James Tensuan / The New York Times
James Tensuan / The New York Times

Surto de coronavírus aumenta interesse por testes genômicos rápidos

Novos testes buscam diagnóstico no menor tempo possível para infecções letais

Andrew Jacobs, The New York Times

06 de março de 2020 | 06h00

A misteriosa doença de Ryan Springer começou no verão passado com uma dor maçante no peito. Nos dias seguintes, os sintomas  se tornaram mais alarmantes: uma dor aguda cada vez que ele respirava, batimentos cardíacos acelerados e febre alta.

Os médicos da UTI de Urbana, Illinois, estavam perplexos. Eles pediram uma biopsia dos pulmões e começaram a tratar Springer com um antibiótico de amplo espectro. Mas a doença foi se agravando e os médicos temeram que ele não conseguisse sobreviver até obter os resultados dos exames de laboratório, cinco dias mais tarde.

Havia uma única opção: um novo teste genômico que consegue vasculhar rapidamente o DNA em uma amostra de sangue e descobrir o patógeno que mais provavelmente está deixando o paciente doente. Ele faz parte de uma nova geração de testes de laboratório que estão sendo desenvolvidos e que poderão revolucionar os diagnósticos médicos e tratar as infecções.

O método usual praticamente não mudou desde os anos 1880, quando Julius Petri chegou a uma maneira de cultivar germes em um leito gelatinoso de algas colocado entre dois discos de vidro que se encaixam. O novo diagnóstico funciona combinando o DNA ou o RNA dos micróbios em um fluido corporal do paciente com um banco de dados de todas as bactérias, vírus ou fungos conhecidos que podem causar doenças no ser humano. Muitos testes mais recentes produzem resultados em poucas horas, em comparação com as culturas tradicionais, que podem levar dias ou mesmo semanas para chegar a um resultado – quando funcionam.

Amir Khan enviou uma amostra de sangue de Springer para a Karius, uma companhia da área da San Francisco, uma das dez ou doze start-ups americanas que estão desenvolvendo os diagnósticos. Os resultados saíram em menos de 48 horas: ele estava com tularemia, ou febre do coelho, uma rara infecção bacteriana transmitida por animais e carrapatos. “Eu havia visto o caso anterior há três anos, e só foi diagnosticado depois da autópsia,” informou Khan.

Springer tomou o antibiótico doxiciclina e recebeu alta do hospital cinco dias mais tarde. O surto de coronavírus aumentou enormemente o interesse por testes genômicos rápidos. Os seus criadores afirmam que uma vez que a sequência genômica de um novo patógeno esteja disponível, a informação poderá ser carregada e usada para identificar as pessoas infectadas.

“Com um laboratório tradicional de referência, no tempo que uma clínica leva para retirar uma amostra de sangue e despachá-la, perdem-se de 12 a 24 horas”, explicou Jack Regan, diretor executivo da LexaGene, em Massachusetts, que espera vender o seu equipamento a aeroportos, escolas e clínicas. “Podemos obter os resultados em menos de uma hora, o que faz uma enorme diferença durante epidemias letais”.

Um lançamento maior destes testes esbarra em problemas. A maioria deles identifica uma infecção em um paciente em 80 a 90% do tempo – as autoridades reguladoras gostariam que fosse mais perto de 100% - e muitos ainda aguardam a aprovação da Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos. Mas os especialistas afirmam que um obstáculo maior ao seu emprego é o econômico: a maioria dos testes custa de US$ 500 a US$ 3.000.

Combate à infecções resistentes a medicamentos

Os novos testes também poderiam ajudar a combater a crescente crise das infecções resistentes a medicamentos, porque a sua rápida identificação permitiria que os médicos soubessem que antibióticos usar, em lugar de apenas ministrar antibióticos de amplo espectro. Pelo menos a metade de todos os antibióticos é prescrita de maneira equivocada.

O uso excessivo inclusive é uma das principais causas da crescente resistência dos antibióticos. “Acreditamos que os pacientes deveriam ser tratados com base no que causa a sua infecção, e não no que os médicos acham que eles têm”, justificou Tom Lowery da T2Biosystems, companhia de Boston cujos testes em bactérias receberam a aprovação federal.

Stephen Zekan, cirurgião de West Virginia, usou recentemente um teste da companhia Aperiomics para uma mulher de 67 anos que inicialmente pensara que tivesse uma infecção transmitida por carrapato. Levara meses tentando determinar o que estava causando a sua dor artrítica e a fadiga. O novo teste determinou que ela tinha tuberculose. “Sou médico há 40 anos e é alucinante pensar que um supercomputador pode analisar bilhões de nucleotídeos e dar um resultado em poucas horas”, afirmou.

Charles Chiu, professor da Universidade da Califórnia, em San Francisco, disse que inúmeros mistérios foram resolvidos por testes sequenciais no seu laboratório, como no caso de uma mulher de Los Angeles com insuficiência hepática que ficou na fila para transplante de fígado; descobriu-se que ela tinha uma forma rara, tratável de hepatite.

William J. Muller, especialista em doenças infecciosas pediátricas de Chicago,  usou o teste da Karius mais de 200 vezes nos últimos três anos. Ele colaborou com a Karius no passado e recentemente publicou os resultados das suas conclusões na revista Open Forum Infectious Diseases. O teste, ele disse, tem o potencial de poupar os pacientes de biópsias do pulmão, que envolvem certo risco e frequentemente apresentam resultados inconclusivos. Muller disse: “Tudo o que reduz a necessidade de procedimentos invasivos dolorosos deveria ser bem-vindo nos hospitais”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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