Erin Schaff The New York Times
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As medidas rigorosas que são necessárias para deter o coronavírus

Contágio pode ser freado com a contenção dos focos de disseminação e o rastreamento rigoroso dos contatos dos infectados

Donald G. McNeil Jr, The New York Times

29 de março de 2020 | 06h00

É possível fazer o coronavírus recuar. China, Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan demonstraram que, com esforços rigorosos, o contágio pode ser detido. Resta saber se esses países conseguirão manter a doença suprimida. Mas, para que os Estados Unidos e outros países repitam esse sucesso, será necessária uma coordenação excepcional de seus líderes, mobilizando recursos inéditos, bem como um nível excepcional de cooperação e confiança por parte dos cidadãos.

Também serão necessárias parcerias internacionais em um mundo interconectado. Temos uma chance de deter o coronavírus. Há um ponto fraco nesse contágio. Ainda que haja incidentes de uma disseminação descontrolada, com frequência o coronavírus infecta grupos de membros de uma mesma família, grupo de amigos e colegas de trabalho, disse David L. Heymann, que assessora a Organização Mundial da Saúde em momentos de emergência. “Podemos conter esses grupos", afirmou Heymann.

“Precisamos identificar e deter os surtos localizados, e então rastrear com rigor as pessoas que entraram em contato com os infectados.” Em entrevistas com uma dúzia dos principais especialistas do mundo no combate a epidemias, houve acordo quanto às medidas que devem ser adotadas imediatamente.

É necessário convencer as pessoas a ficarem em casa, disseram eles, defendendo também a criação de um sistema para isolar os infectados e tratá-los fora de casa. Deve-se ampliar as restrições de viagem, intensificar a produção de máscaras e respiradores artificiais, e solucionar os problemas com os testes de detecção. Seguem-se as recomendações apresentadas pelos especialistas.

É preciso dar ouvidos aos cientistas

Muitos especialistas fizeram coro ao opinar que os políticos devem dar lugar aos cientistas na liderança dos esforços de contenção do vírus, explicando o que deve ser feito. Acima de tudo, disseram os especialistas, as medidas devem ser voltadas para salvar vidas e garantir que o assalariado médio sobreviva os tempos difíceis que virão.

“Temos que nos concentrar no inimigo: o vírus", disse o almirante Tim Ziemer, comandante da unidade de resposta a pandemias do conselho de segurança nacional dos EUA. Essa unidade foi desmontada em um processo de reestruturação em 2018.

Impedir a transmissão entre as cidades

De acordo com os especialistas, a prioridade seguinte é o distanciamento social extremo. Se fosse possível usar uma varinha mágica para congelar todas as pessoas no lugar por 14 dias, mantendo-as a 2 metros de distância umas das outras, a epidemia seria detida rapidamente. O vírus morreria nas superfícies contaminadas e, como praticamente todos apresentam sintomas em questão de duas semanas, os infectados seriam evidentes.

Se tivéssemos testes em número suficiente, até os casos assintomáticos seriam identificados e isolados. A crise chegaria ao fim. Obviamente, não existe varinha mágica. Mas a meta das quarentenas e do distanciamento social é chegar o mais perto possível desse congelamento total.

Para tentarmos isso, as viagens e as interações humanas devem ser reduzidas ao mínimo. A Itália fez isso aos poucos: lenta e relutantemente, as autoridades fecharam restaurantes, igrejas e museus, proibindo casamentos e funerais. Mesmo assim, o número de mortos no país segue aumentando.

Em comparação, a China fechou Wuhan, epicentro da epidemia no país, restringindo os movimentos em boa parte do país a partir de 23 de janeiro, quando o país tinha apenas 500 casos e 17 mortes. Com o vírus praticamente isolado em uma província, o restante da China pôde salvar Wuhan. Enquanto outras cidades enfrentavam seus próprios surtos locais, elas enviaram 40 mil funcionários da área de saúde a Wuhan, dobrando o contingente de médicos.

A lição é que regiões relativamente menos afetadas terão de resgatar as cidades sobrecarregadas. Para que essas áreas sejam mantidas relativamente a salvo do coronavírus é necessário adotar medidas rigorosas o quanto antes. Impedir a disseminação dentro das cidades Dentro das cidades, há focos de contágio: um restaurante, uma academia de ginástica, um hospital ou mesmo um táxi podem estar mais contaminados que outros por terem alguém tossindo no seu interior.

Cada dia de atraso na interrupção do contato humano cria mais focos, de acordo com os especialistas, e só será possível identificá-los na semana seguinte, quando os infectados começarem a adoecer. Para deter a disseminação, a atividade municipal deve ser limitada. Ainda assim, há aqueles que não podem abandonar seus postos: médicos, enfermeiros, motoristas de ambulância, policiais, bombeiros, técnicos da rede elétrica e das redes de gás e telefonia celular.

