado por ser curvar aos desejos dos EUA. Para Tania Bonilla, essa política é um devastador contraponto à esperança que a trouxe centenas de quilômetros ao norte em busca de uma vida melhor. Em outubro do ano passado, quando milhares de imigrantes eram mandados de volta ao México, o companheiro dela conseguiu atravessar com a filha do casal.

Ele está morando e trabalhando na Flórida. Ela disse que, em fevereiro, membros de uma gangue hondurenha começaram a extorqui-la. Ela deu queixa na polícia. Cinco dias mais tarde, a gangue ameaçou matar seu filho na frente dela. Uma hora mais tarde, ela fugiu com o filho. Desde então, teve o pedido de asilo negado no México, foi deportada e assaltada. “Já sofremos tanto no caminho, tentando chegar até aqui, só para pedir asilo", disse ela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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