Adriana Zehbrauskas/The New York Times
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Sacos de lixo e meias-calças: como os cursos de música estão sobrevivendo na pandemia

Preocupados em espalhar o vírus por meio de instrumentos ou canto, grupos de estudantes de música estão encontrando maneiras inovadoras de se apresentarem juntos

Aishvarya Kavi, The New York Times - Life/Style

13 de janeiro de 2021 | 05h00

Em 13 anos estudando flauta, Gabriella Alvarez nunca imaginou que tocaria seu instrumento cobrindo-o com um saco de lixo transparente. Kevin Vigil nunca vislumbrou seus colegas de tuba cobrindo as campanas dos instrumentos com meias-calças.

E nenhum dos dois esperava ver sua fanfarra, na Universidade Estadual do Novo México, tocar usando máscaras faciais de tecido, com os músicos separados por bambolês de 1,80 metro de diâmetro, com bolsas cheias de álcool em gel e desinfetante amarradas na cintura. Mas esse ensaio ocorre durante uma pandemia.

Os dois estudantes estão gratos por poderem ensaiar de alguma maneira. Em março, o coronavírus encerrou as atividades de sua banda, assim como de grande parte do país, demonstrando dolorosamente que a pandemia não deixaria de afetar nenhum aspecto de sua educação. Levaria cinco meses até que eles retomassem a preciosa possibilidade de tocar juntos outra vez.

“No meio do verão [do hemisfério norte], comecei a tocar meu instrumento sozinha e chorava, porque estava muito abalada”, afirmou Gabriella, de 22 anos. “Tocar com outras pessoas é parte do que me faz amar a música.”

Em dezenas de entrevistas, estudantes e professores envolvidos em cursos de música em todo os EUA descreveram agonia semelhante - e adaptações semelhantes. Em muitos distritos, as escolas paralisaram seus cursos de música ou continuaram com as atividades apenas on-line, já que a transmissão por aerossol do coronavírus durante ensaios de bandas ou coros podia transformar esses encontros em eventos de supertransmissão.

As bandas e orquestras que continuaram com seus cursos on-line descobriram, com frequência, que as plataformas comuns de conversa por vídeo são inadequadas, por causa de atrasos nas transmissões de áudio. E estudantes afirmam que simplesmente não há substituto para ensaios, apresentações e aulas presenciais. Mesmo em aulas particulares ou com pequenos grupos on-line, detalhes de posições adequadas no instrumento, afinação e ritmo se perdem pela webcam, afirmaram eles.

Gabriella, que está estudando para se apresentar como instrumentista, perdeu a orientação cara a cara que precisava para se preparar para testes de ingresso em orquestras profissionais. O primeiro estágio como professor de Vigil, uma etapa essencial para obter o diploma em educação musical que almeja, foi cancelado. Em vez de correr o risco de entrar em um mercado de trabalho devastado pelo vírus, ambos optaram por postergar a formatura.

Incapazes de introduzir na música crianças em idades de formação, professores temem uma queda duradoura na participação no ensino musical, o que poderia acabar com grande parte da próxima geração de músicos.

“Se nem as crianças nem os estudantes universitários conseguem participar de atividades com música, isso vai criar um vazio que vai reverberar por um longo tempo”, afirmou Mark J. Spede, presidente da Associação Nacional de Diretores de Bandas Universitárias.

Em vez de tocar música em conjuntos, alguns cursos estão ensinando história da música ou teoria musical aos estudantes - ou fazem com que eles mandem vídeos tocando seus instrumentos, que são editados em colagens que fazem parecer que todos estão tocando juntos. Mas a produção dessas colagens exige recursos que muitas escolas não possuem.

