Alessandro Grassani The New York Times
Alessandro Grassani The New York Times

Encontros e desencontros: relacionamentos são testados na pandemia

Em poucas semanas, a epidemia de coronavírus transformou a maneira de as pessoas se relacionarem e de namorarem

Dan Bilefsky e Ceylan Yeginsu, The New York Times

01 de abril de 2020 | 06h00

MONTREAL – Depois de higienizar a tampa de suas latinhas de cerveja, Morgane Clément-Gagnon, e o homem que conhecera online sentaram separados em um banco do parque em Montreal. Os dois se cumprimentaram tocando a ponta dos tênis. Mas quando a risada abriu a conversa sobre os respectivos medos, ela se curvou esperando um beijo.

Torturada pela febre e confinada em seu apartamento apertado de dois quartos em Istambul, Zeynap Boztas, se sentia engaiolada, não apenas fisicamente, mas também psicologicamente. Ela planejava enxotar o marido de casa e divorciar depois que encontrara aplicativos de namoro no iPad dele, que agora estava deitado na cama ao seu lado.

Em seu apartamento em Berlim, Michael Scaturro participava de uma happy hour com 15 amigos solteiros de Berlim, Madri, Londres e Nova York. Tomando merlot, o grupo discutia se seria prudente procurar um “namorado corona”, ou namorada, para ajudar a passar a crise. Estes são alguns vislumbres das vidas radicalmente alteradas de milhões de pessoas em todo o mundo que precisam viver o amor, o ódio e o amplo terreno em meio a ambos sob o tirânico governo do coronavírus.

Em poucas semanas, a epidemia global transformou a maneira de as pessoas se relacionarem, de namorarem e o próprio sexo. Casamentos foram adiados, enquanto as taxas de divórcio subiram dramaticamente na China enquanto a crise abrandava. Com o fechamento das fronteiras, amantes e membros da família estão sofrendo dolorosas separações.

Por outro lado, a crise deu origem a um novo léxico. Onde antes havia os “bebês do blecaute”, agora podemos esperar uma onda de “coronabebês” e uma nova geração de “quarenteens”(adolescentes) em 2033. Os casais, cujas uniões estão se desfazendo sob as pressões do isolamento, talvez estejam caminhando para um “covidivórcio”.

Manter os casos recentes também se tornou mais difícil. Um homem de uma pequena cidade da província de Santiago del Estero, na Argentina, gabou-se com os amigos de que havia tido um encontro com uma ex-namorada ao regressar da Espanha. Foi imediatamente denunciado às autoridades.

A cidade inteira foi fechada e posta em quarentena no dia 14 de março. O homem posteriormente se tornou o primeiro caso confirmado de coronavírus da província. Lucy Atcheson, uma psicóloga de Londres, disse que os fechamentos estavam gerando um novo tipo de intimidades, ampliando ao mesmo tempo os atritos para alguns e os conflitos para outros.

“É como colocar todos os nossos problemas em uma frigideira e esquentá-los”, afirmou. “Uma coisa como esta também nos faz perceber  quão curta é a vida. Por isso, se a pessoa estiver em um relacionamento ruim, irá deixá-lo assim que puder, porque terá se dado conta de que a vida é curta demais para sofrer assim.” Zeynap Boztas, a mulher de Istambul, disse que o coronavírus a levou à beira do esgotamento nervoso. Ela decidira se separar do marido com quem estava casada havia 12 anos antes que a cidade fosse fechada. Depois que ela o enfrentou, ele concordou em sair.

“Finalmente pensei que estava livre,” afirmou. Mas ele insistiu em permanecer na casa da família até que a ameaça do coronavírus amainasse. Agora, ela e o marido estão combatendo sintomas de um forte resfriado e da influenza que ela teme possam vir a ser o contágio por coronavírus.

“Devo me preocupar com a febre?”, ela perguntou. “Devo me preocupar em pôr a comida na mesa? Limpar? Entreter as crianças? Recolher a roupa suja que meu marido joga no chão? Não há como escapar dessa situação insana”. Para os solteiros, a crise do corona está trazendo dois tipos de dificuldade.

Depois de começar a namorar com um músico neozelandês pelo Hinge, um aplicativo de namoro, disse Morgane, os passaram a se falar por chamada de vídeo. Ansiosos por se conhecer de perto, optaram por um encontro com “distanciamento social” e fones de ouvido em um parque.

Morgane disse que queria vê-lo de novo, Mas haviam surgido obstáculos: sua irmã acabara de regressar da Austrália e estava morando com ela em quarentena. O homem queria regressar à Nova Zelândia para estar com a família. Os namorados trocavam continuamente mensagens de texto e avaliavam os riscos de se verem mais uma vez. No final, Morgane decidiu quebrar a sua quarentena e encontrá-lo no apartamento vazio de um amigo, para conversar, ver filmes e encontrar conforto um nos braços do outro.

“Será que o corona está fazendo algum encantamento com as pessoas?”, ela perguntou. “Tenho medo em todo lugar, e neste encontro inesperado não senti medo algum. Talvez esta seja uma história do coronavírus que morrerá quando a doença se for. Aconteça o que acontecer, foi um momento maravilhoso”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.