Bence Viola
Bence Viola

Com coronavírus, fabricantes de máscaras passam a produzir em ritmo frenético

Fábrica produz 170 milhões de máscaras ao ano, mas este mês, em apenas uma semana, as encomendas chegaram à cifra de meio bilhão

Liz Alderman, The New York Times

17 de fevereiro de 2020 | 07h33

ANGERS, FRANÇA - O ruído incessante das máquinas ecoava na fábrica cavernosa, em uma consequência inesperada do vírus letal que quase paralisou algumas cidades da China e de outras partes da Ásia. A companhia Kolmi Hopen fabrica um produto que, de repente, se tornou um dos mais procurados no mundo todo: a máscara facial médica.

A fábrica de Angers produz 170 milhões de máscaras ao ano, mas este mês, em apenas uma semana, as encomendas chegaram à cifra impressionante de meio bilhão. Logo a Kolmi Hapen se apressou a contratar mais trabalhadores para manter as máquinas funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana.

“Estamos produzindo máscaras o mais rapidamente possível”, disse Guillaume Laverdure, o diretor operacional da Medicom, a controladora da Kolmi Hapen sediada no Canadá, enquanto as empilhadeiras transportavam para os caminhões as caixas de máscaras há pouco finalizadas.

O surto de coronavírus provocou uma corrida a este tipo de proteção. Para frear o contágio do vírus, o governo chinês ordenou aos cidadãos que sempre usem máscaras ao sair. Os especialistas advertem que, uma vez utilizada, a máscara precisa ser substituída por uma nova, o que provocou uma explosão de encomendas. Já são comuns as cenas de pessoas que permanecem horas a fio em filas enormes para comprá-las, e, no fim,  quando o estoque das farmácias se esgota, elas são obrigadas a desistir.

“Não consigo encontrar uma única máscara para comprar”, queixou-se Sandy Lo, de Hong Kong. Ela decidiu reutilizar as usadas, “porque, o que mais eu posso fazer?” Os cientistas afirmam que não há muitas evidências de que as máscaras protejam de fato as pessoas saudáveis. (Lavar as mãos pode ser mais importante.) Entretanto, à medida que o coronavírus se espalha, os especialistas temem que os estoques de máscaras e de outros produtos de proteção diminuam em outros países - até mesmo para o uso rotineiro na medicina.

Somente a China produz cerca da metade das máscaras faciais sanitárias usadas no mundo todo, mais de sete bilhões ao ano, e fornecem hospitais e trabalhadores da área médica em muitos países. Taiwan produz cerca de 20% da oferta global. Com a produção chinesa para o mundo exterior a ponto de parar, as fornecedoras do mundo todo, inclusive gigantes como Haneywell e 3M, lutam para encontrar fontes alternativas. As duas companhias afirmaram que procuram aumentar a produção sempre que possível. Até as menores fabricantes foram apanhadas de surpresa pelo surto.

A Pardam, da República Checa, produz nanofibras que interceptam as micropartículas, e quase abandonou um protótipo de máscara sanitária que testou no ano passado porque a demanda era escassa. Mas depois do ataque do coronavírus, vendeu recentemente todo o estoque de duas mil máscaras em dois dias e está  recorrendo à automação para aumentar a produção, afirmou Jiri Kus, o presidente da Associação Checa das Indústrias de Nanotecnologia, falando em nome da Pardam.

Na Medicom, os diretores elaboraram um plano de emergência para a fábrica de Angers com a contratação de mais 30 trabalhadores para a operação que já tem 100. E se preparam para adequar a produção ao regime de 24 horas por dia. A companhia produz mais de um milhão de máscaras por dia, o dobro da quantidade normal, segundo Laverdure.

No interior da fábrica, mais de dez máquinas montam máscaras à média de 80 por minuto, combinando fibras sintéticas carregadas em bobinas gigantescas, e prensando cada uma com tiras para o nariz, cordões para a cabeça ou para as orelhas. Cinco máquinas fazem máscaras cirúrgicas, com finas tiras retangulares levemente acolchoadas que cobrem nariz e boca, enquanto outras máquinas montam máscaras respiratórias mais reforçadas.

Com as notícias do contágio do coronavírus, em dezembro, os executivos da Medicom montaram uma sala de guerra na sede em Montreal para monitorar os desdobramentos e elaborar planos de produção nas suas fábricas na Europa e na América do Norte, e nas de Wuhan. Xangai e Taiwan.

“Quando vimos o fechamento de cidades na China, o governo estendendo o Ano Novo Chinês e depois parando as suas exportações de máscaras”, disse Laverdure, “chamamos as nossas fábricas e dissemos: ‘Está havendo uma epidemia. Façam o que puderem para garantir maior cobertura’ ”. Kuvul Sheikh, David Yaffe-Bellany, Cao Li, Tiffany May e Hana de Goeij contribuíram para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.