A entrega de alimentos e remédios deve continuar. Esses trabalhadores essenciais podem precisar de autorizações especiais caso a polícia receba ordem de manter as pessoas em casa, como ocorreu na China e na Itália. As pessoas de quarentena se adaptam. Em Wuhan, complexos de apartamentos enviaram pedidos coletivos de comida, remédios, fraldas e outros artigos essenciais.

Os carregamentos eram levados aos armazéns de víveres ou despensas do governo e distribuídos a partir dali. Quanto mais fraco for o congelamento, mais pessoas morrerão nos hospitais sobrecarregados, e mais tempo será necessário para o reinício da atividade econômica.

Resolver a bagunça dos testes

Os testes devem ser feitos de maneira coordenada e segura, de acordo com os especialistas. Os casos mais graves devem ser testados primeiro, e os responsáveis pelo teste devem ser protegidos. Na China, os interessados em serem testados precisam descrever seus sintomas em um site de telemedicina.

Se um enfermeiro decidir que é o caso de fazer o teste, eles são conduzidos a uma de dezenas de “clínicas para febris” organizadas longe dos demais pacientes. Funcionários usando equipamento de proteção da cabeça aos pés checam a temperatura do corpo e fazem perguntas.

Então, idealmente, os pacientes recebem um teste rápido de gripe, e é feita uma rápida contagem de glóbulos brancos para excluir a possibilidade de influenza e pneumonia bacteriana. Então os pulmões são examinados na tomografia computadorizada em busca de “opacidades de vidro moído” indicativas de pneumonia, excluindo a possibilidade de câncer e tuberculose. Só então eles recebem um teste para o coronavírus, orientados a esperar no centro de testes.

Os resultados ficam prontos em pelo menos quatro horas; no passado, se o resultado não ficasse pronto no dia, os pacientes eram levados a um hotel, onde esperavam dois ou até três dias quando os médicos acreditavam que o teste seria necessário. Podem ser necessários vários dias após a exposição para que um teste dê resultado positivo.

Isolar os infectados

De acordo com os especialistas, assim que for possível, os governos precisam desenvolver uma alternativa à prática de isolar os infectados em casa, algo que coloca em risco as famílias. Na China, entre 75% e 80% dos contágios ocorreram em núcleos de parentes.

Em vez de uma política que recomenda aos infectados que permaneçam em casa, como há nos EUA, os especialistas disseram que as cidades devem criar instalações onde pacientes apresentando sintomas leves e moderados possam receber o tratamento de uma equipe de enfermagem para se recuperar. Wuhan criou muitos centros do tipo, chamados de “hospitais temporários", uma mistura entre dormitório e clínica.

Localizar os febris

Como China, Taiwan e Vietnã foram atingidos pela SARS em 2003, e a Coreia do Sul enfrentou a MERS, a verificação da temperatura do corpo durante surtos de doença se tornou rotineira. Na maioria das cidades dos países asiáticos afetados, o procedimento é comum antes do embarque em qualquer ônibus, trem ou metrô, edifício de escritórios, teatro ou mesmo restaurante. Lavar as mãos com água misturada ao cloro também costuma ser exigido. Na China, quem apresenta febre precisa comparecer a uma clínica para fazer o teste do coronavírus.

Rastrear os contatos entre as pessoas

De acordo com os especialistas, localizar e testar todas as pessoas com quem um casos suspeito teve contato é essencial. No auge da sua epidemia, Wuhan tinha 18 mil pessoas rastreando indivíduos que tinham entrado em contato com os infectados. Luciana Borio, que era diretora de prontidão médica do Conselho de Segurança Nacional dos EUA antes da eliminação do seu departamento, indicou que os jovens deveriam usar suas redes sociais para “rastrear seus contatos por conta própria".

A estratégia da China é bem invasiva: para usar o metrô de algumas cidades, o cidadão deve baixar um aplicativo que identifica o quanto a pessoa representa um risco à saúde. Aplicativos sul-coreanos dizem aos usuários exatamente por onde os infectados passaram. Quando foi dar aula em uma universidade de Cingapura, Heymann disse que havia vários alunos em uma sala. Mas, logo antes da aula, eles foram fotografados para registrar onde cada um estava sentado.

“Assim, se for descoberto que algum deles estava infectado, podemos descobrir quem estava sentado ao lado da pessoa", disse Heymann. “É muito inteligente.” As pessoas que entraram em contato com os doentes devem ficar em casa por duas semanas e medir a temperatura do corpo duas vezes ao dia.

Tornar as máscaras onipresentes

Há pouquíssimos dados, indicando que as máscaras cirúrgicas descartáveis protegem indivíduos saudáveis contra a infecção. Independentemente disso, os países asiáticos costumam incentivar o público a usá-las. Todos os especialistas concordam que os doentes devem usar as máscaras para conter a tosse.

Mas, se uma máscara indica que a pessoa que a está usando está doente, muitos relutarão em usá-las. Se todos forem obrigados a usar máscaras, os doentes vestirão máscara automaticamente, sem nenhum estigma. Além disso, os especialistas enfatizaram que as pessoas devem levar a sério as proibições aos apertos de mão e abraços.