Na Escola do Ensino Médio North Kansas City, no Missouri, onde o governador cortou o orçamento para educação, a diretora de banda Carrie Epperson trabalhou em 2020 somente com metade dos fundos que teve no ano anterior e ainda está esperando por um financiamento prometido por seu distrito escolar para instrumentistas de sopro. Contudo, o uso de máscaras e o rigoroso distanciamento social parecem ter funcionado: nenhum membro da banda teve resultado positivo no teste do coronavírus.

Brenna Ohrmundt é diretora de banda em uma pequeno distrito de baixa renda na zona rural do Wisconsin, onde os casos de coronavírus explodiram em novembro. Quando as escolas fecharam, em março, poucos estudantes tinham instrumentos em casa. Quando eles retornaram às aulas, no terceiro trimestre, eles ainda não tinham permissão para tocar juntos.

“Meu medo é que os estudantes digam: ‘Não foi para isso que eu me matriculei’”, afirmou Ohrmundt. 

Ainda assim, em um momento em que os alunos poderiam se sentir desencorajados a continuar o estudo de música, os educadores estão descobrindo maneiras inovadoras para que eles toquem juntos em segurança.

Spede, que também dirige bandas na Universidade Clemson, reconheceu logo cedo que os educadores não sabiam quais atividades musicais poderiam ser seguras. Ele iniciou um estudo no qual pesquisadores da Universidade do Colorado e da Universidade de Maryland mediram a disseminação de aerossóis quando as pessoas cantam, dançam ou tocam instrumentos.

“Eu temia que as pessoas, os gestores ou quem fosse tivessem uma reação tacanha de dizer que tornou-se simplesmente impossível tocar música ao vivo presencialmente com segurança”, afirmou Spede. “O que estamos tentando fazer com esse estudo é, literalmente, salvar a música.”

Resultados preliminares do estudo mostram que algumas regras simples podem evitar que o vírus se espalhe em conjuntos musicais: uso de máscara, mesmo que isso implique abrir um buraco nela para ser possível tocar um instrumento; cobrir a campana de instrumentos de sopro, como trompetes, com nylon (tecidos como o das meias-calças); e ensaiar ao ar livre, quando possível, ou em áreas com ventilação adequada.

“Até essa informação dá esperança para as pessoas, neste momento em que tanto precisamos”, afirmou Rebecca Phillips, presidente da Associação Nacional de Bandas e diretora de bandas da Universidade Estadual do Colorado.

Gabriella chorou lágrimas de alegria e alívio no dia de agosto em que a fanfarra da Universidade Estadual do Novo México se reuniu. 

Steven Smyth, diretor-assistente de bandas da universidade, trabalhou o verão inteiro com docentes e estudantes para definir medidas de segurança. Os ensaios passaram a ser sempre ao ar livre. Para aplicar o distanciamento social, Smyth desenvolveu “bambolês" com 1,80 de diâmetro, feitos de canos, que rodeiam cada músico. Ele recrutou um flautista estudante de engenharia para personalizar máscaras para os músicos com fendas que se fecham magneticamente nos bocais dos instrumentos.

Foram encomendadas coberturas de nylon para as campanas, as saídas de ar do naipe de metais. E, seguindo outra recomendação do estudo, os instrumentistas de sopro também têm de esvaziar as “válvulas de cuspe” - ou chaves de saliva, que absorvem a condensação que ocorre dentro do instrumento - em tapetes usados para filhotes de cachorro urinarem.

“Tinha muita negatividade circulando”, afirmou Gabriella. “Mas, quando as máscaras apareceram, muitas pessoas começaram a dizer ‘Vejam, vamos voltar, isso vai realmente acontecer’”.

Smyth afirmou que a fanfarra não registrou nenhum teste positivo de coronavírus entre os estudantes. Nacionalmente, a Associação Nacional de Diretores de Bandas Universitárias afirma que nenhuma infecção de universitários integrantes de bandas foi atribuída às atividades das bandas, afirmou Spede.

“Sinto-me um pouco mais seguro só por saber que há muita gente lutando para manter as artes vivas”, afirmou Vígil. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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