Billy H.C. Kwok para The New York Times
Billy H.C. Kwok para The New York Times
Sui-Lee Wee, The New York Times

12 de fevereiro de 2020 | 06h00

Enquanto procura freneticamente cuidar dos pacientes infectados com o novo coronavírus, a China avalia a utilização de um coquetel de medicamentos antivirais. Também recomenda a Pílula da Vesícula Bovina do Palácio Pacífico, um tradicional remédio chinês, pedras da vesícula de bovinos, chifres de búfalo, jasmim e pérolas.

Não existe uma cura conhecida do coronavírus que atacou milhares de pessoas. Segundo a Comissão Nacional de Saúde do país, os médicos devem tentar tratar os pacientes principalmente com uma combinação de drogas ocidentais usadas para o tratamento do HIV e o combate aos vírus. Mas o governo também busca maneiras de suplementar o tratamento com remédios que integram a sua identidade nacional - a medicina chinesa tradicional.

“Acho que é a estratégia mais correta”, disse Cheng Yung-chi, professor de farmacologia da Escola de Medicina da Universidade Yale. “Devemos dar-lhe o benefício da dúvida”. Não há provas clínicas de que as raízes de várias plantas, alcaçuz, e a Pílula Bovina do Palácio da Paz possam ajudar no combate desta epidemia letal. Os práticos afirmam que o regime poderia causar sintomas como inchaço dos pulmões, e febre como efeito colateral. Segundo os críticos, este conceito suscita preocupações no que se refere à segurança dos pacientes.

O emprego destes antigos remédios chineses se coaduna com os esforços do líder chinês, Xi Jinping para que sejam considerados um motivo de orgulho nacional. Ele disse que as autoridades devem conferir aos remédios tradicionais chineses a mesma importância que dão aos medicamentos ocidentais.

Durante a epidemia da SARS, a síndrome respiratória aguda grave, de 2002 e 2003, os médicos constataram que os esteroides prescritos para reduzir a inflamação tiveram efeitos colaterais como a destruição dos ossos. A medicina chinesa, segundo eles, reduziria as reações negativas.

Para o coronavírus, a Comissão Nacional de Saúde recomendou os medicamentos da medicina tradicional chinesa que poderia ser usada juntamente com as drogas antirretrovirais do HIV, como Lopinavir. Autoridades da área de saúde sugeriram que se tentasse a Pílula Bovina do Palácio Pacífico contra sintomas graves como a tosse constante ou arquejo.

Alguns hospitais estão usando uma combinação de medicamentos ocidentais e chineses. Nas últimas semanas, o Departamento de Saúde de Pequim informou que dois pacientes que receberam alta haviam sido tratados com a medicina tradicional chinesa e outras drogas não especificadas. Em Guangzhou, as autoridades disseram que 50 pacientes informaram não ter mais febre, e 25 deles já não tinham mais tosse depois de usar medicamentos tradicionais e outras drogas.

Os médicos agora estão realizando testes clínicos para verificar a eficácia da medicina tradicional chinesa em Wuhan, o epicentro do surto de coronavírus, disse Cheng, especialista de Yale, e presidente do Consórcio para a Globalização da Medicina Chinesa, um grupo de acadêmicos no campo.

Na opinião de Jiang Xianfeng, um prático da medicina tradicional chinesa no United Family Health, um dos maiores hospitais de Pequim, estes remédios são seguros, eficazes e fáceis de conseguir. “A medicina chinesa não dispõe de respostas melhores ao vírus”, disse Jing. “O povo chinês sofreu destas pragas inúmeras vezes em sua história milenar. Se a medicina tradicional não fosse eficaz, o povo chinês já teria desaparecido”.

A medicina chinesa ensina que esta doença é provocada por desequilíbrios do organismo e que algumas pessoas têm constituições “quentes”, o que as torna vulneráveis às inflamações. Os práticos afirmam que o coronavírus é uma “doença “quente”. Em Hong Kong, alguns médicos não estão convencidos de que os remédios da medicina tradicional chinesa sejam eficientes neste caso. “Não estou querendo desvalorizar o tratamento que eles usam, mas não usamos isto na prática”, disse Arisina Ma, presidente de um grupo de médicos de Hong Kong.

Em muitas cidades chinesas, houve pessoas que fizeram fila durante horas para comprar “shuanghuanglian” - um composto fitoterápico à base de flores como a madressilva e a forsythia - depois que um estudo do governo afirmou que é eficaz na prevenção do coronavírus. Qin Xi, um gerente de farmácia de Pequim, contou que as vendas de alguns dos seus medicamentos tradicionais dispararam. “Quanto a funcionarem, quem sabe?” acrescentou. Tiffany May contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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