Produzir respiradores mecânicos

A expectativa é que os respiradores nos hospitais sejam muito insuficientes para lidar com a explosão no número de pacientes. Os fabricantes dizem que não há maneira fácil de aumentar a produção rapidamente. Mas é possível recrutar outros fabricantes, como as empresas do segmento aeroespacial e automobilístico.

Enquanto isso, os prestadores de serviços de saúde buscam alternativas freneticamente. Enfermeiros canadenses estão divulgando um estudo de 2006 descrevendo como um respirador pode ser modificado para tratar quatro pacientes ao mesmo tempo. Os países também precisam trabalhar no sentido de aumentar seu estoque de cilindros de oxigênio, disse Bruce Aylward, líder da equipe de observação da OMS na China.

Adaptar os hospitais

Os hospitais dos EUA adotaram algumas medidas para lidar com a alta no número de infectados, como interromper as cirurgias eletivas e preparar alas de isolamento. Em Wuhan, o governo chinês construiu dois novos hospitais em duas semanas. Todos os demais hospitais foram divididos: 48 deles foram destinados ao tratamento de 10 mil casos sérios ou críticos de infecção pelo coronavírus, enquanto outros se limitaram a lidar com emergências como ataques cardíacos e partos. Quando isso era impossível, os hospitais foram divididos em zonas “limpas” e “sujas”, e as equipes médicas de ambas não se misturavam.

Recrutar voluntários

De acordo com os especialistas, os esforços da China deram resultado em parte graças a centenas de milhares de voluntários. O governo declarou uma “guerra popular” e deu início a uma campanha, “Resista, Wuhan! Resista, China!” Muitas pessoas ociosas por causa da quarentena deram um passo adiante para trabalhar na verificação da temperatura do corpo das pessoas, no rastreamento de contatos, na construção de hospitais, na entrega de comida e até como babás de filhos de trabalhadores da área da saúde, ou nos crematórios.

Com algum treinamento, os voluntários puderam ajudar em tarefas médicas simples, porém essenciais. “Temos uma situação em que precisamos dos esforços de todos", disse o almirante Ziemer.

Dar prioridade aos tratamentos

Clínicos na China, na Itália e na França usaram tudo que havia ao alcance da farmácia dos hospitais no combate, e pelo menos duas possibilidades parecem ajudar a salvar os pacientes: os remédios cloroquina e hidroxicloroquina, de combate à malária, e o antiviral remdesivir, sem uso licenciado. Não há provas da eficácia desses medicamentos contra o vírus.

A China fez mais de 200 testes clínicos. Itália e França estão realizando testes, e os hospitais de Nova York estão desenvolvendo seus protocolos agora. Se algum remédio funcionar nos casos mais críticos, talvez seja possível usar doses pequenas como profilaxia, impedindo a infecção.

Uma alternativa é colher anticorpos de proteção do sangue de pessoas que sobreviveram à doença, disse Peter J. Hotez, reitor da Escola Nacional de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina Baylor, em Houston. O soro sanguíneo puro — chamado imunoglobulina — poderia ser usado em pequenas quantidades para proteger também os funcionários da emergência médica.

Encontrar uma vacina

A esperança de todos é encontrar uma vacina capaz de proteger a população, e muitas empresas e governos já se lançaram apressadamente no desenvolvimento de possíveis candidatas. O processo leva pelo menos um ano, mesmo se nada der errado. De acordo com os especialistas em vacinas, o obstáculo não é burocrático. A questão é que o sistema imunológico humano leva semanas para produzir anticorpos, e alguns efeitos colaterais perigosos podem levar semanas para surgir.

Depois de uma extensa fase de testes em animais, as vacinas costumam ser aplicadas em 50 voluntários humanos saudáveis para ver se causam efeitos colaterais inesperados e medir a dose que produz anticorpos em volume suficiente, protegendo o paciente. Se isso der certo, o teste buscará centenas de voluntários em uma área onde o vírus circule. Metade receberá a vacina, e a outra, não — os pesquisadores então esperam.  Se a metade vacinada não contrair a doença, a produção da vacina recebe luz verde.

Ajudar outros países

Os países ricos precisam lembrar que a situação será muito mais difícil para os países pobres, que precisarão de ajuda. Além disso, os países asiáticos que contiveram o vírus podem compartilhar sua experiência e equipamento, tão necessário. Os países ricos ignoraram os alertas diários de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da OMS, segundo os quais esforços mais agressivos de isolamento e rastreamento de contatos seriam urgentemente necessários para deter o vírus.

Ao declarar o coronavírus uma pandemia, Tedros apelou aos países para que aprendessem com o sucesso uns dos outros, agindo com união e ajudando um ao outro a se protegerem contra uma ameaça às pessoas de todas as nacionalidades. “Temos que cuidar uns dos outros", disse ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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