Cayce Clifford para The New York Times
Cayce Clifford para The New York Times

Na hora de estocar comida, americanos dão uma chance ao feijão

População está enchendo suas despensas com alimentos essenciais de boa durabilidade

David Yaffe-Bellany, The New York Times

04 de abril de 2020 | 06h00

Tim McGreevy trabalha no setor do feijão há mais de 30 anos. Mas, recentemente, ao correr os olhos pelo corredor de feijões de um mercado em Pullman, Washington, ele viu algo que nunca tinha visto antes: prateleiras vazias.

“Em um certo sentido, é como se fosse meu grande sonho realizado", disse McGreevy, que administra um grupo representante de produtores e comerciantes de legumes como o feijão. “Por outro lado, é algo que nos faz perceber como a coisa é séria.”

Enquanto a pandemia do coronavírus coloca de cabeça para baixo a vida nos Estados Unidos, os americanos estão enchendo suas despensas com alimentos essenciais de boa durabilidade - macarrão, arroz, carne enlatada e até leite de aveia. Mas a crescente demanda por feijões se destacou enquanto símbolo particularmente poderoso da incerteza e ansiedade do momento atual.

“Ninguém se importa com os feijões", disse Steve Sando, que administra a fornecedora de feijões Rancho Gordo, em Napa, Califórnia. “É chocante. Eu costumava ser o feirante mais solitário de todos.”

Nas semanas mais recentes, o frenesi de compras foi visto em vários tipos de feijões e seus primos, incluindo lentilhas, ervilhas secas e grãos de bico. Em toda a indústria, os embaladores viram uma alta de 40% nas vendas, disse McGreevy.

Na Goya Foods, a alta foi ainda mais acentuada: a venda do feijão preto e de outras variedades enlatadas cresceu até 400%.

Muitas empresas de enlatados estão contratando funcionários ou criando mais turnos para acompanhar a demanda. Normalmente, a Rancho Gordo recebe 150 ou 200 encomendas diárias de seus feijões especiais. No dia 14 de março, a empresa recebeu 1.669 encomendas. No dia seguinte, foram mais 1.450 encomendas. “Não estamos nem um pouco preparados para essa demanda", disse Sando.

No seu armazém, Sando instituiu um turno da noite, contratando funcionários de uma agência temporária para ajudar. Ele disse aos clientes que haverá um atraso de até três ou quatro semanas nas entregas.

Sob muitos aspectos, os feijões e seus derivados são o alimento perfeito para uma era de ansiedade em massa. São baratos e nutritivos. E alguns produtos podem ficar até dois anos na despensa.

“Foram encontradas lentilhas nas tumbas egípcias - e elas ainda germinaram ao serem tiradas de lá", disse McGreevy. 

Os feijões estavam ficando mais populares mesmo antes da chegada do novo coronavírus. O consumo de feijão seco nos EUA aumentou nos anos mais recentes, chegando a quatro quilos per capita em 2018, alta em relação aos três quilos observados em 2015, de acordo com estimativas do governo.

Faz tempo que os chefs profissionais elogiam a versatilidade dos feijões. “Podemos drená-los, amassá-los, misturá-los ao azeite ou à manteiga, aquecê-los… São deliciosos", disse Georgeanne Brennan, autora do livro de receitas French Beans. “Agora que tanta gente encheu a despensa de feijões, eles têm diante de si a oportunidade de aprender novas receitas.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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